Vocês não estudam? Que colégio frequentam? Como fazem para conciliar a vida de evangelização e os estudos?

São perguntas ouvidas de vá­rias pessoas que se admiram de ver tantos jovens, rapazes e moças, fazendo parte dos Arautos do Evangelho.

É claro que nossos jovens estudam. E, como é nota característica de todo membro de nossa Associação, esses estudantes procuram levar seu carisma aos pátios e salas de aula, dando uma nota de ordem, beleza e cerimonial.

É o que acontece, por exemplo, na E.E. Prof. Rômulo Pero, na zona norte da Capital paulista, onde 22 deles estão matriculados.

São respeitados e admirados pelos seus companheiros de estudo, pelos professores e diretores, contribuindo para dar uma nova fisionomia ao estabelecimento onde estudam, e comparecem às aulas trajando o hábito de cor creme-marfim dos Arautos que dão os primeiros passos na vocação.

Em entrevista especial para nossa revista, a Diretora do colégio, Profª Angélica de Oliveira Reis, fala com objetividade e clareza dos problemas estudantis, e transmite uma mensagem aos nossos leitores mais jovens.

Arautos do Evangelho: O que levou a senhora a optar por esta profissão, ser professora e agora diretora de colégio?

Profª Angélica: Eu sou professora há muitos anos. Fui também coordenadora pedagógica, durante seis anos, e sou diretora há quatro meses.

Sempre gostei desse contato com a criança, com o adolescente e com os pais, eu me identifico muito, acho um trabalho proveitoso, a gente se dedica…

Ontem, por exemplo, entrei às oito horas da manhã e fiquei até as onze da noite. E hoje, às oito horas, eu já estava aqui de novo. A gente gosta mesmo.

Neste ramo do magistério você tem de gostar, porque não é fácil. É preciso ter dedicação. É uma profissão para pessoas que querem se entregar e se dar ao próximo. Tem de haver quem faça isso! Você tem que ter esse contato de carinho e de atenção.

AE: Qual foi a maior alegria e a maior decepção que a senhora teve ao longo da sua carreira de magistério?

Profª Angélica: Sou professora há 17 anos e, graças a Deus, posso dizer que ainda não tive uma grande decepção.

Mas a maior alegria é ver os seus alunos que progridem, ver que você pode fazer algo por eles. E é, por exemplo, ver depois um aluno ou uma aluna passar de ano, terminar o curso, entrar para uma faculdade e, depois de tudo isso, vir lhe agradecer pelo que você fez por ele.

É muito bom quando ele volta e diz: “Olha, eu consegui, passei”, e manifesta gratidão. Infelizmente, hoje em dia a gratidão é uma virtude muito difícil de praticar.

É normal que devam vir agradecer, porque foi difícil no início, muitas vezes o aluno é desobediente, etc. E se é verdade que se diz que a escola é um segundo lar, bem se pode dizer que a professora é uma segunda mãe. Tem que ser assim.

São muitas as alegrias que o magistério traz, mas posso dizer que esta é uma das maiores, para aqueles que escolhem essa carreira.

AE: Ao longo dos anos, a senhora tomou contato com diversos tipos de alunos. Como definiria um aluno ideal?

Profª Angélica: Bem, dei aula para o ensino fundamental e médio, ou seja da 5ª série ao 3º Colegial, portanto atingindo idades bem diversas. Pude analisar muito.

Não gosto daquele tipo de aluno que simplesmente tira notas máximas, recebe a matéria, estuda e tira 10, mas é passivo.

Para mim, o aluno ideal é o que participa, que pensa, que reage, que questiona, que pergunta durante a aula, que manifesta interesse de realmente aprender.

Sempre lhes digo que o mundo deles não é este aqui; o mundo está aí fora, e eles vão ter que enfrentá-lo. Aqui dentro estamos ajudando, orientando, formando. Mas o problema vai ser na hora em que eles forem enfrentar o mundo.

Eu acho que um aluno que quer se preparar bem para enfrentar as dificuldades da vida tem de ser crítico, saber ver, julgar e escolher para si o que é bom e rejeitar o que é mau, e não apenas aceitar passivamente tudo o que lhe é dito. Este para mim é um aluno ideal. Isso em matéria de aproveitamento. 

No que diz respeito ao comportamento, a maior qualidade que o aluno pode ter é o respeito; respeito por ele próprio, respeito pelo professor, respeito pelos colegas de sala.

Porque sem respeito não é possível fazer nada. E hoje em dia é muito difícil encontrar respeito. É raro um aluno que respeite os professores, que respeite os que o cercam em geral.

Não obstante, para surpresa minha, uma coisa que eu notei e que me impressionou muito no meu colégio, foi quando os Arautos do Evangelho vieram aqui com o conjunto musical dos Cavaleiros do Novo Milênio e fizeram aquela linda apresentação.

Os alunos desceram junto conosco, com os professores, e participaram com muito respeito e admiração. Eu não imaginava que isso tivesse esse resultado, porque infelizmente não é em todos os colégios que isso é assim.

Para mim foi uma surpresa; foi mais uma alegria em minha vida.

AE: Para a senhora, qual é a causa dessa falta de respeito e disciplina que se nota nos alunos?

Profª Angélica: Eu me lembro que os alunos, antigamente, quando a professora chegava na sala de aula, ficavam todos de pé, em sinal de respeito; era um cerimonial. Isso a título de exemplo, para mostrar como as coisas mudaram.

