Arautos do Evangelho: Dom Emílio, como surgiu sua vocação sacerdotal?
Desde criança, sempre gostei muito de ir à igreja. Antes mesmo de fazer a Primeira Comunhão – em Cappella de’Picenardi, na província italiana de Cremona, onde nasci – já manifestei à catequista minha vontade de ser padre.
Ela disse que para ser padre é preciso ter vocação, ter um chamado de Deus. Eu olhei para ela e perguntei:
— Mas como vou saber se é Deus quem me chama?
Ela respondeu:
— Olhe, é o desejo do coração, Deus fala no coração. Quando você fizer a Primeira Comunhão, diga a Jesus: “Eu gostaria de ser padre, me dê a vocação!”
No dia da Comunhão fiz exatamente o que ela recomendou: fiquei pedindo, ajoelhado e com a mão no rosto, repetindo aquela invocação. Os outros já tinham voltado para os bancos e eu acabei ficando lá quase sozinho, ajoelhado.
De fato, nunca se afastou de mim o ideal do sacerdócio, de modo que quando chegou o momento – em 1945 –, apesar de várias dificuldades que assolavam a Itália, entrei no seminário.
AE: O senhor já pensava em ser missionário?
O Papa Pio XII, na época, tinha lançado um grande apelo à Igreja Europeia em favor da América Latina, falando sobre os migrantes que vinham para cá, traziam sua Fé, mas que ninguém acompanhava, expondo a situação de muitas paróquias sem sacerdote, etc. E nos seminários se comentava isso.
Em 1948, quando eu estava no seminário havia já três anos, o Pe. Ricardo Lombardi foi pregar em Cremona, realizando o curso “Por um mundo melhor” que teve sua importância na época.
Ele se hospedou no seminário, e o reitor pediu-lhe para celebrar uma Missa e dizer algumas palavras aos seminaristas. Ele discorreu sobre a América Latina, sobre a situação do Brasil, da Argentina, da Venezuela…
Sobretudo, mostrou o Brasil como um país imenso e necessitado de missionários, onde quase não havia sacerdotes, onde alguns Bispos queriam começar um seminário em sua diocese mas não tinham forças.
E nós, seminaristas, pensávamos: “Somos bastantes aqui, por que não nos dispomos a ir para lá? Já que queremos nos consagrar a Deus e à Igreja, vamos aonde precisa!”
Então, muito tomado pelo assunto, conversei com o diretor espiritual. Ele aconselhou: “Devagar, devagar… Termine a filosofia, termine tudo direitinho”. E foi acompanhando-me no discernimento.
Um dia chegou o reitor à nossa classe e leu uma carta da Comissão Pró América Latina, de Roma, a qual dizia que o Santo Padre abençoava se alguns seminaristas se dispusessem a ajudar na América Latina como missionários.
Dias depois, o Bispo de Cremona manifestou o desejo de que a Diocese ajudasse e ouvisse esse apelo do Papa. Tudo isso me animou.
Fui então passar uns dias no Colégio Pio Brasileiro, em Roma, para aprender um pouco de português. Encontrei lá um seminarista de Ribeirão Preto, que me motivou a escrever para Dom Mousinho, Bispo dessa cidade paulista.
Escrevi, e ele imediatamente me acolheu, aconselhando-me a cursar a teologia em São Paulo, pois assim aprenderia melhor a língua, e já iria me preparando, além de ir sendo útil.
Minha mãe é que ficou triste e disse: “Mas, filho, termine de se formar. Eu queria assistir à sua primeira Missa…” Respondi que se Deus quisesse eu voltaria.
Mas o coração dela já sentia… Quando me beijou na despedida, ela disse: “Vá, filho, Deus o abençoe… mas a sua mãe você não verá mais”.
E realmente foi assim.
AE: Quando Dom Emílio chegou ao Brasil?
Dia 20 de outubro de 1953. Cheguei em Ribeirão Preto e me assustei com o calor porque, tendo saído da Itália quando começava o inverno, ninguém me orientou que aqui era tempo de calor. E a única batina com a qual vim era de lã, meias de lã, camiseta de lã. “Meu bom Jesus!” – pensei.
Certo dia, um padre de lá me perguntou:
— Como é, está se acostumando?
— Olhe, está muito quente aqui. Meu Deus! Não há uma região um pouco mais fria?
Outro padre, que dava aulas no seminário, escutou isso e me convidou a ir para sua paróquia, em Cravinhos, uma cidade muito mais fresca. O Bispo autorizou e eu mudei-me. Ali não tinha seminarista algum e eu fui adotado.
De tal modo que, quando estava na hora de ser ordenado, foi uma comissão ao Bispo pedir para me ordenar em Cravinhos. Deram-me tudo: roupas, paramentos, uma passagem de presente para ir à Itália, depois da primeira Missa.
