Um dos momentos mais belos e simbólicos do Sábado Santo dá-se enquanto, na escuridão e no silêncio, os fiéis aguardam o início da celebração. As luzes que costumam iluminar o templo parecem ter sucumbido, vencidas por densas sombras.
Uma única claridade permanece invicta: as brasas do fogo santo. Em breve, junto a este começará a cerimônia e nele se acenderá o Círio Pascal, que transmitirá o lumen Christi para a igreja inteira.
Se belo é o simbolismo desse fogo que vence as trevas, quanto mais o é o de outro “fogo” que ele representa!
Lemos nos Santos Evangelhos que, estando Jesus no alto da Cruz, desde a hora sexta até a nona toda a terra cobre-se de trevas (cf. Mt 27, 45).
Trata-se de trevas físicas, não há dúvida, mas muito mais ainda de trevas espirituais, pois a luz da fé desvanece nos corações dos discípulos e das Santas Mulheres.
Entretanto, conforme pondera Dr. Plinio,
há uma lâmpada que não se apaga, nem bruxuleia, e que arde só ela plenamente, nesta escuridão universal. É Nossa Senhora, em cuja alma a fé brilha tão intensamente como sempre.
Ela crê. Crê inteiramente, sem reservas nem restrições. Tudo parece ter fracassado. Mas Ela sabe que nada fracassou.
Em paz, aguarda Ela a Ressurreição. Nossa Senhora resumiu e compendiou em Si a Santa Igreja nesses dias de tão extensa deserção”.1
Como era, pois, a fé de Maria? Podemos afirmar, com São Luís Grignion de Montfort, que foi maior do que “a fé de todos os patriarcas, profetas, Apóstolos e de todos os Santos”.2 Portanto, trata-se da maior fé que houve na História. Como explicar isso?
A fé é uma virtude sobrenatural infusa, pela qual assentimos firmemente às verdades reveladas, apoiados na autoridade ou testemunho de Deus.
Ora, Cristo Nosso Senhor, sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e estando a sua Alma na visão beatífica, mesmo na sua natureza humana já via essas verdades reveladas na própria divina essência e, por isso, não teve nem poderia ter fé.
É nesse sentido que a Santíssima Virgem constitui o mais alto e sublime modelo de fé que já existiu.3
A fé de Maria foi submetida a uma tríplice prova: a do invisível, a do incompreensível e a das aparências contrárias. E Ela as superou de maneira verdadeiramente heroica, pois
viu seu Filho no estábulo de Belém e acreditou que era o Criador do mundo. Viu-O fugir de Herodes e não deixou de crer que era o Rei dos reis.
Viu-O nascer no tempo e acreditou que era eterno. […] Viu-O, finalmente, maltratado e crucificado, morrer sobre o mais ignominioso patíbulo e creu sempre em sua divindade.4
Efetivamente, nunca houve nem haverá na terra uma fé como a de Maria!