Uma multidão se comprimia na Praça de São Pedro, com a respiração presa, não querendo perder nenhum detalhe.
Após os Ritos de Introdução da Eucaristia – celebrados em latim – o Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal José Saraiva Martins, acompanhado pelos respectivos postuladores, dirigiu-se ao Papa:
Beatíssimo Padre, a Santa Mãe Igreja pede que Vossa Santidade inscreva os Beatos José Bilczewski, Caetano Catanoso, Sigismundo Gorazdowski, Alberto Hurtado Cruchaga e Félix de Nicosia no Livro dos Santos e que como tal sejam invocados por todos os cristãos.
Depois de uma breve apresentação da biografia de cada um, o Papa convidou todos os presentes a elevarem suas orações a Deus por meio de Jesus Cristo, por intercessão da Virgem Maria e de todos os Santos, para que o Espírito Santo iluminasse sua mente, e a luz de Cristo brilhasse na Igreja.
Fez-se na Praça um profundo silêncio, sucedido pelo cântico da Ladainha dos Santos. Em cada invocação – à qual todo o povo respondia com um fervoroso ora pro nobis – tinha-se a impressão de que o santo invocado se fazia presente e tomava seu lugar junto ao Papa.
O momento era imponente e austero. Muitos assistentes não conseguiam conter a emoção.
Revestido da mitra pontifical, e tendo à mão o báculo, o Santo Padre Bento XVI pronunciou solenemente a Fórmula de Canonização, bela e sacral:
Para honra da Santa e Indivisível Trindade, para exaltação da Fé Católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e Nossa, depois de ter longamente refletido, invocado várias vezes o auxílio divino e ouvido o parecer de muitos Irmãos Nossos no Episcopado, declaramos e definimos Santos os Beatos José Bilczewski, Caetano Catanoso, Sigismundo Gorazdowski, Alberto Hurtado Cruchaga e Félix de Nicosia, e os inscrevemos no Livro dos Santos e estabelecemos que em toda a Igreja sejam devotamente honrados entre os Santos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
A multidão explodiu em calorosa salva de palmas, e, com toda solenidade, pela primeira vez a Igreja invocou os novos Santos, através das vozes do Coro da Capela Sistina: “Louvor e glória a Ti, Senhor: na morada dos Santos, coroados de glória e honra, refulgem os teus Servos José, Caetano, Sigismundo, Alberto e Félix, e intercedem por nós”.
Grandes estandartes com as imagens desses heróis da Fé pendem dos balcões da Basílica de São Pedro. Renunciaram ao mundo e são agora devidamente glorificados pelos homens.
Doravante, até o fim dos tempos, eles serão venerados em toda a Igreja com a celebração de Missas, a construção de igrejas e altares em sua honra, e terão sempre seus semblantes circundados pela conhecida auréola.
O Cardeal Saraiva Martins retomou a palavra, sempre em língua latina: “Beatíssimo Padre, em nome da Santa Igreja agradeço a Vossa Santidade pela proclamação, e Vos peço de querer dispor que seja redigida a Carta Apostólica a respeito da Canonização realizada”.
Recebido o consentimento do Papa, o Cardeal e cada um dos postuladores se ajoelharam diante da Cátedra de Pedro, e agradeceram a canonização ao Santo Padre, trocando o cumprimento da paz.
Teve lugar, então, um dos momentos mais significativos da cerimônia, quando as relíquias de cada Santo são trazidas para junto do altar, a fim de serem veneradas pela primeira vez como os despojos de almas canonizadas.
Prosseguiu a Celebração Eucarística. Após a proclamação do Evangelho em latim e em grego, o Santo Padre proferiu a homilia, da qual se destaca este trecho:
“E vos convertestes, deixando os ídolos e voltando-vos a Deus, a fim de servir ao Deus vivo e verdadeiro” (I Tes 1, 9). Essa conversão é o princípio do caminho de santidade que o cristão é chamado a realizar em sua própria existência.
O Santo é aquele que de tal modo se fascinou pela beleza de Deus e por sua perfeita verdade, que foi por elas progressivamente transformado. Por essa beleza e verdade está pronto a renunciar a tudo, inclusive a si mesmo.
Hoje a Igreja propõe a todos os seus membros cinco novos Santos, que, nutridos de Cristo Pão Vivo, se converteram ao amor, e por ele marcaram toda a sua existência!
Em diversas situações e com diversos carismas, amaram o Senhor com todo o coração e o próximo como a si mesmos “tornando-se modelo para todos os fiéis” (I Tes 1, 7).
Na procissão das ofertas, cada delegação ofereceu ao Santo Padre dádivas de agradecimento: cálice de filigrana, serviços para o altar, e a própria mitra e casula usadas pelo Papa na celebração.
Depois da Bênção Apostólica, a multidão emocionada permaneceu ainda algum tempo na Praça de São Pedro, antes de se dispersar vagarosamente, como quem acorda de um maravilhoso sonho.
Uma das luminosas características da Igreja Católica é a santidade. Santo é seu Fundador, santa é sua doutrina, santo é seu objetivo, santos são os seus membros, em virtude do Batismo de água, de sangue ou de desejo.
A vocação à santidade é universal. Como diz o Pe. Raniero Cantalamessa, não é exclusividade de uma elite, nem uma obrigação pesada. É uma insigne graça sermos todos chamados à santidade, a nos conformarmos à imagem de Deus.
E o Rito de Canonização, em sua sublime beleza, é um convite a perdermos o medo e, com coragem, seguirmos essa via a todos proposta: a da santidade.