Arautos do Evangelho: Qual a importância dos meios de comunicação social na Igreja?

Os meios de comunicação social têm um grande alcance, não importa qual meio seja: um jornal, um programa de rádio, uma televisão comercial ou uma televisão católica. Sempre há gente que está o dia inteiro com o controle remoto na mão, buscando algo para escutar.

Todos os dias recebo cartas de ateus, de pessoas de fé judia, de protestantes, de evangélicos, de testemunhas de Jeová, enfim, de todo gênero de pessoas, e obviamente também de muitos católicos.

O que significa isso? O trabalho feito através dos meios de comunicação social chega a uma quantidade de gente que não se pode imaginar.

Para mim, o mais importante é que o Espírito Santo ilumine. Eu não tenho escritores, não uso prompter, não tenho roteiro. Meu roteiro, Deus põe no coração e na alma, e não é porque eu tenha muito talento.

Eu creio que Deus usa os mais inúteis para sua obra. Deus serve-se inclusive de nossa debilidade para fazer algum bem.

Penso que às vezes Deus escolhe a pessoa menos capacitada, e depois a capacita. Esta é minha experiência pessoal. Às vezes me pergunto: “De onde me saiu isso?” E em seguida respondo a mim mesmo: “É o Espírito Santo, é questão de deixar-se usar por Deus”.

AE: Alguém poderia dizer que o fato de aparecer constantemente em rádio, televisão, pode transformar um sacerdote num simples comunicador. Isso é verdade?

Dom Gutiérrez Pavón, Bispo de Chiquinquirá, disse certa vez que o sacerdote que não é comunicador não é bom sacerdote. No rito de ordenação é dado a cada um o Livro dos Evangelhos, sendo dito: “Proclame o Evangelho de Jesus Cristo”.

Ou seja, o sacerdote que não fala, que não dialoga com o mundo – seja de um púlpito, seja na imprensa, seja na rádio ou na televisão, seja numa sala de aula – aquele que não se comunica não está levando a cabo parte de sua missão.

Creio que isso se aplica também ao laicato, se aplica aos religiosos, aos consagrados; todos somos comunicadores de algo. Inclusive vocês: simplesmente com seu hábito – eu os admiro por isso, porque têm um sinal marcante muito belo –, vocês evangelizam.

São Francisco caminhava com seus frades pelas ruas de Assis, e um deles, muito entusiasmado, lhe perguntou: “Quando começaremos a pregação?” E São Francisco lhe respondeu: “Ai, se tu soubesses que já a fizemos; por caminharmos na cidade, de hábito, já estamos evangelizando”.

Ou seja, ver na televisão um sacerdote, com um colarinho romano, é digno de algo, fala de algo, sem dizer uma só palavra. Sofro um pouco… Confesso-lhe algo de que não falo amiúde, mas vou falar aqui.

Sofro com os sacerdotes pouco identificados, com os sacerdotes que querem andar vestidos como os jovens, com camiseta e calça jeans ou esporte, com muitas cores. Se eles se dessem conta de que estão perdendo a oportunidade…

AE: Que oportunidade estão perdendo?

Perdendo a oportunidade de representar a Igreja visivelmente, numa sociedade que parece ter-se esquecido da Igreja. E creio que aí é onde Jesus Cristo nos está chamando a sermos diferentes.

Ou seja, Jesus Cristo não me chamou a ser como os demais, não me chamou a fazer o que fazem todos os outros. Eu não sou um jornalista como um diretor de jornal ou como qualquer outro, sou um sacerdote nos meios de comunicação. Há, pois, uma diferença, e as pessoas esperam esta diferença.

Nossos sacerdotes, nossos religiosos precisam dar-se conta de que, se não se identificam claramente com o que são, o público não entende quem é essa pessoa, e estão enviando mensagens ambíguas à sociedade de hoje, por falta de uma batina, por falta de um colarinho romano, por falta de um hábito.

Não estou dizendo que o hábito faz o monge. Não. Mas certamente, se não nos identificamos… numa sociedade audiovisual, se não nos apresentamos visivelmente como o que somos, perdemos muito. Na minha opinião, isso é algo que temos de ver e compreender.

AE: Que momento do dia Pe. Alberto reserva para falar com Deus, qual é o seu momento de oração?

Nada desse trabalho seria possível sem uma vida de oração. Eu parto do princípio de que quem não se levanta cedo, não reza. É preciso levantar-se cedo.

É preciso começar a oração cedo. Eu começo todos os meus dias às cinco e meia, e às seis da manhã estou já em oração. Não importa que o dia anterior termine às onze horas, onze e meia, meia-noite. É preciso levantar-se cedo e rezar.

Depois, nunca gravei um programa ou uma entrevista de televisão sem primeiro ter celebrado a Missa. A Eucaristia é o centro de nossa vida. Se não se celebra a Missa, não se pode fazer mais nada.

