Rafael Arnáiz Baron era rico, de nobre família, inteligente, elegante, simpático e alegre. Tinha alma de artista e dotes de poeta, aprimorados por uma esmerada educação.
Cursava em Madri a Escola Superior de Arquitetura, apreciava os magníficos concertos do Palácio da Música e frequentava os bons restaurantes madrilenhos. Diante de si, abria-se a perspectiva de uma carreira brilhante.
Aos 22 anos, ele ouviu o convite de Jesus no interior de sua alma: “Renuncia a tudo isso, vem e segue-Me”.
Bem ao contrário do “moço rico” do Evangelho, atendeu com prontidão e generosidade a esse chamado.
Em sua curta vida, elevou-se a um alto grau de santidade e deixou aos católicos uma importante mensagem: “Deus não exige de nós mais do que simplicidade por fora e amor por dentro”.
A revista Arautos do Evangelho entrevistou Dom Rafael Palmero Ramos, Bispo de Palência (Espanha), em cuja diocese se encontra o mosteiro de San Isidoro de Dueñas.
Prelado de grande zelo apostólico e vasta cultura, suas respostas nos explicam os movimentos de alma e a mensagem desse admirável jovem trapista.
Arautos do Evangelho: O que o levou a escrever alguns livros sobre o Beato Rafael?
Dom Rafael Palmero Ramos: A convicção profunda de que o Irmão Rafael Arnáiz Baron é uma autêntica testemunha de Cristo.
Testemunha forte desta hora. Foi jovem artista, estudante e soldado, monge da Trapa, contemplativo, trabalhador, enfermo, irresistivelmente fiel ao chamado interior.
Seu seguimento radical de Jesus de Nazaré tem valor para os jovens de hoje e para nosso mundo desencantado das teorias materialistas, imanentistas, aduladoras, e necessitado, quiçá mais do que nunca, de pôr em prática o lema “Deus só”.
AE: Por que ele deixou tudo para fazer-se trapista?
DRPR: Porque se cruzou com Cristo em sua vida, descobriu-o dentro de si e chegou a sentir que Ele movia seu coração. E essa convicção, essa fé o envolveu por completo, como no caso de Paulo de Tarso. Rafael, depois de crer em Jesus, alcançou a intimidade com Ele, em uma experiência pessoal, sempre imitável.
Rafael Arnáiz Baron foi o “jovem rico” do Evangelho, que respondeu sem condição alguma ao convite do Mestre: “Se queres ser perfeito […] segue-Me”.
O amor a Cristo e o desejo de encontrá-lo em todo momento, para viver com Ele radicalmente, eis o segredo de sua santa vida. “Só Deus, só Deus, só Deus!” – foi o pulsar de seu coração e a razão de ser de sua vida consagrada.
AE: Que há nele que possa atrair os jovens de hoje?
DRPR: Mais do que palavras, os jovens de hoje, como os de ontem, querem testemunhos de vida. Quem convence e arrasta? O Irmão Rafael.
Isto vale para todos, homens e mulheres, que, cansados de tanto ruído ensurdecedor e tanto materialismo barato, sentem o chamado interior convidando-os à busca e ao encontro com Deus.
AE: Qual virtude o senhor ressaltaria no Beato Rafael?
DRPR: Sua virtude mais característica foi a simplicidade. Sua vida, toda simplicidade, foi alimentada por um coração transbordante de amor a Deus e entregue aos irmãos.
Tinha ele razão quando escreveu:
Deus não exige de nós mais do que simplicidade por fora e amor por dentro. Na realidade, como são fáceis e simples os caminhos de Deus quando se caminha por eles com espírito de confiança e com o coração livre e posto n’Ele!
Esta frase retrata o que Rafael foi e viveu. É um compêndio de sua vida e, ao mesmo tempo, síntese de sua espiritualidade.
Neste marco de simplicidade e de amor a Deus decorreu, dia a dia, a curta vida do Irmão Rafael. Não realizou proezas dignas de menção, mas sonhou com a santidade e a alcançou em poucos anos.
A seu respeito disse o Pe. Antonio Royo Marin: “Estamos firmemente convencidos de que Frei Rafael foi teórica e praticamente um dos maiores místicos do século XX”.
Foi grande por ser simples.