É noite. Comprazido, o Menino recém-nascido contempla o olhar virginal de sua Mãe que, trazendo-O nos braços, é a primeira a adorá-Lo.

Assim, apenas vindo a este mundo, o Redentor recebe o mais perfeito ato de amor que uma criatura poderia Lhe devotar: o enlevo, a veneração e a ternura daquele coração materno transportado de alegria, ao ver seu Criador… que é também seu Filho!

Ao contrário dos outros bebês, Jesus não chora ao nascer, mas sorri e estende os bracinhos em forma de cruz, manifestando o desejo de atingir logo o ápice de sua missão redentora. Tão pequeno e já tão dadivoso!

O mistério daquela noite, almejada durante séculos pelas almas justas, estenderá seus encantos por toda a História.

E, curiosamente, ao longo dos tempos, o cenário perfeito para meditar sobre as bênçãos do Natal se afigurará, a não poucas imaginações piedosas, com a natureza revestida de um manto solene: a neve! 

Limpa, branca, macia, suave e até mesmo acariciante, a extraordinária conotação de “angelicidade” da neve bem se harmoniza com o cântico dos anjos ao anunciar a paz aos homens de boa vontade, a qual só é possível quando Deus é glorificado no mais alto dos Céus!

Sem dúvida, pensamentos semelhantes a esses ocorrem até nas regiões do globo onde os álgidos invernos são desconhecidos.

Porque de tal forma a neve está associada às graças do Natal, que a criatividade popular – mesmo nos países tropicais – busca qualquer elemento de aparência nívea para representar “a quietude ungida de bênçãos do Céu que envolveu o estábulo de Belém, onde o Verbo eterno nasceu para o tempo, revestido de nossa natureza”.1  

Por isso, não será uma surpresa encontrar presépios e pinheiros recobertos de um branco manto nas festas natalinas de lugares em pleno verão!

Pois, quiçá, os encantos da neve causem nos países tropicais uma atração superior à despertada naquelas regiões que de fato a têm, justamente por apresentar as auras do desconhecido…

Se nos dispusermos a cogitar sobre a neve, encontraremos ricas analogias entre ela e a Redenção que despontava no Presépio.

A começar pelo perdão dos pecados, o qual lava as almas e as torna mais brancas que a neve (cf. Sl 50, 9), como cantou o Rei-Profeta.

Assim considerada, ela se apresenta como símbolo da pureza espiritual, muito mais bela, nobre e preciosa que qualquer outra das maravilhas da criação.

Ademais, trazendo consigo o silêncio majestoso próprio às horas nas quais as palavras se tornam insuficientes, ou desnecessárias, e qualquer pequeno ruído parece quebrar os imponderáveis do sublime, a neve possui “o condão de encantar os olhos e o coração”2, tornando-os mais propensos à meditação e à elevação de alma.

Moldura perfeita, portanto, para o espírito que se põe a refletir sobre um Deus que desceu à Terra para acender nos homens o desejo de contemplar as coisas do alto e maravilhar-se com elas.

Por outro lado, a serenidade reinante no ambiente após uma generosa nevada pode também representar a paz da boa consciência, tanto da alma inocente quanto da penitente, redimidas pelo Sangue do Salvador feito Menino.

E embora os efeitos de sua vinda ao mundo sejam infinitamente mais numerosos do que os simbolizados pela neve, os panoramas cobertos pelo seu alvo manto facilmente levarão os homens a pensar n’Aquele recém-nascido que adormece nos braços da Mãe Nívea e Imaculada.

São os admiráveis paradoxos divinos: sob a aparência de uma frágil criança, dorme o Onipotente…

“Virgem com o Menino”, por Maestro di Roncaiette -
Museu Cívico Amadeo Lia, La Spezia (Itália)

1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Neve, paz e ventura. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano IX. N. 105 (dez., 2006); p. 32.
2 Idem, p. 34.