Hoje, na cabeça de alguns alunos, o professor é quase um inimigo. Eu às vezes me questiono: será que não é por causa da base familiar? A base familiar mudou muito. A formação do aluno de hoje em casa é diferente.

A falta de respeito já vem da própria família. Por exemplo, a gente às vezes tem três, quatro alunos, filhos da mesma mãe, mas não são filhos do mesmo pai. Os valores familiares decaíram muito.

Hoje em dia, se você chama uma mãe para conversar, ela manda dizer que não pode perder tempo para vir à escola falar do filho dela. E há ocasiões em que as pessoas competentes têm que pôr ordem no colégio, dar uma ordem aos alunos, e eles não aceitam.

Há alunos que, na sua frente, gritam com os pais, quando eles vêm à escola. Então, eu pergunto: como é que você pode conversar com um aluno desses? Quando você até consegue falar com eles, vêm armados como que para se defender.

É difícil entenderem que você quer fazer bem a eles, por causa de uma idéia errada que se tem hoje em dia, de que, só por ser autoridade, vai se querer o mal deles.

Quando se pergunta se eles têm algum problema, respondem: “Eu não tenho problema nenhum. Você não tem nada a ver com o meu problema”. Quer dizer, vêm com uma agressividade, fruto da deformação que, a meu ver, já nasce no seio da família.

AE: Quando a senhora chegou ao Colégio Rômulo Pero, os 22 rapazes dos Arautos do Evangelho já estudavam aqui. Qual foi a primeira impressão que a senhora teve ao tomar contato com este conjunto?

Profª Angélica: Com toda a sinceridade, eu gostei muito de ver esse grupo novo, que não tem medo de se apresentar como é, que não tem medo de aparecer diferente de todo esse quadro do qual eu falei há pouco.

E a primeira impressão que tive, meu primeiro pensamento foi que eu teria problemas, não com eles, os meninos dos Arautos do Evangelho, mas sim com os outros, tendo em vista tudo o que já mencionei.

Pensei que os outros teriam dificuldade para aceitá-los; e foi aí que eu me surpreendi em ver que todos os receberam muito bem.

Porque estes jovens de hoje em dia têm dificuldades em aceitar o que é novo, e os meninos dos Arautos do Evangelho são novos para eles.

Mas, ao contrário do que eu pensei, eles os aceitaram com toda a naturalidade, inclusive o hábito de vocês, o modo de vocês serem, etc. Por exemplo, em uma sala de aula dois de vocês foram escolhidos por unanimidade para serem os representantes da turma.

Em outra, sem que vocês digam nada, alguns chegam até a pedir terços, pedem-lhes que os ensinem a rezar, vários alunos e professores pedem que vocês cantem na sala de aula.

Foi muito bom quando eles foram de classe em classe explicando quem são vocês, como vivem, qual é o seu carisma, etc. Isso aumentou muito a simpatia que todos nós temos em relação a vocês.

Hoje a presença deles é marcante em todo o colégio. Até em outros períodos eles são conhecidos. Ainda mais depois que vocês fizeram a apresentação musical.

A tal ponto que quando um de vocês vem sem o hábito, vários acham estranho e até perguntam por que não está vestido com aquela roupa tão bonita.

É normal tê-los aqui. E repercussões assim demonstram como os Arautos do Evangelho são parte integrante do nosso colégio.

AE: Se a senhora fosse fazer alguma crítica ou sugestão para esses 22 rapazes da nossa Associação que estudam aqui, o que a senhora diria?

Profª Angélica: O que eu gostaria de dizer é o seguinte: eu soube que vocês têm realizado um trabalho junto aos alunos de vários colégios aqui em São Paulo, chamado Projeto “Futuro & Vida”.

Segundo me disseram, é um trabalho muito bom, que tem auxiliado milhares de jovens até agora, com excelentes frutos de integração da nossa juventude tão prejudicada por vários fatores, que seria longo citar aqui.

Então, o que eu gostaria é que vocês, Arautos do Evangelho, realizassem também no nosso colégio o Projeto “Futuro & Vida”, e trabalhassem com os nossos jovens.

Porque, se tem dado tão bons frutos em outros colégios, com apoio de diversos professores e diretores, tanto mais aqui, sendo eles alunos do nosso colégio, porque esta é a unidade escolar deles. Esta é uma sugestão e uma crítica ao mesmo tempo.

AE: Qual a sua mensagem para os leitores mais jovens da revista “Arautos do Evangelho”?

Profª Angélica: Gostaria de dizer a todos os jovens que leem a Revista “Arautos do Evangelho” que nunca percam esse gosto pela leitura, e o continuem alimentando.

E para aqueles jovens que fazem parte do Projeto “Futuro & Vida”, mas sobretudo aos que ainda vão participar dele, uma palavra que me vem assim de imediato é: aproveitem, porque vocês não podem deixar as oportunidades boas passarem sem aproveitar, vocês têm que aproveitar aqueles momentos que são raros.

Se alguém me perguntar: “O que eu devo fazer, Da. Angélica?” Eu respondo: “Aproveite!” Por que esse momento, se não for aproveitado, pode passar e não voltar mais.

Às vezes é uma palavra que você vai ouvir, algum bom conselho, alguma coisa boa que você iria aprender naquele momento, e que talvez em outra ocasião não tenha o mesmo impacto, o mesmo fruto, que dito pelo instrutor do Projeto “Futuro & Vida”.

É isso que eu, enquanto diretora de colégio, gostaria de dizer para os jovens leitores da revista “Arautos do Evangelho”