A confiança se obtém pela oração
Retomamos hoje o nosso itinerário, com o Salmo 26, que a Liturgia distribui em dois trechos diferentes. […] A primeira parte do Salmo está marcada por uma grande serenidade, fundada na confiança em Deus no dia tenebroso do assalto dos maus.
A vida do fiel muitas vezes é submetida a tensões e contestações, por vezes também a uma recusa e até à perseguição.
O comportamento do homem justo incomoda, porque ressoa como uma admoestação em relação aos prepotentes e pervertidos.
Reconhecem isto sem meios termos os ímpios descritos no Livro da Sabedoria: o justo “tornou-se uma viva censura para os nossos pensamentos; só o fato de o vermos nos incomoda, pois a sua vida não é semelhante à dos outros e os seus caminhos são muito diferentes” (2, 14-15).
O fiel tem consciência de que a coerência cria isolamento e até provoca desprezo e hostilidade numa sociedade que muitas vezes escolhe como estandarte a vantagem pessoal, o sucesso exterior, a riqueza, o prazer desenfreado.
Contudo, ele não está só, e o seu coração conserva uma paz interior surpreendente, porque “o Senhor é minha luz e salvação” (Sl 26, 1).
Parece que quase ouvimos a voz de São Paulo proclamando: “Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?” (Rm 8, 31). Mas a tranquilidade interior, a fortaleza de ânimo e a paz são um dom que se obtém refugiando-se no templo, isto é, recorrendo à oração pessoal e comunitária. […]
Excerto de Audiência 21/4/04.
Oração do inocente perseguido
Proclamamos agora a segunda parte deste cântico de confiança que se eleva ao Senhor no dia tenebroso do ataque do mal. São os versículos 7-14 do Salmo 26.
Eles começam com um brado dirigido ao Senhor: “Tem compaixão de mim e responde-me” (v. 7), porque expressam uma busca intensa do Senhor, com o doloroso receio de ser abandonado por ele (cf. v. 8-9).
Por fim, apresentam aos nossos olhos um horizonte dramático, onde os próprios afetos familiares vêm a faltar (cf. v. 10) enquanto nele se movem “inimigos, adversários e falsas testemunhas” (v. 11-12).
Mas também agora, como na primeira parte do Salmo, o elemento decisivo é a confiança que o orante tem no Senhor, o qual salva na prova e dá apoio durante a tempestade.
A este propósito, é bonito o apelo que, no final, o Salmista dirige a si próprio: “Confia no Senhor! Sê forte e corajoso e confia no Senhor!”
Também noutros Salmos se fazia sentir a certeza de que do Senhor se obtém fortaleza e esperança: “O Senhor protege os seus fiéis, mas castiga com rigor os orgulhosos. Tende coragem e fortalecei o vosso coração todos vós, que esperais no Senhor” (Sl 30, 24-25).
Contentamo-nos agora com realçar três elementos simbólicos, de grande intensidade espiritual.
O primeiro deles é o negativo do pesadelo dos inimigos (cf. v. 12). Eles são caracterizados como uma fera que cobiça a sua presa e depois, de maneira mais direta, como falsas testemunhas que parecem soprar pelo nariz a violência, precisamente como as feras diante das suas vítimas.
Por conseguinte, no mundo existe um mal agressivo, que encontra em Satanás o guia e o inspirador, como recorda São Pedro: “O vosso adversário, o demônio, como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar” (1 Pd 5, 8).
A segunda imagem ilustra de modo claro a confiança serena e fiel, apesar do abandono até por parte dos pais: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor há de acolher-me” (Sl 26, 10).
Também na solidão e na perda dos afetos mais queridos, o orante nunca está totalmente sozinho, porque Deus misericordioso se inclina sobre ele.
O pensamento corre para um célebre trecho do profeta Isaías, que confere a Deus sentimentos de compaixão e de ternura mais do que maternas: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebê, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, eu nunca te esqueceria” (49, 15).
Recordemos a todas as pessoas idosas, doentes, esquecidas por todos, às quais ninguém jamais fará uma carícia, estas palavras do Salmista e do profeta, para que sintam a mão paterna e materna do Senhor acariciar silenciosamente e com amor os seus rostos sofredores e talvez assinalados pelas lágrimas. […]