Em seu célebre livro Mémoires d’outre tombe, Chateaubriand – conhecido diplomata e um dos maiores escritores de língua francesa – revela como superou uma provação pela qual tantos outros homens já passaram, e tantos ainda passarão.

Eis a história tal como ele a narrou:

O dia da minha Primeira Comunhão se aproximava. Minha piedade parecia sincera e edificava todos os meus companheiros; minhas contínuas mortificações causavam preocupação até aos professores. 

Tinha por confessor o Superior do seminário, homem de cinquenta anos, de aspecto severo. Toda vez que me ajoelhava no tribunal da penitência, ele me interrogava com ansiedade.

Surpreso pela superficialidade das minhas faltas, não sabia ele como conciliar minha perturbação com a irrelevância dos segredos que eu lhe declarava. E quanto mais se aproximava o dia da Páscoa, mais se tornavam incômodas as suas perguntas:

—Você não está me escondendo nada? 

— Não, Padre, não.

— Você não cometeu tal pecado?

— Não, Padre, não.

E sempre:

— Não, Padre, não.

E ele de novo me despedia duvidando, suspirando, olhando-me até o fundo da alma; e eu saía de sua presença pálido e desfigurado como um criminoso.

Eu receberia a absolvição na Quarta-Feira Santa. Passara a noite de terça para quarta em fervorosa oração e lendo, cheio de terror, um livro sobre confissões sacrílegas. Na quarta, às três horas da tarde, saímos rumo ao seminário. Nossos pais nos acompanhavam.

Chegando à igreja, prostrei-me aos pés do sacrário, absorto, fora de mim. Quando me levantei para dirigir-me à sacristia, onde me aguardava o Superior, os meus joelhos tremiam. 

Atirei-me aos pés do Padre e rezei o “Eu confesso” com voz tão alterada que quase nem consegui terminar.

E então, você não esqueceu alguma coisa? — perguntava-me o homem de Deus.

E eu continuava calado.

Seu interrogatório recomeçava, e o fatal “não, Padre, não” escapou da minha boca. 

Ele recolheu-se para pedir conselho Àquele que conferira poder aos Apóstolos de ligar e desligar as almas. E aí, com grande esforço, se preparou para me dar a absolvição.

 Um raio que o céu tivesse descarregado sobre mim ter-me-ia causado menos pavor. Eu gritei:

— Ainda não disse tudo!

E o temível juiz, delegado da Suprema Justiça, cujo olhar me inspirava tanto temor, tornando-se agora o pastor mais cheio de ternura, me abraçava desfeito em lágrimas:

Vamos, meu filho querido, tenha coragem! – dizia-me.

Jamais tinha experimentado tal contentamento. Se me tivessem tirado o peso de uma montanha, não teriam me aliviado tanto: eu soluçava de alegria! Ouso dizer que aquele dia foi o primeiro no qual me senti um homem honesto.

Vencida a primeira dificuldade, o resto foi fácil.

— Enfim, agora você está livre dos seus pecados por causa desta confissão corajosa… se bem que tardia – acrescentou o sacerdote.

E, erguendo sua mão direita, pronunciou a fórmula da absolvição. Desta segunda vez seu braço não parecia ameaçador, mas fazia descer sobre minha fronte o orvalho celeste! Inclinei-me para recebê-la e o que sentia me fazia participar da alegria dos Anjos.

Levantei-me e fui precipitadamente abraçar minha mãe que me esperava aos pés do altar.

Eu não parecia mais o mesmo ante meus professores e companheiros: andava num passo ligeiro, cabeça erguida, ar radiante, no triunfo de um arrependido.

Na manhã seguinte, Quinta-Feira Santa, dia em que a Igreja comemora a instituição do Santíssimo Sacramento, Chateaubriand recebeu sua Primeira Comunhão.

O que sentiu o seu pequeno coração de criança, só Deus e ele o souberam. Podemos, porém, afirmar que a presença de Jesus-Hóstia em sua alma o fazia estremecer de amor e felicidade.

Pois ele próprio afirmou mais tarde que, como os mártires de outrora, ele teria naquela ocasião dado alegremente sua vida e seu sangue para louvá-Lo e honrá-Lo!