A Eucaristia é a fonte de todo o apostolado da Igreja. Verdadeiramente é píncaro e fonte. Se nós não celebramos a Eucaristia, não podemos fazer nada.

É preciso também ter amor a Nossa Senhora. Há três amores que são de todos os católicos: a Eucaristia, a Virgem e o Santo Padre. Não conheço um santo na história da Igreja que não tivesse estes três amores.

É importante também, se você é um comunicador, saber que você não pode dar o que não tem, não pode oferecer o que não brota de seu coração. Primeiro é preciso ser, para depois fazer. Dizia São Tomás de Aquino que a ação segue o ser.

Vivemos em uma sociedade que diz o oposto, ou seja, o ser segue a ação: primeiro faço e depois sou. Não, não! A verdadeira filosofia cristã, o que é fundamento para nossa teologia cristã, se baseia em São Tomás: a ação segue o ser.

Portanto, primeiro sou; e porque sou, tenho capacidade de fazer. E não vice-versa.

AE: Por que hoje em dia os jovens se afastam da Igreja?

Acho que falta um pouco de entusiasmo quanto ao trabalho com os jovens. Lembro-me de minha época de adolescente: havia sempre adultos nas paróquias, casais que se dedicavam aos jovens.

Hoje em dia vejo muito poucos casais, muito poucos adultos que se dedicam ao trabalho da pastoral juvenil. E quando digo “dedicam”, digo que empregam duas, três, quatro horas por semana, para prestar um serviço aos jovens.

Os jovens que estão na atividade juvenil, nos retiros de jovens, na Legião de Maria, nas atividades das paróquias juvenis, esses não abandonam a Igreja nunca, porque eles conhecem uma Igreja viva e jovem.

O Santo Padre Bento XVI, no dia de sua posse como Sumo Pontífice da Igreja Católica, disse: “A Igreja é jovem, a Igreja está viva”. Estas duas palavras ficaram bem gravadas no meu coração. Eu me emocionei muitíssimo.

Eu estava lá, numa das primeiras filas, diante de Sua Santidade, e me lembro da emoção que sentia quando aqueles jovens aplaudiam. A Igreja é jovem e a Igreja está viva. Que não nos esqueçamos nunca disto. Estas duas coisas são reais.

AE: Recentemente Pe. Alberto lançou um livro a respeito do matrimônio: “Ame de verdade, viva de verdade”. Poderia comentar algo a respeito dessa publicação?

Um dos maiores problemas que tem a sociedade de hoje é o do matrimônio. Ou seja, o noivado deixou de ser noivado, porque hoje em dia as relações do casal muitas vezes começam com a intimidade, e não com o conhecer-se.

E quando falo intimidade, é intimidade física, ou seja, não é conhecer-se como casal de verdade.

Com Deus, nossos problemas são fáceis de resolver. Porque quem reza, quem vai à Missa, fala com Deus. Mas entre nós, nossos problemas não são tão fáceis de resolver.

E um dos maiores problemas que existem hoje em dia é o dos casais. Ou seja, se não temos casais santos, não teremos famílias sadias. Se não há um casamento sadio, não haverá uma família sadia.

A Igreja nos ensina que o matrimônio é para toda a vida, indissolúvel. Mas vivemos numa sociedade onde há 50% de divórcios! Não podemos negar isso, 50% dos casais que hoje se casam vão se divorciar ou se separar amanhã. É uma realidade de nosso tempo.

Em vez de nos queixar que há muitos divórcios, temos de fazer algo. E esse livro é uma resposta a uma urgência de nossa sociedade.

Escutem-se, dialoguem, comuniquem-se, conheçam-se melhor, busquem a Deus, isto é, fortaleçam sua relação espiritual para ter uma melhor relação como casal. O diálogo, a harmonia, a renovação espiritual ajudam o casal a ter uma relação sólida e duradoura.

AE: Não resta senão agradecer sua gentileza em conceder esta entrevista…

Os Arautos do Evangelho são sempre bem-vindos onde quer que eu esteja, e me encanta o trabalho que vocês fazem, propagando a mensagem de Fátima ao mundo.

Sem dúvida, propagar a mensagem de Nossa Senhora é proclamar o Evangelho, e esta é mais uma razão para se chamarem “Arautos do Evangelho”, porque ao proclamar a mensagem de Maria Santíssima vocês estão proclamando a mensagem de Jesus.

A todos vocês e dou a minha bênção muito especial, e um abraço aos que pertencem a essa grande família.

 


O Pe. Alberto Cutié, de 38 anos, é um dos personagens mais conhecidos nos meios católicos de língua hispânica nos Estados Unidos, graças ao seu extraordinário carisma de comunicação através do rádio e da televisão.
É diretor geral de “Comunicaciones Católicas Pax”, de Miami, que utiliza avançada tecnologia para levar ao mundo inteiro uma mensagem de fé, esperança e amor.