O livro do Papa Bento XVI que analisa esse candente tema vem despertando crescente interesse na Europa – não apenas nos restritos círculos intelectuais, mas também no grande público católico, e mesmo entre pessoas de outras confissões religiosas.
Pequena em volume (60 páginas), mas rica em conteúdo doutrinário, a obra intitulada A Beleza – A Igreja se compõe de dois magistrais textos do então Cardeal Ratzinger, quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
São eles: Uma sociedade sempre em reforma, conferência pronunciada em 1990, e O sentimento das coisas, a contemplação da beleza, mensagem para o Meeting de Rimini em 2002.
Dom Luigi Negri, Bispo de San Marino-Montefeltro (Itália), que preparou a edição do livro, escolheu de modo muito adequado esses dois temas, considerando-os afins e “substanciais para se compreender o Mistério da salvação cristã”, como afirma ele no prefácio.
Descontentamentos em relação à Igreja
Logo no início da conferência de 1990, o Pontífice se refere ao “descontentamento em relação à Igreja” e lança uma pergunta: por que esta Instituição parece importuna a muitas pessoas, inclusive a católicos que podem ser contados entre os mais fiéis?
“Alguns sofrem porque a Igreja adaptou-se demais aos parâmetros do mundo atual; outros estão aborrecidos porque ela parece estranha demais a este mundo” – constata.
Observa em seguida que, para a maior parte dos descontentes, a restrição à Igreja se deve ao fato de ser ela uma instituição que limita a liberdade individual.
As normas de vida da Igreja exigem decisões que eles “não podem tomar sem a dor da renúncia”. Sentem-se comprimidos, tanto em seu livre pensamento quanto em sua livre vontade.
E por isso se perguntam se a única reforma verdadeira não consistiria em rejeitar todas essas normas.
A esse motivo de amargura, junta-se outro: sujeito às duras leis e às inexoráveis tragédias do mundo de hoje, o homem espera poder realizar na Igreja o seu sonho utópico de um mundo melhor.
Quando vê frustrada essa fantasia, arma-se de uma “cólera particularmente amarga”. E conclui que é preciso reformar a Igreja, para que ela seja tal como ele sonha.
A “Reforma inútil”
Como fazer essa pretendida reforma?
Na ótica dos “reformadores”, passando “de uma Igreja paternalista e distribuidora de bens para uma Igreja-comunidade”. Para isso, ninguém pode permanecer como um passivo recebedor de benefícios; todos devem ser ativos agentes transformadores.
O atual Papa dá a esses agentes da reforma, o qualificativo de “ativistas”. Ele faz uma comparação entre o “ativista”, o homem auto-suficiente, e o “admirador”, o homem capaz de admirar. E manifesta francamente sua preferência pelo admirador.
Quanto ao ativista, expõe nos seguintes termos a ideia que o caracteriza:
A Igreja não pode mais descer lá do alto. Não! Somos nós que “fazemos”a Igreja, e a “fazemos” sempre nova. […] O aspecto passivo cede lugar ao ativo […] A Igreja brota de discussões, acordos e decisões.
Assim sendo, somente através de debates poderia ser democraticamente definido aquilo que todos podem aceitar como verdade de Fé ou como norma moral.
Nessa linha de raciocínio, chegou a explicitar-se, na Alemanha, a tese de que a Liturgia não deve mais corresponder a um esquema preestabelecido, mas, ao contrário, deve nascer “na hora”, por obra da comunidade que a celebra.
Nota Joseph Ratzinger que essa reforma introduziria na Igreja a autogestão, sujeitando-a ao complexo jogo das eleições segundo o moderno sistema político. E, entre outras falhas, aponta esta:
Tudo quanto uma maioria decide pode ser revogado por outra maioria. Uma Igreja baseada nas decisões de uma maioria torna-se uma Igreja puramente humana […] A opinião substitui a fé. […] O significado da palavra “creio” jamais vai além do significado de “nós pensamos”.
Modelo para a verdadeira reforma
Após expor, nos termos acima, aquilo que ele próprio qualifica de “reforma inútil”, o então Cardeal afirma, com sua segurança de teólogo exímio e sua autoridade de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé:
A “reformatio”, a reforma que é necessária em todos os tempos, não consiste em podermos remodelar sempre de novo “nossa” Igreja como mais nos agrade, em podermos inventá-la; pelo contrário, consiste em afastarmos sempre nossas próprias bases de sustentação, em favor da puríssima luz que nos vem do alto e que é, ao mesmo tempo, a irrupção da pura liberdade.
E recorre a uma metáfora, para melhor explicitar seu pensamento. Com seu olhar de artista, Michelangelo via oculta no bloco de pedra bruta a imagem que estava à espera de ser posta por ele à luz do dia. Sua tarefa consistia somente em libertar a imagem daquilo que a cobria.
Já anteriormente São Boaventura comparava à escultura o esforço de aperfeiçoamento do homem: a obra do escultor é uma ablatio (ablação; ação de tirar, de remover), isto é, consiste apenas em eliminar os obstáculos. É por meio da ablatio que se liberta a preciosa imagem.
