Não há quem não se encante contemplando uma bela aurora ou um estupendo ocaso, espetáculos naturais nunca repetidos e sempre ricos em simbologias.
Se admiramos essa variedade quase infinita existente no mundo material, o que dizer do reino muito mais rico das almas, entre as quais sobressai-se uma adornada por Deus de qualidades que se avizinham do divino?
A eternidade, por assim dizer, será insuficiente para compreendermos as grandezas e maravilhas de Maria Santíssima.
Dignidade da Mãe de Deus
Sim, pois ensina São Tomás de Aquino: “Por ser Mãe de Deus, a Bem-Aventurada Virgem tem certa dignidade infinita em virtude do bem infinito, isto é, o próprio Deus”.
E o Cardeal Caietano acrescenta: “A Beata Virgem Maria chegou aos confins da divindade com sua própria operação, já que concebeu, deu à luz, engendrou e alimentou a Deus com seu próprio leite”.1
O povo simples, com a inestimável “fé do carvoeiro”, tem uma arraigada devoção a Maria Santíssima, pois já “provou” que Ela é verdadeiramente nossa Mãe.
Já teve, aplicando a Nossa Senhora, a experiência recomendada pelo consagrado cântico eucarístico: Gustate et videte quam suavis est Dominus (Provai e vede quão suave é o Senhor). E isso lhe basta.
Ele dispensa maiores demonstrações, não necessitando de provas para aquilo que lhe é evidente. Sua alma voa para o alto com facilidade, sem empecilhos. Feliz dele!
No entanto, podendo nos aprofundar nas razões que justificam esse papel único da Virgem Santíssima na ordem do universo e na economia da graça, devemos fazê-lo, pois isso consolidará ainda mais nosso enlevo e devoção a Ela.
Adentremos, pois, cheios de admiração e veneração, na consideração de alguns dos insondáveis atributos da Mãe de Deus, esse Paraíso do novo Adão, palácio espiritual de inigualável beleza.
Mãe de Deus, primogênita entre as criaturas
Nos divinos decretos, desde toda a eternidade, estava Maria Santíssima destinada a ser a Mãe do Verbo Encarnado, Jesus Cristo. Não foram dois decretos – um relativo ao Filho e outro à Mãe – mas um só e mesmo plano unindo a ambos numa indissolúvel aliança.
“Jesus é tudo em Maria e Maria é tudo em Jesus; ou melhor, Ela já não existe, mas Jesus somente n’Ela, e antes se separaria do sol a luz do que apartar Maria de Jesus”, exclama o grande São Luís Maria Grignion de Montfort.2
E todos os títulos e grandezas da humilde Virgem de Nazaré são consequência de sua maternidade divina.
Ou seja, Ela é imaculada, cheia de graça, Corredentora da humanidade, Rainha do Céu e da Terra e Medianeira universal de todas as graças, porque é Mãe de Deus.
Esse atributo coloca Nossa Senhora em um grau excepcionalíssimo de graça e de glória próprio a tão alta dignidade, sendo seu corpo e sua alma adornados de qualidades convenientes a esse fim.
Assim, é Maria a primogênita entre todas as criaturas, não cronológica, mas logicamente falando.
Costuma-se aplicar à eterna predestinação da Virgem Santíssima as palavras do Eclesiástico: “A sabedoria fará seu elogio […] e dirá: Eu saí da boca [ou seja, da mente] do Altíssimo, a primogênita de todas as criaturas. […] No princípio, antes de todos os séculos, eu fui criada” (24, 1-14).
Portanto, Jesus e Maria ocupavam o primeiro lugar no coração e na mente de Deus, em sua intenção no ato de criar.
Essa predestinação de Maria à maternidade divina é um dom gratuito da infinita bondade e liberalidade de Deus, pois nenhuma criatura podia merecê-lo, uma vez que essa insondável dignidade está além da esfera do mérito.
