A Catedral da Sé de São Paulo está repleta de fiéis que esperam o início de uma celebração. Um toque de trompete corta o leve burburinho e a movimentação de pessoas que ainda procuram um lugar sentado, antes da cerimônia.

Principia então um solene cortejo, precedendo a imagem peregrina do Imaculado Coração de Maria, que será em seguida coroada simbolicamente, enquanto os fiéis aclamam calorosamente a Rainha dos Céus.

Esse ato constitui a abertura da devoção dos Primeiros Sábados, que os Arautos do Evangelho promovem na Catedral da Sé. 

Após a coroação de Nossa Senhora, sucedem-se a recitação do terço, a meditação de 15 minutos e a Celebração Eucarística, enquanto as numerosas filas de Confissão avançam vagarosamente, conduzindo os fiéis à reconciliação com Deus.

São muitas as pessoas que, de passagem pelo centro da cidade, entram nessa grandiosa igreja, atraídas pela movimentação ou, simplesmente, para apreciar a bela arquitetura do edifício sagrado, sendo surpreendidas por essa cerimônia de raro esplendor.

Encantados pela beleza da liturgia e da música, ou por um discreto convite da graça, muitos se deixam ficar, a fim de assistir a todo o ato. E logo nasce a pergunta: quem são esses jovens? O que fazem? Como vivem?

Uma vida dedicada à evangelização

Ao tomar contato com os Arautos pela primeira vez, numa cerimônia litúrgica, dificilmente se pode ter ideia de todas as atividades evangelizadoras levadas a efeito pela instituição, que qualquer um dos consagrados, que ali participam de uma cerimônia tão solene, está disposto a empreender.

Essa disposição é mais viva, é claro, entre os que constituem o ramo sacerdotal, destinado mais especificamente ao anúncio do Evangelho, e à administração dos mistérios divinos, na liturgia.

Mas os desafios de nosso tempo nos levam a utilizar o maior número de meios ao alcance, para levar a Palavra a todos os homens, sem exceção, pois nossa sociedade está cada vez mais secularizada, ou seja, mais afastada de Deus e da Igreja.

Foi essa uma das razões que levaram o episcopado latino-americano, na 5ª Conferência do CELAM a lançar a grande missão continental. 

Como chegar àquele que está tantas vezes próximo, mas muito distante de Deus, é um problema que não se reduz à simples transposição de um espaço.

Há uma distância entre o coração do homem e o Infinito, que nem sempre é fácil de transpor… Precisa-se do auxílio da graça divina, a qual se serve com frequência de instrumentos humanos ou materiais.

É com esse intuito, de serem simples instrumentos de Deus, que os Arautos desenvolvem suas atividades evangelizadoras.

São elas: as visitas da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima aos lares, o Apostolado do Oratório do Imaculado Coração de Maria, a divulgação de publicações religiosas, de estampas, medalhas, CDs de música e a própria revista Arautos do Evangelho.

Espírito missionário

No entanto, na alma dos arautos ressoam continuamente as palavras de Nosso Senhor aos Apóstolos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15).

Esse mandato vibra com mais intensidade ainda naqueles que receberam as ordens sagradas, pois lhes foi impresso na alma, pelo Espírito Santo, ao lhes serem impostas as mãos, no Sacramento da Ordem.

Partir em missão para terras distantes, a fim de exercerem o seu ministério sacerdotal e anunciar a Boa Nova, é para eles a maior felicidade nesta terra.

Os Arautos na África

Moçambique, na África austral, é uma dessas terras de missão onde os Arautos do Evangelho desenvolvem sua atividade.

O fato de ser um dos países mais pobres do mundo, devido aos conflitos armados que assolaram o país durante décadas, não constitui obstáculo ao surgimento de numerosas vocações entre os jovens, os quais manifestam grande avidez de sobrenatural.

E, como sempre ocorre em circunstâncias análogas, “a messe é grande, mas os operários são poucos” (Mt 9, 37). Dificuldade acrescida, ainda, pelas enormes carências materiais do país. 

Para os Arautos do Evangelho moçambicanos, onde encontrar os meios materiais para atender as centenas de jovens que são catequizados por eles, nas escolas de Maputo, a capital?

E como dar formação religiosa e cultural aos vocacionados, que aspiram a uma vida de consagrados ou, mesmo, ao sacerdócio?

Esse surto de religiosidade entre os africanos suscitou no Pe. Hamilton Naville, EP, quando ainda era diácono, o forte desejo de partir em missão para Moçambique. Desejo que os esplendores da liturgia de ordenação presbiteral intensificaram vivamente.

