Santo Padre, como o senhor vê a situação atual da Igreja Católica na Alemanha?

Bento XVI: Antes de tudo, eu diria que a Alemanha pertence ao Ocidente, ainda que com suas características próprias, e no mundo ocidental de hoje vivemos uma nova onda de iluminismo drástico, ou laicismo, como se queira chamá-lo.

Tornou-se mais difícil ter fé, pois o mundo no qual estamos é completamente feito por nós mesmos, e nele Deus, por assim dizer, já não comparece diretamente. Não se bebe mais diretamente da fonte, mas sim do recipiente em que a água nos é oferecida.

Os homens reconstruíram o mundo por si mesmos, e tornou-se mais difícil encontrar Deus neste mundo. Isso não é específico da Alemanha, mas é algo que se verifica na terra inteira, sobretudo no mundo ocidental.

De outro lado, o Ocidente hoje tem sido fortemente afetado por outras culturas nas quais o elemento religioso originário é muito forte e que se horrorizam com a frieza que encontram no Ocidente, com relação a Deus.

E essa presença do sagrado em outras culturas, ainda que velada de muitos modos, toca novamente o mundo ocidental, toca a nós, que nos encontramos na encruzilhada de tantas culturas.

Por outro lado, do mais profundo do homem, no Ocidente e na Alemanha, continua ainda a surgir aquele anseio por algo maior.

Nós o vemos na juventude, na qual existe a procura por um “mais”: de certo modo, o fenômeno religião – como se diz – retorna, mesmo sendo muitas vezes um movimento de procura bastante indeterminado.

Com tudo isso, porém, a Igreja está de novo presente e a fé se oferece como resposta.

E penso que exatamente esta visita [à Baviera] – como foi a de Colônia – é uma oportunidade para fazer ver que é belo crer, que a alegria de uma grande comunidade universal significa um apoio, que por trás dela há algo de importante.

E que, portanto, junto aos novos movimentos de procura, existem também novas aberturas para a Fé, as quais nos conduzem uns para os outros e são positivas também para a sociedade em seu conjunto.

Santo Padre, que possibilidades o senhor vê para a Santa Sé no tocante à situação no Oriente Médio? Que influências positivas pode o senhor exercer sobre essa situação?

Bento XVI: Naturalmente, não temos nenhuma possibilidade política, e não queremos ter nenhum poder político.

Mas queremos apelar aos cristãos e a todos quantos se sentem de algum modo unidos à Santa Sé e interpelados por ela, para que sejam mobilizadas todas as forças que reconhecem ser a guerra a pior solução para todos.

Ela nada traz de bom para ninguém, nem mesmo para os aparentes vencedores. Sabemos disso muito bem na Europa, após as duas guerras mundiais. É da paz que todos necessitam.

E existe uma forte comunidade cristã no Líbano, há cristãos entre os árabes, há cristãos em Israel, e cristãos de todo o mundo se empenham na ajuda a esses países, caros a todos nós.

Há forças morais que estão prontas para fazer compreender que a única solução é aprender a viver juntos. Essas são as forças que nós queremos mobilizar.

Compete aos políticos encontrarem depois os caminhos para isso poder concretizar-se o mais cedo possível, e sobretudo de modo duradouro.

Há cerca de um mês, o senhor estava em Valência, no Encontro Mundial das Famílias, e em nenhum momento pronunciou as palavras “matrimônios homossexuais”, não falou de aborto nem de contracepção. Evidentemente, sua intenção é de anunciar a Fé, e não percorrer o mundo como “apóstolo da moral”. Pode fazer um comentário a esse respeito?

Bento XVI: Sim, claro. Antes de tudo, devo dizer que tive somente duas ocasiões de 20 minutos para falar. E se alguém dispõe de tão pouco tempo, não pode começar por dizer “não”. É preciso primeiramente saber o que de fato queremos, não é verdade?

E o Cristianismo, o Catolicismo, não é um acúmulo de proibições, mas uma opção positiva. E é muito importante evidenciar isso de novo, pois essa consciência hoje em dia desapareceu quase completamente.

