Brilhante poeta francês, Edmond Rostand escrevia: “É durante a noite, que é belo crer na luz”.

De fato, uma pessoa que vivesse em meio às trevas sem nunca ter tido um contato com a luz do astro-rei, mas, por um simples relato que outro lhe fizesse, cresse que ele haveria de nascer, daria uma bela demonstração de grandeza e força de alma.

Assim seria o espírito do povo brasileiro. Porque o Brasil sempre desejou ver de perto aquele que é o seu mais alto elo de ligação com Deus, aqui na terra. A figura do pároco, do Bispo, mais ainda do Cardeal, é algo que por certo encanta a alma dos católicos brasileiros.

Mas quando diante deles se apresenta o chefe da Cristandade, aquele Sucessor de Pedro sobre cujos ombros repousa o dom da infalibilidade, vê-lo chegar e estar quase ao alcance de suas mãos, é ver a luz na qual se acreditou no meio das noites escuras das provações e dramas pelas quais atravessa este país.

Por sua vez, Bento XVI, ao aportar pela primeira vez como Papa no continente americano, encontrou um Brasil profundamente cristão e entusiasta do Sumo Pontífice.

É esse mútuo desvendar dos sentimentos mais profundos da alma que se foi revelando ao longo de sua permanência em terras brasileiras.

Já logo à sua chegada a São Paulo, ao saudar o Brasil na pessoa do Presidente da República, Bento XVI patenteou esse lado paterno e afetuoso, manifestando, ao mesmo tempo, a grandeza de ser o doce Cristo na terra:

Nas palavras de boas-vindas a mim dirigidas, sinto ecoar, Senhor Presidente, os sentimentos de carinho e amor de todo o povo brasileiro para com o Sucessor do Apóstolo Pedro.[…]

O Brasil ocupa um lugar muito especial no coração do Papa.

 Não somente porque nasceu cristão e possui hoje o mais alto número de católicos, mas sobretudo porque é uma nação rica em potencialidades, com uma presença eclesial que é motivo de alegria e esperança para toda a Igreja.

“Cristo vos chama a serdes santos”

Verdadeiro sucessor daquele que foi deixado como pedra para fundação de sua Igreja, Bento XVI, em seu encontro com os jovens no Estádio do Pacaembu, no dia 10, estimulou neles o desejo de santidade e os alertou contra os perigos que se escondem atrás das facilidades ilusórias do mundo consumista.

Procurai resistir com fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes, que vos leva a uma vida dissoluta, paradoxalmente vazia, ao fazer perder o bem precioso da vossa liberdade e da vossa verdadeira felicidade. […]

Para isso, contais com a ajuda de Jesus Cristo que, com a sua graça, fará isso possível (cf. Mt 19, 26).

A vida de Fé e de oração vos conduzirá pelos caminhos da intimidade com Deus e de compreensão da grandeza dos planos que Ele tem para cada um. […]

Queridos jovens, Cristo vos chama a serdes santos. Ele mesmo vos convoca e quer andar convosco, para animar com seu espírito os passos do Brasil neste início do terceiro milênio da Era Cristã.

Peço à Senhora Aparecida que vos conduza com seu auxílio materno e vos acompanhe ao longo da vida.

Canonização de Frei Galvão

Um brasileiro autêntico, na plenitude do termo, só pode ser um santo.

Na Missa celebrada no dia 11 no Campo de Marte, num gesto sem dúvida mais eloquente do que qualquer discurso, o Papa canonizou um filho destas terras, Santo Antônio Galvão, para servir a todos de exemplo de como a santidade não é algo inatingível quando se recorre ao maternal amparo de Maria.

Queridos amigos e amigas, que belo exemplo a seguir deixou-nos Frei Galvão!

Como soam atuais para nós, que vivemos numa época tão cheia de hedonismo, as palavras que aparecem na Cédula de consagração da sua castidade: “Tirai-me antes a vida que ofender o vosso bendito Filho, meu Senhor”.

São palavras fortes, de uma alma apaixonada, que deveriam fazer parte da vida normal de cada cristão, seja ele consagrado ou não, e que despertam desejos de fidelidade a Deus dentro ou fora do Matrimônio.

O mundo precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples que rejeitem ser consideradas criaturas objeto de prazer.

É preciso dizer não àqueles meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do Matrimônio e a virgindade antes do casamento.

É nesse momento que teremos em Nossa Senhora a melhor defesa contra os males que afligem a vida moderna; a devoção mariana é garantia certa de proteção maternal e de amparo na hora da tentação.

“Duc in altum”

No encontro com os Bispos do Brasil, na catedral de São Paulo, o Santo Padre, recordando-lhes a palavra de Jesus aos Apóstolos: “Duc in altum” (Lc 5, 4), lançou o desafio de um novo impulso evangelizador, recomendando que também eles jogassem em mar alto as redes.

Entre os problemas que afligem a vossa solicitude pastoral está, sem dúvida, a questão dos católicos que abandonam a vida eclesial. […]

É necessário, portanto, encaminhar a atividade apostólica como uma verdadeira missão dentro do rebanho que constitui a Igreja Católica no Brasil.

Deve-se promover uma evangelização metódica e capilar em vista de uma adesão pessoal e comunitária a Cristo.

