“Se este menino se entregar ao mal, será terrível; mas se trilhar as vias do bem, dará muita glória a Deus” – A vida de Frei Royo Marín mostra o acerto desse prognóstico feito a seu respeito por um sacerdote que o conheceu quando ainda criança.

“Dará muita glória a Deus”

Nasceu em 9 de janeiro de 1913 no tranquilo vilarejo espanhol de Morella. De seu pai, Antonio Royo Ortí, herdou o grande talento natural e o vigoroso bom senso.

Já octogenário, recordava com emoção a ardorosa Fé Católica da qual seu pai e sua mãe, Da. Isabel Marín Bonell, davam exemplo aos nove filhos. 

Com apenas quatro anos de idade, uma grave enfermidade o levou à beira da morte.

Esgotados os recursos médicos, o problema ficou exclusivamente a cargo da mãe, que o resolveu com algumas gotas de água de Lourdes, reforçadas por fervorosas súplicas a Maria, Saúde dos Enfermos.

Aos oito anos fez sua Primeira Comunhão e a partir daí passou a comungar diariamente. “Eu tinha necessidade de encontrar-me com Nosso Senhor no fundo de meu coração. E o encontrava na Eucaristia” – declarou a um entrevistador.

O testemunho de um notável orador sacro que se hospedou na casa dos Royo quando Antonio tinha 11 anos mostra quanto este se sobressaía aos meninos de sua idade.

“Tem uma grande inteligência, é superdotado. Se se entregar ao mal, será terrível; mas se trilhar as vias do bem, dará muita glória a Deus”.

“Por que não me fazer sacerdote?”

Desejando ser médico, aos 14 anos Antonio matriculou-se no curso preparatório da Faculdade de Medicina de Valência.

Certo dia, quando estudava, surgiu-lhe de repente uma pergunta: “Por que não poderei ser médico de almas, em vez de médico de corpos? Por que não me fazer sacerdote?” Fechou imediatamente o livro, dizendo: “Sacerdote acima de tudo!” 

Abandonou todos os seus projetos anteriores e encetou o caminho do Altar.

Essa caminhada se prolongou por 17 anos, por causa de uma penosa enfermidade que durou cinco anos e da violenta guerra civil espanhola, de 1936 a 1939, durante a qual ele esteve por duas vezes na iminência de ser fuzilado. 

Enquanto se dedicava aos estudos rumo à nova meta de sua vida, Antonio lançou-se à conquista de almas.

Em pouco tempo, destacou-se como líder de uma plêiade de jovens de sua idade, com os quais fundou a União Católica de Nossa Senhora de Atocha. Essa associação foi um celeiro de vocações sacerdotais.

Afinal, quando em 1939 se restabeleceu a paz na Espanha, Royo Marín tinha terminado com brilho seu curso de filosofia e ingressou como noviço no convento dominicano de Salamanca.

Recebeu a ordenação sacerdotal em 9 de julho de 1944, aos 31 anos de idade e seguiu para Roma, onde cursou a famosa Universidade Pontifícia Angelicum, obtendo em tempo recorde e com nota máxima a licenciatura em teologia.

Pregador, professor e escritor

Começou então sua atividade apostólica. Durante quase cinco anos, percorreu o país fazendo prédicas que atraíam multidões e foram causa de numerosas conversões.

Quando já se assinalava como um dos maiores pregadores da Espanha, a obediência o chamou para a função de professor.

Assim, ele deixou de pregar pessoalmente e passou a ser um formador de pregadores. Mais de 500 futuros sacerdotes foram por ele preparados para o exercício dessa sublime missão.

Algumas décadas mais tarde, esse religioso exemplar declarará: “Por disposição de meus superiores, tive de me exercitar um pouco em todos os aspectos da vocação de dominicano: pregador, catedrático e escritor”.

Poucos escritores dos últimos cem anos tiveram êxito como Frei Royo Marín. Ele é autor de 26 obras sobre temas teológicos, todas com o grande mérito de unir à profundidade doutrinária uma clareza didática que as tornam acessíveis ao leitor de nível cultural comum.

A tiragem dessas 26 obras supera largamente a casa dos 500 mil, quantidade inusitada em se tratando de livros de caráter estritamente doutrinário.

Condecorado pela Santa Sé

Uma vida consagrada ao serviço de Deus e da Igreja bem merecia receber da Santa Sé uma manifestação de reconhecimento.

Em junho de 1986, Frei Royo Marín foi condecorado com a medalha Pro Ecclesia et Pontifice, “em razão do excelente trabalho e estudo em prol da Igreja e do Pontífice Romano”.

Mais do que grande intelectual, contudo, era ele um religioso, sujeito, como tal, à obediência nas menores coisas.

Assim, já com mais de 80 anos de idade e 50 de sacerdócio, continuava seu intenso labor apostólico de escritor, pregador e diretor espiritual, mas exercendo também humildes funções como a de sineiro no convento de Nossa Senhora de Atocha.

Em reconhecimento por sua fecunda obra a serviço da Igreja nos campos teológico e apostólico, bem como pela paternal e solícita orientação espiritual dada aos Arautos do Evangelho, em 8 de setembro de 2003 o inesquecível sacerdote recebeu o título de “Irmão Honorário dos Arautos”. 

Este foi Frei Antonio Royo Marín, que Deus acaba de chamar a Si depois de longa e fecunda vida de apostolado.