João é um jovem extremamente alegre e jovial. Nos fins de semana, vemo-lo liderar um grupo de moços que, após o jantar, percorrem as ruas da cidade, cantando e fazendo uma algazarra pouco condizente com a tranquilidade da noite e a pacatez do burgo.

Alguns vizinhos sentem-se incomodados, protestam até junto a seus pais. Mas a juventude necessita expandir sua alegria, e o faz às vezes de forma demasiado ruidosa e até um pouco extravagante.

O pai de João, um rico comerciante de tecidos, compreende esse aspecto da situação e é complacente com as estripulias de seu filho. Afinal, sente, no fundo, um discreto orgulho pelo fato de ser ele o líder da juventude do lugar.

E por isso, apesar de ser ávido por dinheiro, tolera as despesas, um tanto largas, que o filho faz com seus amigos e seu apreço por roupas vistosas e luxuosas.

Ademais, o rapaz é o seu braço direito na empresa, e acaba sendo mais vantajoso fechar os olhos para uns gastos que, no montante geral dos negócios, não passam de uma ínfima parte… 

João nasceu quando seu pai estava de viagem pela França, para estabelecer relações com seus parceiros comerciais. Inteiramente absorvidos pela atividade empresarial, pai e mãe não deram grande importância à educação humana e cultural do filho.

E assim que a idade o permitiu, João deixou os estudos e passou a auxiliar o pai, na empresa. 

Súbita mudança do destino

O jovem João tinha tudo para ser feliz. Uma família muito unida, amigos para todas as horas, negócios prósperos e muito prestígio na cidade.

Tudo lhe sorria, até que um dia a asa negra da tragédia raspou nele… Viu-se acometido por uma grave doença que o prostrou na cama por longo tempo.

Longe das agitadas exterioridades nas quais sempre vivera, ele passou por um extenso período de isolamento, o qual, no entanto, foi aproveitado pela Providência como ocasião de profundas reflexões.

Quando se levantou, para iniciar uma prolongada convalescença, já não era a mesma pessoa.

Tudo quanto fazia antes a alegria de sua vida deixou de ter para ele sabor: nem os negócios do pai, nem os amigos, nem a boa mesa que tanto apreciava, nem o luxo no vestir, nada disso o atraía.

Dir-se-ia que a adversidade havia mudado o seu modo de ser. Porém, em sua alma nascia o desejo intenso e jubiloso de imitar Nosso Senhor Jesus Cristo, sobretudo na pobreza e no amor aos menos favorecidos.

Decidiu então abandonar tudo – empresa, família, amigos e prazeres – para seguir a Cristo e se dedicar aos pobres, sendo pobre como eles.

Conversão e incompreensões

Inicialmente, não encontrou quem o acompanhasse e teve de suportar muitas incompreensões, tanto de sua família como de seus coetâneos. Mas aos poucos o exemplo da autenticidade de sua vida de desprendimento foi arrastando alguns companheiros.

E, embora leigos, começaram a dedicar-se à evangelização da sociedade. Seu modo de vestir, extremamente pobre – uma simples túnica, sem nenhum adorno ou insígnia –, causava estranheza, e por isso eram rejeitados e ridicularizados em muitas cidades.

Em certo momento, João decidiu ir a Roma, acompanhado desse pequeno grupo inicial de discípulos, para expor ao Papa suas intenções e obter a aprovação pontifícia.

E graças à influência de um Cardeal amigo, João conseguiu ser recebido em audiência pelo Santo Padre, o qual acabou reconhecendo sua obra. 

Fundação de uma obra providencial

Nascia assim um novo movimento eclesial que logo se espalharia por toda a Igreja.

Inicialmente formado só por leigos, logo se lhe juntaram numerosos clérigos, constituindo-se em pouco tempo um dos mais numerosos e atuantes movimentos da Igreja, ao qual não faltou um amplo ramo de terciários que, vivendo no mundo, procuravam seguir a espiritualidade e o carisma do Fundador.

Esta história do nascimento de um novo movimento eclesial é inteiramente verídica, em seus traços gerais.

Se ela se tivesse passado em nossa época, em qualquer país do Ocidente, ninguém estranharia, mas na realidade os fatos acima narrados são bem mais antigos: tudo isto aconteceu há cerca de 800 anos, na Itália.

