AE: A beatificação de Albertina Berkenbrock é uma alegria para os brasileiros, mas para vocês especialmente…

Veridiana: Enfim, é uma alegria para todos. Essa beatificação é aguardada com ansiedade há muito tempo, pois o processo foi iniciado em 1952 e demorou bastante.

Entretanto, por mais que a causa em Roma andasse devagar, a memória que se tem de Albertina nunca se apagou.

Os fiéis perseveraram na devoção a ela, as peregrinações a seu túmulo foram constantes e as graças obtidas por sua intercessão alimentaram o fervor nestes anos todos.

AE: Albertina viveu apenas 12 anos. O que se sabe de sua curta existência?

Arielle: O aspecto mais marcante da Beata Albertina antes do martírio foi sua religiosidade. Ela se destacou como aluna do curso de catecismo preparatório para a Primeira Comunhão.

O professor Hugo Berndt, que ministrou o catecismo, disse que seus olhos brilhavam enquanto ele falava, deixando transparecer seu interesse e sua compreensão.

Ela era extremamente obediente, dócil e serviçal, nunca negando ajuda nenhuma a quem quer que fosse, nem se vingando das maldades que as outras crianças faziam contra ela.

Albertina frequentava a Missa com a família aos domingos, distinguindo-se pelo recolhimento e devoção com que se portava. Ela não tinha as frivolidades das outras meninas e tomava muito a sério as orações.

Apesar de ter recebido uma formação religiosa comum, os efeitos nela foram profundos.  

AE: Como se desenrolou o trágico martírio? 

Veridiana: Era a tarde do dia 15 de junho de 1931, no vilarejo de São Luís. O pai da Beata Albertina, Henrique Berkenbrock, pediu que a menina fosse atrás do “Pintado”, um boi de estimação que havia desaparecido.

Ela saiu sozinha para procurá-lo, e andando pelo mato chegou até o local onde trabalhava “Maneco Palhoça”, o assassino. Como ele fora contratado aqueles dias por seu pai, Albertina perguntou:

— “Maneco, você viu o ‘Pintado’ por aí?”.

Ele disse maldosamente que sim, que estava mais adiante. Sem desconfiar de suas intenções, a menina foi pelo caminho indicado e o assassino a seguiu. Vendo-se a só com ela, fez a proposta pecaminosa. 

AE: E encontrou forte resistência…

Veridiana: Sim, imediata! A Beata Albertina tinha uma noção muito clara sobre o 6° Mandamento, e resistiu heroicamente porque não queria ofender a Deus.

Tendo recebido a resposta negativa, Maneco tentou forçá-la a consentir, e daí resultou uma luta violenta. Ela gritou: “Não! Isso não! Não me maltrate!” e se defendeu o quanto pôde.

Vendo que seu plano sinistro não se realizaria, ele puxou do bolso um canivete muito afiado e desferiu o golpe.

Cortou-lhe a faringe de fora a fora, o que fez esguichar muito sangue. O golpe foi tão terrível, que dava para ver até o céu da boca. Assim ferida, Albertina sobreviveu apenas alguns minutos.

Minha avó, Marta Henrique Berkenbrock da Rosa, ajudou a limpar o corpo, e costumava dizer que ela estava ensopada de sangue. De fato, suas roupas, o chão e até os galhos das árvores testemunharam a sua resistência. 

AE: Como se explica a difusão do seu culto?

Arielle: A repercussão que o ato heroico praticado pela Beata Albertina teve e continua tendo é impressionante.

Se levarmos em conta o apagamento de sua vida e a simplicidade de seu vilarejo de origem, vemos que não há nenhum fator humano que seja capaz de despertar o interesse das pessoas.

O que tornou a Beata Albertina conhecida e amada foi uma ação especial da graça. A sua coragem em dizer não e entregar a vida por amor à virgindade é o principal motivo da difusão do seu culto. O seu exemplo fala por si mesmo e atinge o fundo dos corações. 

AE: Certamente ela deve ter obtido diversas graças para os fiéis… 

Veridiana: Muitas, e logo após a sua morte. Podemos citar o caso famoso de um paralítico que foi miraculado pela intercessão da Beata Albertina; esta cura repentina propiciou que sua história fosse mais conhecida e os fiéis rezassem a ela.

Na capela erguida no local do martírio há incontáveis ex-votos, que testemunham numerosas graças recebidas por sua mediação.

Apesar de não faltarem esses testemunhos, seu processo de beatificação não exigiu qualquer milagre por se tratar de uma mártir; porém, os milagres, serão indispensáveis para a canonização.

AE: Ela foi mártir da castidade, uma virtude tão esquecida em nossos dias!

Arielle: É bonito que a primeira bem-aventurada brasileira de nascimento seja uma jovem mártir da castidade. É um sinal de que Deus quer jovens santos e puros para o Brasil!

Costuma-se interpretar a prática da castidade como um fardo pesado e uma obrigação imposta que nos distancia da felicidade. Isso não é verdade!

A pureza confere àqueles que a praticam a felicidade de que nos fala Nosso Senhor no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros porque verão a Deus” (Mt 5,8).

Viver este Mandamento é ter alegria, paz de alma e, como o próprio exemplo de Albertina nos mostra, uma extraordinária fortaleza. 

No nosso caso, o exemplo dela nos encoraja na busca da perfeição enquanto Arautos do Evangelho. Quem sabe se na raiz de nossa vocação à vida consagrada não esteja a preciosa intercessão da Beata Albertina!