“Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (1Cor 11, 26).
Com estas palavras, São Paulo recorda aos cristãos de Corinto que a “ceia do Senhor” não é apenas um encontro de convívio, mas também, e sobretudo, o memorial do sacrifício redentor de Cristo.
Quem nele participa, explica o Apóstolo, une-se ao mistério da morte do Senhor, aliás, faz-se arauto da mesma.
Portanto, existe um relacionamento muito estreito entre o “fazer a Eucaristia” e o “anunciar Cristo”.
Entrar em comunhão com Ele, no memorial da Páscoa, significa ao mesmo tempo tornar-se missionário do evento que tal rito atualiza; num certo sentido, significa torná-lo contemporâneo de todas as épocas, até que o Senhor volte.
Caríssimos Irmãos e Irmãs, revivemos esta maravilhosa realidade na hodierna solenidade de Corpus Christi, em que a Igreja não apenas celebra a Eucaristia, mas também a leva de forma solene em procissão, anunciando publicamente que o Sacrifício de Cristo é para a salvação do mundo inteiro.
Reconhecida por este dom imenso, ela reúne-se em redor do Santíssimo Sacramento, porque ali estão a fonte e o ápice do próprio ser e agir.
Ecclesia de Eucharistia vivit! A Igreja vive da Eucaristia e sabe que esta verdade não exprime apenas uma experiência quotidiana de fé, mas encerra de modo sintético o núcleo do mistério que ela mesma é (cf. Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, 1).
Desde que, com Pentecostes, o Povo da Nova Aliança “iniciou a sua peregrinação para a Pátria celeste, este sacramento divino foi ritmando os seus dias, enchendo-os de consoladora esperança” (Ibidem).
Pensando precisamente nisto, desejei dedicar à Eucaristia a primeira Encíclica do novo milênio, e agora sinto-me feliz por anunciar um especial Ano da Eucaristia.
Ele terá início com o Congresso Eucarístico Internacional, programado para os dias 10-17 de Outubro de 2004 em Guadalajara (México).
Será encerrado com a próxima Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar no Vaticano de 2 a 29 de Outubro de 2005, subordinado ao tema: “A Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja”.
Mediante a Eucaristia, a Comunidade eclesial é edificada como nova Jerusalém, princípio de unidade em Cristo entre diversas pessoas e povos.
“Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9, 13).
A página evangélica que acabamos de escutar oferece uma imagem eficaz do vínculo íntimo que existe entre a Eucaristia e esta missão universal da Igreja.
Cristo, “pão vivo que desceu do Céu” (Jo 6, 51; cf. Aclamação ao Evangelho), é o único que pode saciar a fome do homem de todos os tempos e em todas as regiões da terra.
Porém, Ele não quer fazê-lo sozinho, e assim, como na multiplicação dos pães, envolve também os discípulos: “Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou sobre eles a bênção, partiu-os e os deu aos discípulos para que os distribuíssem à multidão” (Lc 9, 16).
Este sinal milagroso é figura do maior mistério de amor, que se renova cada dia na Santa Missa: mediante os ministros ordenados, Cristo dá o seu Corpo e o seu Sangue pela vida da humanidade.
E quantos se nutrem dignamente à sua Mesa, tornam-se instrumentos vivos da sua presença de amor, de misericórdia e de paz.
“Lauda, Sion, Salvatorem…! Sião, louva o Salvador / o teu guia, o teu pastor / com hinos e cânticos”.
Com íntima emoção, ouvimos ressoar no coração este convite ao louvor e à alegria. No final da Santa Missa, levaremos processionalmente o divino Sacramento até a Basílica de Santa Maria Maior.
Contemplando Maria, compreenderemos melhor a força transformadora que a Eucaristia possui. Colocando-nos à escuta d’Ela, encontraremos no mistério eucarístico a coragem e o vigor para seguir Cristo Bom Pastor e para O servir nos irmãos.