Ouviu-se falar tanto sobre aquilo que não é permitido, que agora é preciso dizer:

Mas temos uma ideia positiva a propor: o homem e a mulher foram criados um para o outro; a escala sexualidade-eros-ágape, por assim dizer, indica as dimensões do amor; e é nesse caminho que se desenvolve o Matrimônio como encontro cheio de felicidade, de um homem e uma mulher, crescendo depois como família que garante a continuidade das gerações, na qual se realiza a reconciliação das gerações e onde também as culturas se podem encontrar.

É importante portanto, previamente colocar em relevo aquilo que queremos. Depois, então, pode-se ver por qual razão não queremos certas coisas.

E creio ser necessário ver e refletir, porque o homem e a mulher são feitos um para o outro, para que a humanidade continue a viver. E isso não é uma invenção católica: todas as culturas sabem bem disso. Com relação ao aborto, ele não diz respeito ao Sexto, mas ao Quinto Mandamento: “Não matar!”

E devemos pressupor isso como óbvio, sempre reafirmando que a pessoa humana tem início no seio materno e permanece pessoa humana até seu último suspiro; por esse motivo, deve ser sempre respeitada como pessoa humana. Mas isso fica mais claro se começamos por explicar o aspecto positivo.

Santo Padre, no mundo inteiro, os fiéis esperam da Igreja Católica respostas aos problemas globais mais urgentes, como a AIDS e a superpopulação. Por que ela insiste tanto sobre a moral, antepondo esta às tentativas de solução concreta para esses problemas cruciais da humanidade, por exemplo, no continente africano?

Bento XVI: Sim, este é o problema: insistimos realmente tanto sobre a moral? Eu diria – e no diálogo com os Bispos africanos tenho cada vez mais me convencido disso – que a questão fundamental, se quisermos progredir nesse campo, se chama educação, formação.

O progresso será verdadeiro somente se servir à pessoa humana e se a própria pessoa humana crescer; e se esta crescer não apenas em seu poder técnico, mas também em sua capacidade moral.

Penso que o verdadeiro problema da nossa situação histórica é o desequilíbrio entre, de um lado, o crescimento incrivelmente rápido de nosso poderio técnico e, de outro, o de nossa capacidade moral, que não cresceu de modo proporcional.

Por isso, a formação de nossa pessoa humana é a verdadeira receita – a chave de tudo, diria eu – e esse é também nosso caminho. […]

Santo Padre, o Cristianismo se difundiu em todo o mundo a partir da Europa. Ora, muitos dos que se ocupam desse assunto dizem que o futuro da Igreja se encontra nos outros continentes. É verdade?

Bento XVI: Preliminarmente, eu gostaria de colocar alguns matizes. Na verdade, como sabemos, o Cristianismo surgiu no Oriente Próximo.

Durante muito tempo, ele desenvolveu-se sobretudo ali e difundiu-se na Ásia muito mais do que hoje somos levados a pensar, após as mudanças trazidas pelo Islã.

De outra parte, por este mesmo motivo, seu eixo se deslocou sensivelmente para o Ocidente e para a Europa; e a Europa – disso nos ufanamos e nos alegramos – depois desenvolveu o Cristianismo em suas dimensões intelectuais e culturais.

Mas creio ser importante lembrarmo-nos dos cristãos do Oriente — os quais sempre foram uma minoria importante, mantendo frutuosas relações com o contexto circundante — pois no momento existe o perigo de que eles emigrem.

E há o perigo de que esses próprios lugares da origem do Cristianismo fiquem privados de cristãos. Acho que devemos ajudá-los muito, para que possam permanecer ali.

Vamos agora à sua pergunta.

A Europa tornou-se, certamente, o centro do Cristianismo e de seu empenho missionário. Hoje os outros continentes, as outras culturas, entram com peso igual no concerto da História do mundo. Assim, cresce o número de vozes na Igreja, e isso é um bem.

É bom que possam exprimir-se os diversos temperamentos, os dons próprios da África, Ásia e América, em particular da América Latina.

Todos são, naturalmente, atingidos não apenas pela palavra do Cristianismo, mas também pela mensagem secularizante deste mundo que submete os outros continentes à mesma prova desagregadora pela qual passamos nós.

Todos os Bispos de outras partes do mundo dizem: “Precisamos ainda da Europa, mesmo que hoje ela seja apenas uma parte de um todo mais amplo”.

