Os milagres que Cristo fez eram suficientes para manifestar-lhe a divindade, num tríplice ponto de vista: Primeiro, pela natureza das próprias obras, que ultrapassam todo o poder da virtude criada, e por isso não podiam fazer-se senão por virtude divina.
Por isso dizia o cego depois de haver recuperado a vista: “Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascimento. Se este não fosse de Deus, não poderia fazer nada” (Jo 9, 32-33).
Em segundo lugar, pelo modo de fazer os milagres, isto é, porque os fazia como com próprio poder, e não orando, como outros.
Por isso diz o Evangelho que “saía d’Ele uma virtude que curava a todos” (Lc 6, 19); pelo que se torna claro, como diz São Cirilo, que “não recebia poder alheio senão que, sendo Deus por natureza, manifestava o seu próprio poder sobre os enfermos e por isso fazia incontáveis milagres”.
Por esta razão, sobre aquilo: “Expulsava com uma palavra os espíritos e a todos que se sentiam mal os curava” (Mt. 8, 16), diz Crisóstomo: “Observa quão grande é a multidão de homens curados que os evangelistas indicam, sem contar cada cura em separado, senão abraçando em uma só palavra um indizível oceano de milagres”.
E por isso manifestava que tinha virtude igual à de Deus Pai, segundo aquilo: “O que o Pai faz, o faz igualmente o Filho” (Jo 5, 19); e no mesmo lugar: “como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho aos que quer lhes dá a vida” (v. 21).
Terceiro, pela doutrina mesma em virtude da qual se afirmava Deus, a qual, se não fosse verdadeira, não seria confirmada por milagres feitos pelo seu poder divino.
Por isto se diz no Evangelho: “Que nova doutrina é esta? Porque Ele põe preceito com império até aos espíritos imundos e estes Lhe obedecem!” (Mc 1, 27).