Mas qual o motivo de vir ao Brasil? Trabalhar pelas vocações, formar sacerdotes. Graças a Deus, consegui ordenar nesses anos 112 padres, dentro em breve ordenarei mais 8, e no próximo ano mais 13.
AE: O que mais lhe agrada no povo brasileiro?
Há aqui uma boa índole, e o que precisamos de fato é evangelizar profundamente as pessoas, para que conheçam mesmo a doutrina do Senhor e a caminhada da Igreja. Muitos estão na ignorância religiosa e facilmente são desviados por seitas.
Se tivermos bons padres que entendam o povo, saibam ouvir, visitem as famílias, deem atenção aos doentes, então o Brasil estará salvo.
AE: A Providência quis, para nossa alegria, que em determinado momento Dom Emílio conhecesse os Arautos…
Realmente, vemos como é a mão de Deus que guia nossas atitudes quando rezamos todo dia, invocamos o Espírito Santo, para que Ele nos oriente sempre a fazer unicamente a Santíssima vontade do Pai.
O Pe. Sandro e o Pe. Beto foram os primeiros que me falaram dos Arautos. Manifestei o desejo de conhecê-los e me convidaram para passar um dia na Casa-Mãe. Vi ali tanta coisa boa, tudo muito digno, muito direito. Tive uma conversa, na qual me apresentaram os Estatutos da Associação.
Li na hora e anotei algumas coisas que achei que devia mudar. Mandaram-me depois uma nova versão, que eu enviei para Dom Geraldo Majella, o qual na época encontrava-se em Roma. Ele me respondeu prontamente, dizendo que os Arautos do Evangelho mereciam ser apoiados.
Então eu aprovei os Arautos por um quinquênio, pensando: “Vamos ver, pelos frutos se conhecerá a árvore”. E a árvore deu frutos demais, tão depressa que me surpreendeu.
Eu havia assinado o decreto aprovando como Associação de Fiéis por uma experiência, depois vários Bispos aderiram, e quando tudo aquilo foi apresentado à Santa Sé, pronto, já ficou Associação de Direito Pontifício. Foi muito rápido. Mas é isto, foi uma caminhada muito bonita.
AE: Dom Emílio, o senhor poderia enviar uma mensagem para os leitores?
Caríssimos leitores, devemos dar graças a Deus por essas obras que Ele suscitou a partir do Concílio Vaticano II, os movimentos leigos e as fraternidades novas, que foram surgindo em toda a Igreja.
Devemos confirmar nossa Fé no poder do Espírito Santo, porque muita coisa não sai do planejamento de nossas cúrias, nem de nossos planos. É o próprio Deus quem conduz a história da salvação e também as nossas histórias.
Entre as mais belas histórias justamente está a dos Arautos do Evangelho, que eu pude conhecer de perto, aqui em São Paulo e também em Roma, no importante trabalho de restauração da igreja de San Benedetto in Piscinula, no Trastevere romano.
É importante pensar em todo o impulso que eles dão através das visitas domiciliares, da oração nas casas e da celebração das solenidades.
O seu coro e orquestra internacional comovem o povo, sobretudo nas periferias; nós nunca conseguiríamos tudo isso se não tivéssemos esse apoio dos Arautos.
Tenho também o grande prazer de dizer que o Colégio Internacional dos Arautos está no território de minha Diocese, e ali se erguerá também um Santuário de Nossa Senhora de Fátima, que por enquanto é uma capelinha.
Como tudo quanto começa, ainda está como um grão de mostarda, mas sei que depois crescerá.
Quero dar os parabéns a todos os que aderem aos Arautos do Evangelho. Estão no bom caminho e realmente devemos ficar atentos, porque o Espírito Santo, através deles, dos seus sacerdotes e das novas vocações, nos dá todo aquele apoio necessário para vermos que a nossa Igreja está reflorescendo.
É a realização do grande sonho do Papa Beato João XXIII, o qual desejava um novo Pentecostes na Igreja. Este Pentecostes está acontecendo, uma primavera na Igreja.
Na Europa – penso agora nos leitores italianos – a diferença entre o inverno e a primavera é uma coisa fantástica, como da morte para a vida.
Aqui no Brasil não é tão marcante assim a diferença das estações, mas o que interessa é a ideia, ou seja, a Igreja precisa reencontrar o fundamento da sua Fé.
Então, eu quero que todos acolham com muito amor e alegria o exemplo, o testemunho de vida e o apostolado dos Arautos do Evangelho e das jovens da Sociedade de vida Apostólica Regina Virginum, que são as moças do ramo feminino dos Arautos.
Entre elas há realmente verdadeiros “anjos” de Deus, que nem parecem de verdade no meio de uma sociedade jovem tão divergente. São moças que vivem num regime de disciplina, numa profunda oração e no serviço, como o que fazem às crianças ali no Colégio Internacional.
Tudo isso é um fruto abençoado, que está se realizando com a graça de Deus.