João nada mais é do que o nome de Batismo daquele que passou para a História como o “Poverello de Assis”, São Francisco.

François é o nome dado por seu pai ao voltar da viagem à França, talvez como homenagem à sua esposa, que era desse país.

Secularização da sociedade e perda de fiéis

Em sua época, a Igreja – depois de um período de apogeu e crescente influência na sociedade – enfrentava um grave desafio, pois a Europa tivera um rápido progresso material e cultural, acompanhado de um apreço excessivo às riquezas e ao fausto, trazendo um consequente esfriamento da vida religiosa.

Sem falar das doutrinas heterodoxas que se espalhavam pelo Velho Continente e abalavam a fé dos fiéis.

O Espírito Santo suscitou então um novo movimento eclesial para levantar uma barreira ao desejo desenfreado de luxo e de gozo da vida. Secularização da sociedade, diríamos atualmente.

Pois, para atender as necessidades de cada época, Deus nunca deixa de suscitar novos carismas como solução providencial.

Os discípulos de Francisco de Assis percorriam as cidades evangelizando o povo, usando a única mídia disponível na época: a pregação em praça pública.

E conseguiram reavivar o fervor religioso dos fiéis. A tal ponto que rapidamente se constituiu um movimento laical, a Ordem Terceira Franciscana, formada por leigos que na sociedade temporal faziam brilhar o carisma de São Francisco.

O monaquismo do Oriente: um dos mais antigos movimentos laicais

Os franciscanos não foram os únicos originados de um movimento leigo. Não poucas ordens religiosas nasceram, no passado, de forma análoga a tantos movimentos eclesiais do presente.

Quase se poderia dizer que esses movimentos são uma novidade já antiga, na Igreja, como tão poeticamente está escrito no Eclesiastes:

O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol.

Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: “Veja: isto é novo”, ela já existia nos tempos passados (Ecl 1, 9-10).

O monaquismo dos primeiros séculos, no Oriente, por exemplo, nasceu também por iniciativa de leigos. O primeiro monge do deserto de que se tem notícia é São Paulo eremita, no Egito.

Pertencente a uma família abastada, durante a perseguição de Décio fugiu para o deserto com medo de ser denunciado como cristão e de não ter forças para suportar os terríveis sofrimentos a que seria submetido pelos juízes do Império Romano.

E para escapar do martírio do sangue, se entregou ao da solidão, no deserto.

Muitos lhe seguiram o exemplo, não só para fugir às cruéis perseguições dos Décios, como também às não menos perigosas seduções do mundo pagão. E assim os desertos do Egito se povoaram de monges solitários.

São Pacômio foi o primeiro a reunir um grupo de monges sob uma regra, para se auxiliarem mutuamente, evitando os inconvenientes da vida solitária.

Chegou a agrupar cerca de sete mil discípulos, havendo mosteiros com mais de mil monges.

Só quando o movimento eclesial do monaquismo passou para o Ocidente é que São Martinho de Tours introduziu a inovação de incluir clérigos entre os monges, para que não lhes faltassem os sacramentos.

A reação do Espírito Santo aos males da sociedade moderna

O nascimento do monaquismo não deixa de ter certa semelhança com o surgimento dos Movimentos Eclesiais de nossos dias.

Não se trata já de fugir às perseguições dos romanos, mas de fazer frente à secularização da sociedade moderna, cujos efeitos não são menos nefastos que os das perseguições cruentas.

Quantos cristãos, iludidos pelo fascínio do consumismo, deixam esfriar a Fé e são tentados pelo ateísmo prático? Continuam a acreditar em Deus, mas vivem de costas para Ele.

Para reagir a essa crescente secularização, leigos em número cada vez maior se associam com o objetivo de viver mais intensamente a mensagem do Evangelho e, ao mesmo tempo, influenciar o mundo moderno com seu exemplo de vida e sua atuação apostólica.

O Concílio Vaticano II discerniu esse sopro do Espírito e abriu amplamente as portas da Igreja a essas novas realidades, as quais têm conhecido um desenvolvimento notável.

Em 1998, por ocasião do Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais, o Papa João Paulo II fez referência a cerca de 50 instituições ali representadas.