Temos ainda, em relação a eles, uma responsabilidade proveniente de nossas experiências, da ciência tecnológica aqui desenvolvida, de toda a nossa experiência litúrgica, de nossas tradições, e também das experiências ecumênicas que acumulamos: tudo isso ainda é muito importante, inclusive para os outros continentes.

Por isso não podemos capitular, nos queixarmos, dizendo: “É verdade, somos apenas uma minoria; procuremos pelo menos conservar nosso pequeno número”.

Pelo contrário, devemos conservar vivo nosso dinamismo, abrir relações de intercâmbio, de modo que desses lugares venham novas forças para nós.

Há hoje sacerdotes indianos e africanos na Europa, assim como no Canadá, onde numerosos sacerdotes africanos fazem um trabalho muito interessante.

Há esse dar e receber recíproco. Mas mesmo que no futuro devamos ser sobretudo aqueles que recebem, deveremos continuar capazes de dar, com uma coragem e um dinamismo crescentes. 

O senhor logo completará 80 anos. O senhor pensa em, com a ajuda de Deus, fazer ainda muitas viagens? Tem uma ideia de quais viagens gostaria de fazer? À Terra Santa, ao Brasil? 

Bento XVI: […] Devo dizer que não me sinto bastante forte para programar muitas grandes viagens, mas gostaria de ir aonde eu possa levar uma mensagem ou, digamos assim, responder a um verdadeiro desejo; até lá quero ir, segundo uma “dosagem” que me seja possível.

Algo já está previsto: no próximo ano haverá no Brasil o encontro do CELAM, o Conselho Episcopal Latino-Americano, e julgo que minha presença ali seja um fator importante, considerando, de um lado, as vicissitudes que a América do Sul está vivendo intensamente, e, de outro lado, para reforçar a esperança que está viva naquela região.

Depois gostaria de ir à Terra Santa, e espero poder visitá-la em tempo de paz. Quanto ao restante, veremos o que me reserva a Providência.

Santo Padre, ultimamente se tem falado de uma nova capacidade de atração do Catolicismo. Quais são as possibilidades de futuro e a vitalidade dessa instituição tão antiga?

Bento XVI: Eu diria que todo o pontificado de João Paulo II atraiu a atenção dos homens e os reuniu.

Aquilo que sucedeu por ocasião de sua morte permanece como algo completamente especial do ponto de vista histórico: como centenas de milhares de pessoas acorriam disciplinadamente à Praça de São Pedro, ficavam em pé durante várias horas e, ao invés de desfalecerem, resistiam movidas por uma força interior.

Pudemos reviver essa situação quando da inauguração de meu pontificado e, posteriormente, em Colônia.

É muito belo ver que a experiência comunitária se torne ao mesmo tempo uma experiência de Fé, que se faça a experiência da comunidade não apenas em um lugar qualquer, mas que ela se torne mais viva e dê ao Catolicismo sua intensidade luminosa justamente ali onde se encontram os lugares da Fé.

Obviamente, isso deve continuar também na vida quotidiana. As duas coisas devem caminhar juntas. De uma parte, os grandes momentos, nos quais se sente quão belo é participar, como o Senhor está presente e como nós formamos uma grande comunidade reconciliada por cima de todas as fronteiras.

Mas depois é preciso saber tirar daí a força necessária para resistir durante as cansativas peregrinações da vida quotidiana, viver com a vista posta nesses pontos luminosos, orientar-se em função deles e saber, assim, convidar os outros a se inserirem na comunidade peregrina.

Gostaria de aproveitar esta ocasião para dizer que me enrubesço por tudo quanto está sendo feito para preparar minha visita [à Baviera]. Minha casa foi pintada de novo, uma escola profissional refez a cerca, com a colaboração do professor de religião evangélico.

Tudo isso não passa de pequenos detalhes, mas é um sinal do muito que está se fazendo. Acho tudo isso extraordinário, e não o refiro a mim mesmo, mas o considero como manifestação de uma vontade de pertencer a essa comunidade de Fé e de servirem-se todos uns ao outros.

Demonstrar uma tal solidariedade e deixar-se inspirar nisso pelo Senhor, é para mim comovente, e queria agradecer-lhes de todo o coração.

 

Trechos da entrevista em Castel Gandolfo, em 5 de agosto de 2006.
Tradução feita pela Revista Arautos do Evangelho.