Há na Andaluzia, incrustadas entre montanhas ou espalhadas por vales, pequenas cidades que, vistas de longe, se parecem a presépios montados na época do Natal.
Quando alguém aí passa uma temporada observando a vida diária, vai descobrindo costumes e tradições que constituem um verdadeiro tesouro cultural e religioso. Isto se verifica com especial beleza no mês de maio.
Flores que encantam os Anjos e perfumam as almas
Já em fins de abril um grupo de vizinhas começa a preparar-se para as “flores de maio”. Pergunta um estrangeiro: “Como são feitas essas flores? Com papel? Com tecido? São de cera? Ou são colhidas nos encantadores jardins suspensos nas varandas das casas?” A resposta, entre sorrisos, é: “Não tente adivinhar. As ‘flores’ são flores d’alma!”
Começa o mês de maio. Em torno de um altar primorosamente montado, reúne-se todos os dias um numeroso e ruidoso grupo de amigas para cultivar e oferecer “flores” a Maria.
Essas “flores”, de fato sui generis, constituem-se de um conjunto de orações e cânticos que variam quase tanto quanto as flores dos multicoloridos jardins.
Há uma primeira parte da reunião, sempre liderada por alguma devota experimentada em atuações públicas. Dirige ela a recitação de um rosário entremeado de hinos, todos bem cantados por este povo dotado de um notável senso musical.
Depois de muitos cânticos, quando parece já ter-se esgotado o repertório, desinibidamente vai-se levantando uma participante após outra e, com firmeza, pede que a assembléia se cale, porque ela deseja dizer algo.
Um respeitoso silêncio acolhe os elogios (“piropos”, dizem os andaluzes) dirigidos à Virgem Santíssima por essas senhoras. Em versos simples, sem muita preocupação literária, dão vazão aos sentimentos de piedade de suas almas alegres.
À medida que vão sendo recitados os versos – às vezes por uma anciã apoiada na bengala, outras por uma menina de rosto e voz angelicais, ou ainda por emocionadas mães de família no pleno vigor da idade – vai sendo formada a “coroa de flores” sobre a augusta fronte de Maria Imaculada.
Essas “flores”, vistas só pelos Anjos, perfumam as almas de todas as ditosas participantes do ato.
Os versos surgem espontaneamente ou podem vir já preparados de casa. Em qualquer caso, porém, as palmas, os brados de entusiasmo e as felicitações incentivam cada oradora a prolongar sua “oferenda”.
Estabelecem-se pequenos desafios, sempre muito aplaudidos.
Ao final de quase duas horas de tão salutar encontro, dispersam-se todas, mais felizes, mais unidas e, sobretudo, mais amigas da Santíssima Virgem. Esta, sobre o seu primoroso altar, parece ter tomado vida ao participar da festa de suas filhas.
Ótimo remédio contra depressão!
Numa dessas reuniões, realizada na histórica e pitoresca cidade de Torredonjimeno, foi declamada a singela poesia que aqui vai traduzida e dedicada aos leitores de nossa Revista.
A inspirada poetisa preparou psicologicamente as ouvintes, pedindo que, durante a recitação, todas se mantivessem de olhos fechados, procurando traçar com a imaginação o retrato que ela ia descrever em versos.
A assistência calou-se e obedeceu com ar de satisfação.
Com voz de contralto e palavras bem articuladas, a declamadora foi “desenhando” o retrato da Mãe de Deus, enriquecendo a descrição com sua graciosa pronúncia andaluza.
Quando terminou, eufóricos aplausos evidenciaram o contentamento do público. As almas estavam mais inocentes, todas sorriam e algumas mais afetuosas lançavam ruidosos beijos para a imagem de Nossa Senhora, gritando-lhe: “Guapa!” (linda), ou “Viva la Virgen!”
Certamente, essas senhoras e meninas encontram nesse ambiente de regozijo e harmonia forças para enfrentar as dificuldades inevitáveis da vida.
O convívio com as amigas e, sobretudo, com a Santíssima Virgem, lhes embalsama a alma, sustenta as esperanças, fortalece os bons desejos.
Talvez em seus momentos de tristeza, enquanto mexem panelas ou lavam roupa, elas se ocupem ao mesmo tempo, para fugir de alguma feia tentação, em compor belos versos para a próxima ocasião.
É uma terapia incomparável, capaz de curar qualquer depressão!