Mestre Schmerzen ergueu o martelo lentamente, olhou o pequenino prego que segurava na mão esquerda, corrigiu a pontaria e desferiu um rápido golpe… acertando em cheio o dedo polegar.
— Aiii!
Deu um salto e, nesse movimento brusco, derrubou uma lata de tinta para couros colocada ao seu lado. O líquido negro respingou nos móveis e em vários sapatos, esparramou-se pelo chão e começou a entrar pelas frestas do assoalho.
Poucas tintas são tão penetrantes como a usada para tingir couros, e ele sabia bem disso. Sua oficina de mestre sapateiro estava um desastre completo.
Cinco pares de sapatos perdidos! E a lata que caíra era justamente a da tinta mais cara! Oh! Olhou desanimado para as botas e sapatos empilhados na prateleira, seu avental sujo, suas mãos pretas de tinta.
Vendo pela janela o filho mais velho que chegava de Würsburg a cavalo, com mais um pacote de couro, pensou mal-humorado: “Infeliz! Está condenado a ser outro sapateiro encardido como eu, e passar a vida entre couros malcheirosos e tintas pegajosas”.
Na hora do almoço, mestre Schmerzen permaneceu calado. Prestava atenção na esposa, movendo-se de um lado para outro na cozinha. Ela era encantadora quando moça. Mas agora…
Pela tarde, esqueceu aberta a portinhola da oficina, e os filhos pequenos ali entraram para brincar, sujaram-se e puseram tudo em desordem.
Enquanto, furioso, ele os empurrava para fora, lamentava-se: “É… não tenho dinheiro nem para montar uma oficina separada da residência”.
Mestre Schmerzen estava ranzinza e continuava a lamuriar-se. A vida lhe parecia insuportável! No fim da tarde, resolveu ir desabafar seus azares com o primo, dono da pequena cervejaria estabelecida a poucos metros da sapataria.
Gorducho e bonachão, enquanto servia um caneco de cerveja bávara para outro freguês, o primo o aconselhou:
— Ora… Pare de reclamar, Schimmy! Você está vendo tudo “cinzento” hoje! Nesta vida, cada um precisa carregar a sua cruz. Carregue a sua com ânimo!…
O argumento do primo não o convenceu. Ele pôs o chapéu na cabeça, despediu-se e saiu, dizendo para si mesmo: “Cruz… Cruz… Sim, cada um tem a sua, mas a minha é tão pesada!”
Resmungando saiu da cervejaria, resmungando entrou em casa, e à noite, já deitado, murmurava: “É verdade, cada um deve carregar sua cruz, mas Deus bem podia arranjar-me uma mais leve!”
Por fim, mestre Schmerzen adormeceu. No meio da noite, sentiu que o cobertor não protegia seus ombros, e, com os olhos ainda fechados, começou a tatear para encontrá-lo. Nada.
Abriu os olhos, levantou-se e percebeu que não estava mais em sua casa. Aos poucos, a escuridão foi desaparecendo, e então ele viu à sua frente um jovem alto, vestido de branco e com grandes asas nas costas. Seria mesmo um Anjo?
— Sim, sou o seu Anjo da Guarda. Deus ouviu as suas reclamações. Dê uma olhada ao redor.
O mestre sapateiro, então, observou que se encontrava no centro de um imenso vale cercado de altas montanhas. Ao longe, avistou algo parecido com um bosque, mas constituído de árvores e arbustos singulares: de tronco muito reto e aparentemente sem folhas.
— Não são árvores, Schmerzen. Vamos vê-las mais de perto.
Puseram-se a caminhar, e quando se aproximaram, notou que se tratava de… cruzes. Milhares delas. Talvez milhões. De todos os tamanhos e formatos. Claras, escuras. Umas de madeira, outras de metal, umas lisas, outras ásperas.
Schmerzen ficou impressionado com a variedade: não havia sequer duas iguais, todas eram diferentes umas das outras. E cada uma trazia escrito o nome da pessoa a quem pertencia.
— Neste vale, Deus guarda a medida dos sofrimentos reservados por Ele para cada homem, cada mulher. É o Vale das Cruzes. E como você se queixou tanto do peso da sua, o Altíssimo lhe permite escolher outra. Vá… procure à vontade e pegue a que quiser.
Schmerzen ficou inseguro por um instante, mas, lembrando-se de todas as amarguras de sua vida, embrenhou-se por aquela floresta de cruzes. Evitou as grandes e vasculhou a região onde se encontravam as menores. Pegou uma: pareceu-lhe muito áspera.
Experimentou outra: tinha as arestas muito agudas. Após algum tempo de procura, encontrou uma bem pequena, mas, sendo de chumbo, pesava mais que as outras.
Por fim, quase tropeçou numa minúscula. Ergueu-a: não tinha mais de um palmo de altura, era de madeira muito leve, bem lisa e sem pontas. Oh, sem dúvida, a cruz ideal! Agarrando-a com firmeza, como se alguém pudesse querer apossar-se dela, disse ao Anjo:
— Quero esta aqui!
— É mesmo esta? Pois bem, meu amigo… leia o que está escrito nela.
O sapateiro colocou-a bem diante dos olhos e, com espanto, leu o nome: Mestre Schmerzen! Essa cruz, a mais leve, a mais lisa, a menos incômoda de todas, era a sua, da qual ele tanto se queixava!
Um grito de vergonha e espanto saltou de sua garganta e… o despertou. Cheio de suor e com o coração disparado, mestre Schmerzen estava ainda deitado em sua cama.
Levantou-se, foi correndo abrir a janela e exclamou, ao ver o resplandecente sol de primavera:
— Que dia bonito!
Mas então se deu conta de que era um dia exatamente como o anterior: o mesmo sol, a mesma primavera; em frente da janela, o filho mais velho, assobiando contente, descarregava mais alguns pacotes de couro.
“Na verdade – pensou –, meu filho é dos poucos rapazes da cidade que têm emprego garantido”.
O ruído das crianças brincando perto da oficina trouxe-lhe à mente outro raciocínio otimista: “Afinal, é uma grande vantagem trabalhar ao lado de casa, pois assim posso estar o dia inteiro junto à minha família”.
Da cozinha, subia o cheiro delicioso do café da manhã… E a voz da esposa:
— Schmerzen, meu bem… Venha logo, seus ovos mexidos vão esfriar!
“É… ela já não é mais a jovem de outrora – ponderou o mestre sapateiro –, mas é tão bondosa… E como cozinha bem!” Saindo da janela, percebeu que a pequena cruz estava sobre o criado-mudo. O Anjo ali a deixara, como lembrança…
Schmerzen tomou-a em suas mãos, olhando-a por alguns instantes, pensativo. Osculou-a, colocou-a reverentemente sobre a mesinha e, assobiando alegre, desceu para o café, e para continuar a vida.