Com as palavras do salmista, exclamemos: “Como é belo e doce os irmãos se encontrarem juntos!” Como é belo para todos nós estarmos juntos nesta circunstância extraordinária: a vossa ordenação diaconal, caríssimos irmãos Arautos do Evangelho.
Com este sagrado rito da ordenação, vós sereis consagrados, a título de nova responsabilidade e com o primeiro grau do Sacramento da Ordem, para zelar pela glória do Senhor e vos comprometer pela causa do Reino.
O sentido do serviço está estreitamente ligado com o da consagração e da missão.
Caríssimos, com o “SIM” que pronunciareis daqui a pouco, vos comprometereis a serdes servos como Cristo foi servo e a entregar vossas vidas pelo serviço dos irmãos e das irmãs que Deus porá no vosso caminho.
Sede servidores com disponibilidade total!
O serviço (diakonèin, justamente) caracteriza vosso ideal, vossas ocupações a ponto de poderdes dizer com Jesus: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10, 45).
Ele, a Cabeça, é o servidor do Pai na fidelidade e na dedicação, oferecendo-se por sua reconciliação e sua salvação. Com a ordenação, vós entrais neste mistério pessoal de Cristo, para vivê-lo pessoalmente.
Sede servidores precisamente porque ministros do Servo que é Cristo! Pro Christi legatione fungimur (II Cor 5, 20), para ser uma presença de serviço em nome da Pessoa de Jesus. Assim, eis-vos aqui, criaturas real e totalmente entregues pelo bem dos outros.
Não teria sentido falar de um ministério que vos fechasse num relacionamento com Deus e com Cristo, porque esse ministério, que vos liga a Cristo, existe propriamente em função de vossa doação até à morte, como Cristo.
Ele veio para servir com uma disponibilidade total.
Homens de dedicação sem limite
Olhemos para Ele no Evangelho: um homem devorado pelos homens, agredido, empurrado, cercado, esmagado; um homem realmente sacrificado pelos homens e para os homens.
Cristo não voltou atrás, não somente deixou fazer, mas provocou que fosse feito assim com Ele.
Não se limitou a suportar essa humanidade, mas a procurou, colocou-se dentro dela, tomou a iniciativa de entrar nela.
E é na doação total de si mesmo que Ele revelou o Pai e O anunciou aos povos; fez-se Pão eucarístico; submeteu-se ao juízo humano, foi condenado, crucificado, morreu e ressuscitou, porque Ele é a vida que não acaba.
Vós sois chamados a continuar no mundo esse comportamento de Cristo, o qual não colocou limites à dedicação, dando a sua própria vida, até a consumação: Consummatum est (Jo 19, 30).
Esta é a medida de vosso serviço, diácono entre e para os irmãos! Deveis sentir-vos criaturas tão submissas a todos que reconheçais em todos o vosso Senhor, isto é, Aquele que tem direito de fazer de vós realmente o que Ele quer nas vias do bem.
Esta é a atitude inspiradora de todo o vosso comportamento de diáconos.
Não podeis dar a vosso diaconato e a vosso serviço somente um pouco de vosso tempo, um pouco de vossa energia, um pouco de vossos interesses, um pouco de vossa vida.
Deveis dar vossa realidade pessoal na sua totalidade, a serviço do próximo. Não tem sentido um diaconato que não se entrega por inteiro!
Servos capazes de arrostar o risco da impopularidade
Os diáconos são pessoas que, respondendo ao chamado do Senhor, comprometem-se a serem servos do povo, não seus aduladores. Servos desejosos do crescimento do povo, não de seus crimes.
Servos que caminham com o povo, mas com a tarefa de acelerar a velocidade dos seus passos e de imprimir à sua itinerância o ritmo de uma aceleração carregada de esperanças.
Servos que vivem até o fim a encarnação do povo, mas capazes de transcendência para poder mostrar-lhe, como Moisés, os luzimentos do Sinai ou os desejados horizontes da Terra Prometida.
Servos que amam o passado e o presente do seu povo, mas capazes de se expor ao risco da impopularidade para não renunciar à missão crucificante da profecia.
Servos atentos para não exasperar o povo com manobras demagógicas, mas suficientemente corajosos para desmascarar os seus tiranos, para enfrentar seus opressores, para contestar os novos Faraós.
Queira Deus, meus caros diáconos, servos dedicados do povo, que ao término de vossas vidas possais repetir as palavras que, num cântico, Bonhoeffer colocou na boca de Moisés:
Vós que castigais os pecados e perdoais comprazido, Deus, esse povo, eu o amei. Ter carregado a sua vergonha e os seus vícios, e ter obtido a sua salvação, isso me basta. Conduzi-me, levai-me! O meu bastão se dobra. Preparai-me o túmulo, ó Deus fiel.
Neste momento, creio que as vossas certezas devem ser indestrutíveis e não deveis ter outra expectativa que a de tornar autêntica a vossa vida concreta.
Sede entregues sem medida, disponíveis sem medida; estais aqui, caríssimos candidatos ao diaconato, para vos dardes como Cristo que tradidit semetipsum até o fim.
Caríssimos, quis meditar em voz alta sobre o espírito que deve animar o vosso ministério de diáconos, e não sobre as atividades que esse ministério é chamado a desenvolver na Igreja e com a Igreja, no mundo de hoje.
Quando se aceita o Espírito, deixa-se conduzir por Ele, realizando as maravilhas do amor de Deus.
Também Maria se comprometeu a fazer o papel de serva
Termino com uma oração:
Em nossa humanidade enferma de egoísmo, na qual cada um tenta impor-se aos outros e, até, quer ser reverenciado e servido pelos outros, estes nossos irmãos, ó Maria, luminosa ministra do Senhor e serva do mundo, ouviram a voz de Deus que, como diáconos a caminho do sacerdócio, os convida a seguir e a continuar Cristo.
Obediente ao projeto divino da salvação, Ele veio não para ser servido, mas para servir; deu-se aos outros até o fim; anunciou e testemunhou o amor que salva; fez o bem a todos, sem distinção ou acepção de pessoas; até lavou os pés dos Apóstolos.
Também Vós, ó Maria, Mãe dulcíssima, vivestes a espiritualidade do lar como Ele próprio, fazendo do serviço a Deus e aos homens o objetivo fundamental da vossa vida.
Entrastes no mistério de Deus como Mãe do Servo de Javé e, aceitando todos, homens e mulheres, como filhos, comprometestes-Vos a fazer o papel de serva, com a ternura, a disponibilidade e a generosidade de Mãe universal.
Hoje Vos pedimos por estes nossos irmãos que, em alguns instantes, receberão o ministério diaconal.
Ajudai-os a serem dóceis às expectativas de Deus e dos irmãos, disponíveis à ação do Espírito neles, para que possam continuar na e pela humanidade o serviço de amor a Cristo, que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.