Hoje, existem 122 movimentos de leigos, com aprovação pontifícia, registrados no Repertório de Associações Internacionais de Fiéis, do Pontifício Conselho para os Leigos.

João Paulo II: “uma resposta providencial”

Os últimos Papas incentivaram o desenvolvimento dos movimentos eclesiais, especialmente o Servo de Deus João Paulo II, que ressaltou a sua providencialidade:

No nosso mundo, com frequência dominado por uma cultura secularizada que fomenta e difunde modelos de vida sem Deus, a fé de muitos é posta à dura prova e, não raro, é sufocada e extinta.

Percebe-se, então, com urgência a necessidade de um anúncio forte e de uma sólida e aprofundada formação cristã.

Como é grande, hoje, a necessidade de personalidades cristãs amadurecidas, conscientes da própria identidade batismal, da própria vocação e missão na Igreja e no mundo!

E eis, então, os Movimentos e as novas Comunidades Eclesiais: eles são a resposta, suscitada pelo Espírito Santo, a este dramático desafio do final de milênio. Vós sois esta resposta providencial.1 

Bento XVI: “Sinal luminoso da beleza de Cristo e da Igreja”

A exemplo de seu antecessor, também o Papa Bento XVI, com eloquentes e estimulantes palavras, chamou os leigos a lançarem-se no apostolado, em sua mensagem ao II Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades:

Os Movimentos Eclesiais e as novas Comunidades são hoje sinal luminoso da beleza de Cristo e da Igreja, sua esposa.

Vós pertenceis à estrutura viva da Igreja, ela agradece-vos pelo vosso compromisso missionário, pela ação formativa que desempenhais de modo crescente sobre as famílias cristãs, para a promoção das vocações ao sacerdócio ministerial e à vida consagrada que desenvolveis no vosso âmbito.

Agradece-vos também pela disponibilidade que demonstrais ao receber as indicações operativas não só do Sucessor de Pedro, mas também dos Bispos das diversas Igrejas locais, que são, juntamente com o Papa, guardas da verdade e da caridade na unidade.

Confio na vossa obediência imediata. (…) Ampare-vos a participação na oração da Igreja, cuja liturgia é a mais alta expressão da beleza da glória de Deus, e constitui de certa forma um aproximar-se do Céu à terra.

Confio-vos à intercessão d’Aquela que invocamos como a “Tota pulchra”, a “Toda bela”, um ideal de beleza que os artistas sempre procuraram reproduzir nas suas obras, a “Mulher vestida de sol” (Ap 12, 1) na qual a beleza humana se encontra com a beleza de Deus.

A resposta de Deus para nossos dias

Em cada época histórica a Igreja soube responder às necessidades espirituais de seus contemporâneos.

Pela penitência, São Francisco e os franciscanos combateram a vida de pecado que afetava a sociedade de seu tempo; pela pregação, São Domingos e os seus venceram os movimentos heréticos; Santo Inácio e os jesuítas frearam o avanço do protestantismo.

Hoje o desafio da Igreja é combater a indiferença religiosa. 

Tal preocupação esteve patente na V Conferência Geral do CELAM, para a qual foram convocados representantes de cinco movimentos eclesiais.

Foram eles: Dom Filippo Santoro, Comunhão e Libertação; Pe. José María Folqué, Neocatecumenal; Luis Jensen y Sra., Família de Shöenstat; Luis Fernando Figari, Sodalício de Vida Cristã; Moysés Azevedo, Shalom. 

Ali foi lançado um ousado plano pastoral: “A Grande Missão Continental”, convocando todos os batizados a serem missionários, indo à busca dos católicos afastados e dos que pouco conhecem Jesus Cristo. 

Não será essa uma resposta suscitada pelo Espírito Santo para confrontar os desafios de nossos dias? 

A resposta, sem dúvida, é afirmativa. E para isso é preciso que todas as forças da Igreja se mobilizem, que os fiéis e movimentos leigos se unam ainda mais aos seus pastores e não meçam esforços para responder ao apelo de Cristo.

Desta forma, a sociedade moderna latino-americana retomará com força as vias da transcendência e da esperança no Reino de Deus.

 


1 Discurso aos participantes do Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais, 30/05/1998.