Assim também o homem, para que resplandeça em si a imagem de Deus, deve sobretudo aceitar essa purificação pela qual o Divino Escultor o livra de todas as escórias que cobrem essa imagem.
“Se entendemos bem essa figura, podemos encontrar nela o modelo para a reforma eclesial”, acrescenta o Cardeal.
Ressalva que, obviamente, a Igreja terá sempre necessidade de um suporte humano; longe de serem instrumentos restritivos da liberdade, as instituições eclesiásticas são necessárias e mesmo indispensáveis; mas não devem ser vistas como elementos essenciais.
“Reforma é sempre uma ablatio, uma ação de remover, a fim de tornar visível a figura nobre, a face da Esposa e, junto com ela, a face do Esposo, o Deus vivo. […] A verdadeira reforma é, pois, uma ablatio” – escreve ele.
A admiração prepara o ato de Fé
Reportando-se à comparação entre o ativista e o admirador, o Cardeal Ratzinger sublinha que o primeiro põe sua atividade acima de tudo e, com isso, limita seus horizontes, restringe sua visão do mundo àquilo que é empírico, torna-se um “homem amputado”.
E afirma:
A autêntica admiração, pelo contrário, é um “não” às limitações daquilo que é empírico […] Ela prepara o homem para o ato de Fé, que lhe escancara o horizonte do Eterno, do Infinito. […] A própria Fé, em toda a sua grandeza e amplitude, é sempre, portanto, a reforma essencial da qual temos necessidade.
Lamenta o Cardeal o fato de existir hoje, “inclusive em elevados ambientes eclesiásticos”, a ideia de que uma pessoa será tanto mais cristã quanto mais estiver empenhada em atividades eclesiais.
Ora, ressalva ele, alguém pode exercer sem cessar atividades associativas eclesiais e não ser totalmente cristão; algum outro, pelo contrário, pode praticar o amor que provém da fé, sem ter jamais comparecido a uma comissão eclesiástica, e ser um verdadeiro cristão.
E afirma: “Não é de uma Igreja mais humana que necessitamos, mas sim de uma Igreja mais divina; e só então ela será também verdadeiramente humana”.
O importante papel do perdão e do sofrimento
Aborda, por fim, o Cardeal Ratzinger, em comovedoras palavras, dois importantes aspectos.
Primeiro, o papel do perdão que limpa a alma da “poeira e imundície” e restaura nela a imagem de Deus; o perdão que é “centro de renovação”, não apenas do indivíduo, mas também da comunidade. Em segundo lugar, o papel da dor na vida humana.
Uma visão do mundo que não pode dar um sentido também à dor e torná-lo precioso, para nada serve. Enganam-se aqueles que, a respeito da dor, sabem dizer apenas que é preciso combatê-la. É certamente necessário fazer de tudo para aliviar a dor de tantos inocentes e para pôr limites ao sofrimento.
Mas não existe uma vida humana sem dor, e quem não é capaz de aceitar a dor subtrai-se àquelas purificações que, somente elas, nos tornam pessoas maduras.
“A beleza é verdade e a verdade é beleza”
Em que consiste a beleza, e qual é seu papel nesse contexto? Este é o tema da mensagem do Cardeal Ratzinger para o Meeting de Rimini, em 2002.
Começa ele por apresentar um paradoxo que se verifica na Liturgia das Horas, tempo da Quaresma. No Salmo 144, Jesus Cristo é assim qualificado: “Sois o mais belo dos filhos dos homens, a graça expande-se em vossos lábios” (v.3).
Entretanto, Isaías profeta o descreve como “um pobre rebento enraizado em terra árida, sem graça nem beleza para atrair nossos olhares […] desprezado, escória da humanidade, varão de dores” (53, 2-3).
Como conciliar essa aparente contradição?
Comentando esses dois trechos, Santo Agostinho os compara a duas trompas que soam em contraposição, cujo som, entretanto, é produzido pelo mesmo sopro, o do Espírito Santo. Não se trata de uma contradição, esclarece o Cardeal.
Ambas as citações provêm do mesmo Espírito que inspira toda a Escritura, e, assim, nos coloca diante da totalidade da verdadeira beleza, da própria verdade. […]
Quem crê em Deus, no Deus que se manifestou no semblante alterado de Cristo, crucificado por um amor levado ao extremo, sabe que a beleza é verdade, e que a verdade é beleza.
Uma forma superior de conhecimento
A beleza é certamente uma forma superior de conhecimento, diz ele, porque “golpeia o homem com toda a grandeza da verdade”.
O verdadeiro conhecimento consiste em ser alcançado pelo dardo da beleza, ser tocado pela realidade da presença pessoal do próprio Cristo. “Ser atingido e conquistado pela beleza de Cristo é um conhecimento mais real e profundo do que a mera dedução racional”.
No fim, o Cardeal cita a conhecida frase de Dostoievski, “a beleza nos salvará”, ressaltando que, nela, o famoso literato se refere à beleza redentora do divino Salvador.
E conclui: “Nada nos aproxima mais da beleza de Cristo que o mundo do belo criado pela fé e a luz que resplandece na fisionomia dos Santos, através da qual torna-se visível a própria Luz de Cristo”.