Trata-se efetivamente de não poupar esforços na busca dos católicos afastados e daqueles que pouco ou nada conhecem sobre Jesus Cristo.

Isso através de uma pastoral da acolhida que os ajude a sentir a Igreja como lugar privilegiado do encontro com Deus e mediante um itinerário catequético permanente.

Uma missão evangelizadora que convoque todas as forças vivas deste imenso rebanho.

Meu pensamento dirige-se, portanto, aos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos que se prodigalizam, muitas vezes com imensas dificuldades, para a difusão da verdade evangélica.

Dentre eles, muitos colaboram ou participam ativamente nas Associações, nos Movimentos e em outras novas realidades eclesiais que, em comunhão com seus Pastores e de acordo com as orientações diocesanas, levam sua riqueza espiritual, educativa e missionária ao coração da Igreja, como preciosa experiência e proposta de vida cristã.

Paternalidade e ternura para com seus filhos

Mas, talvez, onde a solicitude de Bento XVI mais tenha transparecido foi nos pequenos episódios de todos os dias.

Seis vezes ele saiu ao balcão do Mosteiro de São Bento para abençoar os fiéis que ansiosamente aguardavam a oportunidade de ver, por uns instantes, o “doce Cristo na terra”.

Nem o frio, nem a chuva, nem as longas esperas foram capazes de desanimar milhares de pessoas que no Largo de São Bento vigiavam as entradas e saídas do Santo Padre.

Ao visitar a Fazenda Esperança, o Papa manifestou verdadeira compaixão para com aqueles nos quais a fraqueza humana mais se tinha manifestado: os dependentes de drogas.

Seu desvelo o levou a conceder um auxílio de cem mil dólares para favorecer o desenvolvimento dessa obra caritativa.

Terço diante da Padroeira

No dia 12 à tarde, na Basílica de Aparecida, o Papa fez vibrar as fibras mais sensíveis de seu coração profundamente mariano, oferecendo a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, o simbólico presente da Rosa de Ouro.

Após a recitação do terço, suas alentadoras palavras penetraram a fundo no coração de todos.

O Papa veio a Aparecida com viva alegria para vos dizer primeiramente: “Permanecei na escola de Maria”.

Inspirai-vos nos seus ensinamentos, procurai acolher e guardar dentro do coração as luzes que Ela, por mandato divino, vos envia lá do alto.

Como é bom estarmos aqui reunidos em nome de Cristo, na Fé, na fraternidade, na alegria, na paz, “na oração com Maria, a Mãe de Jesus!” (At 1, 14).

Sinto-me muito feliz em estar aqui convosco, em vosso meio! O Papa vos ama! O Papa vos saúda afetuosamente! Reza por vós!

E suplica ao Senhor as mais preciosas bênçãos para os Movimentos, as Associações e as novas realidades eclesiais, expressão viva da perene juventude da Igreja!

Que sejais muito abençoados! Aqui vai minha saudação muito afetuosa a vós, famílias aqui congregadas e que representais todas as caríssimas famílias cristãs presentes no mundo inteiro.

Alegro-me de modo especialíssimo convosco e vos envio o meu abraço de paz.

Inauguração da Conferência Geral do CELAM

Por fim, ao inaugurar a V Conferência Geral do CELAM, o Santo Padre desvendou o vasto panorama da realidade latino-americana, com seus problemas e esperanças, e ao mesmo tempo apontou sabiamente a solução:

A Fé em Deus animou a vida e a cultura destes povos durante mais de cinco séculos. […] Na atualidade, essa mesma Fé enfrenta graves desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e a identidade católica de seus povos.

A este respeito a V Conferência Geral vai refletir sobre esta situação para ajudar os fiéis cristãos a viver sua Fé com alegria e coerência.

Também a tomar consciência de serem discípulos e missionários de Cristo, enviados por Ele ao mundo para anunciar e dar testemunho de nossa fé e amor. […]

É necessário educar o povo na leitura e meditação da Palavra de Deus: para que ela se torne seu alimento, para que, por experiência própria, vejam que as palavras de Jesus são espírito e vida (cf. Jo 6, 63).

Caso contrário, como poderão anunciar uma mensagem cujo conteúdo e espírito não conhecem a fundo?

Devemos fundamentar nosso compromisso missionário e toda a nossa vida na rocha da Palavra de Deus. Para isso, animo os Pastores a se empenharem em dá-la a conhecer.

Pujante demonstração de Fé e amor

Nas palavras de despedida, o Papa uma vez mais externou seus sentimentos de sincero afeto pelo povo brasileiro:

Na minha memória ficarão para sempre gravadas as manifestações de entusiasmo e de profunda piedade deste povo generoso da Terra da Santa Cruz que […] soube dar uma pujante demonstração de Fé em Cristo e de amor pelo Sucessor de Pedro. […]

Tende a certeza de que levo a todos no meu coração, donde brota a Bênção que vos concedo.

A porta do avião se fechou, mas não a da eternidade. O relacionamento direto de todos os brasileiros com Bento XVI durante sua abençoada estadia nestas terras abre-nos as portas para um convívio eterno e feliz em torno da visão beatífica.