Assim, quando se diz ter Nossa Senhora merecido conceber seu Divino Filho, se entende no seguinte sentido: Ela cumpriu de modo perfeitíssimo a vontade de Deus, alcançando aquele grau singularíssimo de pureza e de santidade que A tornavam digna Mãe do Salvador.
Corredentora
O mérito da Santíssima Virgem é o de haver desposado, com extraordinária aplicação de todo o seu ser, o doloroso destino de seu querido Filho. Com o mesmo amor e devotamento demonstrado na Encarnação, Ela consente e auxilia na Redenção.
Nós A veremos tornar-se semelhante ao Salvador na morte e, de certo modo, ser pregada com Ele na cruz. Porque Jesus não se contentou de sofrer espiritualmente pelos homens: Ele quis entregar-se fisicamente e levar sua caridade até o sacrifício da vida.
Ela se encontrava junto a Jesus no momento de sua morte, acompanhou-O até o fim e O encorajou a morrer. De pé junto à Cruz, sofreu tudo com Ele e completou assim, na sua pessoa, o que faltava ainda às provações de Cristo “por seu corpo que é a Igreja” (Col 1, 24).
Maria cooperou, pois, real e imediatamente com o Divino Salvador, na obra da Redenção dos homens. A este respeito, afirma o famoso teólogo Pe. Royo Marin:
A Corredenção mariana – assim como a Redenção de Cristo, com a qual forma uma só coisa – atinge todo o gênero humano, sem exceção.
Não há um Redentor por um lado e uma Co-Redentora por outro, mas uma só Redenção, realizada por Cristo com a cooperação secundária de Maria.3
E o insigne teólogo do século XVII, Pe. Bartolomé de los Rios, OSA, escreve que “podemos chamá-la Corredentora do mundo”, pelo fato de Ela, junto com Jesus Cristo, “nos ter comprado por seu justo preço e nos ter resgatado da servidão ao demônio”.4
No alto do Calvário, portanto, três amores participaram do mesmo sacrifício, para a nossa salvação. Deus Pai entregou seu Filho em holocausto; o Verbo Encarnado se imolou para a Redenção dos homens; e a Mãe inigualável consentiu na Paixão de seu Divino Filho.
Temos um só Redentor. Mas a Mãe que O ofereceu para nossa salvação, não tem direito ao título de Corredentora?
A dor, medida da glória
Assim como extrapola de nossa capacidade conhecer o abismo de dores e de sofrimentos de Deus feito homem, o mesmo se passa quanto ao padecimento da Mãe perfeitíssima diante de seu Filho crucificado.
Cada dor física d’Ele repercutia de modo atroz na alma d’Ela. E é certo que a Mãe estava disposta a substituir o Divino Filho na Cruz, se tal fosse possível.
Se, segundo São Luís Grignion de Montfort, Nossa Senhora deu mais glória a Deus com um ponto de agulha do que São Lourenço sendo assado na grelha, o que dizer de seu heroísmo ao pé da Cruz?
Aquela que fora concebida sem mancha, incomparável em graça e santidade, haveria de dar o exemplo do sofrimento levado ao inimaginável.
Como o ferro necessita ser submetido a altíssimas temperaturas e pressões para se tornar aço, e como as flores são esmagadas para delas se retirar o melhor perfume, Maria Santíssima, nesse paroxismo da Paixão, deu o melhor de Si, para admiração dos homens, dos Anjos e até do mesmo Deus.
Auguste Nicolas, autor do livro A Virgem Maria e o Plano Divino, tira dessa verdade uma sublime conclusão:
Em pé, junto à Cruz, estava Maria. E, em meio à geral defecção, Ela só, como uma coluna, levava e sustentava a plenitude da Fé.
Somente Ela, em consequência, compadecia e participava da imensidade dos divinos sofrimentos de seu Filho. […]
A grandeza de sua dignidade havia de ser a de sua dor, para converter-se na medida de sua glória.5