Os paulistanos foram tomados de surpresa com a notícia da nomeação de seu Cardeal-Arcebispo para Prefeito da Congregação para o Clero. Surpresa sim, mas não tanto.

Para quem tem a estatura de Dom Cláudio Hummes, forte candidato ao trono pontifício, no último conclave, Roma parece ser um destino natural.

No coração de todos mesclam-se sentimentos de tristeza, pela partida do purpurado, e de alegria, pela importância de sua nomeação.

Uma função exercida com maestria e Fé

Dom Cláudio vai supervisionar as atividades de cerca de 300 mil padres e diáconos diocesanos do mundo, bem como dos sacerdotes religiosos (pertencentes às Ordens e Congregações), quando no exercício de funções pastorais, totalizando 440 mil eclesiásticos.

Além de suas qualidades naturais e muita experiência, o Cardeal levará consigo este precioso tesouro: uma grande Fé, sobre a qual se alicerça a certeza de que a Igreja vai superar seus problemas atuais. Além disso, uma visão clara das prioridades da hora presente.

Ele defende uma preparação mais estrita dos futuros sacerdotes, conforme declarou à imprensa:

Que nos seminários haja uma seleção mais rigorosa, uma formação mais exigente, para nós termos essa certeza moral de que eles [os futuros padres] vão ter condições de viver o celibato assim como a Igreja pede que eles vivam.

Foi esta a fórmula aplicada por ele, logo após assumir a Arquidiocese paulopolitana, em 1998, iniciando a reestruturação do seminário. E já se colhem bons frutos.

Em dezembro de 2005, ele teve a alegria de ordenar de uma vez 36 diáconos – 12 a caminho do sacerdócio e 24 permanentes: “Creio que nunca na história da Arquidiocese se ordenaram tantos diáconos de uma vez. E pedimos a Deus que isso se repita”, pôde ele dizer.

Sua próxima obra seria a construção de um seminário propedêutico (curso médio). A tarefa fica para seu sucessor.

Impulso missionário

Vários livros têm Dom Cláudio por autor.

Um deles (Sempre Discípulos de Cristo – Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana) compõe-se de suas pregações para o Papa João Paulo II bem como para os Cardeais e Arcebispos da Cúria Romana, durante o retiro espiritual de fevereiro de 2002.

Uma demonstração, aliás, da alta consideração em que ele era tido pelo falecido Pontífice.

Homem de trabalho bem planejado e perseverante, Dom Cláudio orientou e levou a cabo a obra de restauração da Catedral de São Paulo, reaberta ao culto em 2002.

Entre suas muitas realizações, porém, nenhuma iguala sua dedicação ao labor missionário. Para ele, a perda de fiéis, nas últimas décadas, tem como uma das principais causas a deficiência do trabalho de evangelização.

Foi o que afirmou durante o Sínodo dos Bispos, de outubro de 2005, quando alertou sobre a crise da Igreja latino-americana e apontou uma solução:

A resposta da Igreja no Brasil consiste, em primeiro lugar, nas missões, incluindo visitas missionárias permanentes aos lares. As paróquias precisam organizar seus fiéis e prepará-los para serem missionários.

Dom Cláudio sabia do que estava falando. Ele mesmo organizara em São Paulo as “visitas missionárias domiciliares permanentes”, acompanhando esse trabalho com valiosas orientações: “Não basta, porém, metodologia [nas visitas].

O próprio visitador deve aderir pessoalmente a estes conteúdos e vivenciá-los sempre de novo em renovados encontros pessoais com Jesus Cristo”, escreveu ele no jornal arquidiocesano O São Paulo, mostrando que o sucesso no apostolado depende da intensidade da vida espiritual do apóstolo.

Grande carisma de harmonização

O Cardeal Hummes manteve um excelente relacionamento com os movimentos eclesiais, aproveitando-os no esforço missionário.

A representantes de 38 desses movimentos, em 2004, ele declarou o objetivo de “criar e desenvolver entre nós, católicos, uma ‘cultura missionária’ que permeie as celebrações, a formação dos sacerdotes, dos agentes de pastoral e dos fiéis”.

Numa Arquidiocese de grandes dimensões, como a de São Paulo, com grupos e correntes de diversas orientações, ele teve o dom de estabelecer o acordo entre todos, de uni-los com vistas ao ideal maior da Igreja.

O lema inscrito no brasão cardinalício, “Vós sois todos irmãos”, bem reflete seu grande carisma de harmonização, pelo qual consegue colocar e conciliar sob sua orientação forças difíceis de se coordenarem.

Essa harmonia é o maior legado que ele deixa à Arquidiocese.

Filial gratidão dos Arautos do Evangelho

Foi providencial que a Casa-Mãe dos Arautos do Evangelho e seu centro vital estivessem na Arquidiocese de São Paulo, e que sua maior expansão acontecesse depois de 1998 – precisamente nos anos de pastoreio de Dom Cláudio.

Sentindo-se apoiados por ele, os Arautos puderam experimentar diversas vezes sua paternal e acolhedora presença, ouvindo dele palavras de encorajamento.

Três momentos se destacam entre todos.

Em fevereiro de 2005, Dom Cláudio presidiu à cerimônia de inauguração do Colégio dos Arautos do Evangelho Internacional. “Creio que muita gente estava esperando algo nesse sentido”, afirmou na homilia da Missa concelebrada com Dom Emilio Pignoli, Bispo de Campo Limpo.

E completou: “Tenho a certeza de que não ficarão desiludidos do trabalho que aqui vai ser desempenhado: um trabalho de educação católica, que tantos pais de família estão buscando”.

Descerrando a placa de inauguração do Colégio, disse o Cardeal: “Que o trabalho que os Arautos do Evangelho aqui se propõem realizar possa ter muitos frutos”.

Menos de um mês depois, Dom Cláudio celebrou a Missa inaugural do IV Congresso Internacional dos Cooperadores dos Arautos do Evangelho, com 2500 participantes provindos de 30 países.

Na homilia, felicitou-os “por trazer para dentro da Igreja esse novo carisma que vocês estão vivendo, essa forma nova de viver o Evangelho na Igreja de Jesus Cristo”.

Por fim, em 15 de junho de 2005, quando da ordenação dos primeiros 15 sacerdotes dos Arautos do Evangelho por Dom Lucio Angelo Renna, Bispo de Avezzano, Dom Cláudio quis comparecer ao início da celebração, embora tivesse compromissos inadiáveis, para dizer:

Eu quero cumprimentar e, com vocês, agradecer a Deus por esta graça tão grande que hoje lhes será concedida e, em vocês, à Igreja no Brasil, à Igreja no mundo. [...]

Por isso eu quis vir aqui para lhes manifestar minha alegria, minha satisfação, dar toda a minha bênção, todo o meu apoio, a vocês, os Arautos do Evangelho.

Esses momentos de convívio com Dom Cláudio ficaram marcados para sempre nos corações dos Arautos do Evangelho, os quais, ao recordá-los com profunda gratidão, elevam preces a Deus para que nosso querido Cardeal-Arcebispo alcance pleno sucesso em sua alta missão junto ao Santo Padre.