Algum tempo depois, um inesperado convite, confirmado pelo Pe. João Clá, EP, veio transformar em realidade esse profundo anseio missionário. Para o Pe. Hamilton, esse pedido foi um verdadeiro presente do Céu, que ele aceitou avidamente, consciente de todas as renúncias que lhe eram pedidas.

Pequenas e grandes dificuldades

Para nós que vivemos no mundo ocidental, habituados às pequenas comodidades da sociedade moderna, ao alcance da mão em qualquer loja ou supermercado, talvez não seja tão evidente o que significa ir para uma terra de missão, recentemente saída de uma guerra civil.

Desde a alimentação precária (carne, ovos, peixe, constituem artigos de luxo e o nosso indispensável cafezinho uma raridade), proliferação de malária e de outras epidemias, dificuldades de transporte (percorrer 10 km a pé, ou mais, para ir à Missa, não é considerada uma longa viagem).

Até a falta de algo tão comum para nós como um simples cobertor, nas frias noites de inverno, são algumas das dificuldades que é preciso suportar com naturalidade.

O Continente da Esperança

Mas para um coração sacerdotal, todas essas carências se reduzem à mínima expressão diante da grandiosidade e dos mistérios do continente africano, do vasto campo das almas a cuidar, e da avidez de sobrenatural daqueles povos.

Talvez por isso o saudoso Papa João Paulo II tenha sido levado a qualificar a África como o Continente da Esperança.

Assim que chegou à casa dos Arautos, em Maputo, logo o Pe. Hamilton pôde medir a vastidão das necessidades. De imediato, teve de dar assistência a duas igrejas próximas – Mastrong e Nossa Senhora da Assunção – cujos párocos se ausentariam para fazer o retiro anual.

Nova dificuldade se apresentou: embora o português seja a língua oficial, muitos só falam as línguas nativas, e a homilia teve de ser traduzida para o xangane, pois o padre apenas sabe dizer zixilii (bom dia).

Porém, quando a Fé do povo é grande, a diversidade de línguas ou raças deixa de ser uma barreira.

Além das paróquias, o Pe. Hamilton teve de cuidar, também, dos arautos. Tanto dos que já vivem em comunidade na academia (ainda em construção), onde fazem seus estudos (são cerca de 60), como os que são catequizados através do “Projeto Futuro e Vida”, nas escolas secundárias de Maputo e nas paróquias.

Celebrar Missa, atender Confissões, dar formação doutrinária aos jovens são atividades que ocupam largamente o dia a dia, pouco tempo sobrando para a celebração da Liturgia das Horas, adoração ao Santíssimo Sacramento e demais orações quotidianas.

Surgimento de vocações

Para um sacerdote, é praticamente impossível restringir seu ministério aos limites do próprio instituto. Um novo carisma na Igreja é sempre um fator de atração para os fiéis, pois mais sensivelmente se nota a ação do Espírito Santo que os suscita.

Foi o que ocorreu com a visita ao Arcebispo de Maputo, D. Francisco Chimoio, OFM. Cap. Afavelmente acolhido por D. Francisco, logo se seguiu o convite para dar um contributo ao Seminário Maior, dando palestras sobre a nova evangelização através da mídia.

Tema que interessou vivamente os cerca de 100 seminaristas, por constituir um constante desafio para a Igreja de nosso tempo.

Também entre os arautos, Pe. Hamilton encontrou um bom número de chamados para o sacerdócio. Mas, com a alegria de descobrir promissoras vocações para a Igreja, vieram as dificuldades e apreensões.

Não seria melhor levar alguns para serem formados na Casa-Mãe dos Arautos, em São Paulo? Ou, pelo contrário, seria preferível concentrar os esforços na África, apesar das carências locais?

Uma e outra solução têm suas vantagens e desvantagens. De qualquer forma, o encontro com o carisma originário é de um benefício insuperável. 

Foi por isso que Pe. Hamilton, ao tomar contato com a pujança de Fé dos moçambicanos, optou por enviar 13 desses jovens ao Brasil, graças à abnegação de generosos doadores, a fim de fazerem uma experiência vocacional.

Sem dúvida, esse intercâmbio é benéfico também para quem acolhe os visitantes, e convive com essa Fé que não está maculada pelas dúvidas do racionalismo.

A África é ainda uma terra quase virgem onde a semente da Fé não deu seus melhores frutos, prenunciados pela beleza e grandiosidade de sua natureza agreste, mas cheia de colorido e vida.

Para que essas sementes frutifiquem é necessário regá-las com muita abnegação e oração.

A todos quantos sentirem inspiração de rezar por esses jovens, que nos próximos meses farão sua experiência vocacional, e por tantos outros que não puderam vir, por falta de recursos, eles agradecem essas valiosas orações.

Orações para que a África, de Continente da Esperança, passe a ser um continente transbordante de Fé, e exemplo de catolicidade para o mundo inteiro.