A simples contemplação da obra da criação proporciona ao homem um prodigioso caleidoscópio das perfeições divinas. A título exemplificativo, consideremos o movimento migratório dos gansos-canadenses.
Quem não se terá maravilhado com a sabedoria neles manifestada? Cruzam milhares de quilômetros voando sempre unidos, numa impecável formação em “V”, de modo a todos se beneficiarem do deslocamento de ar provocado por aquele que lidera a expedição!
A este, porém, cabe não só o grande esforço de enfrentar a massa de ar abrindo caminho aos que lhe seguem, como também orientar e “confirmar” os seus “irmãos” na consecução do objetivo comum.
Deus, que assim ordenou a existência dessas singelas aves, não terá realizado algo ainda mais belo na obra-prima do universo, a Santa Igreja Católica? É o que passaremos a considerar, através dos olhos do Doutor Angélico.1
É notório que o Divino Redentor estruturou a Igreja de forma hierárquica: uns são pastores, outros ovelhas; há aqueles cuja missão consiste em ensinar, guiar e santificar, e outros chamados a serem ensinados, guiados e santificados.
Contudo, em face da sempre crescente multiplicação dos pastores dispersos pelas vastidões da Terra, a coesão do Corpo Místico de Cristo se veria seriamente abalada sem uma fundamental unidade, isto é, a da Fé.
Como, então, conservar essa imprescindível unidade em meio à diversidade dos povos e culturas, aos entrechoques de civilizações, às oscilações dos ânimos, sem excluir ainda deste panorama o fator deletério dos séculos, que se sucedem inexoravelmente até a consumação da História?
Só uma inteligência divina seria capaz de resolver tal problema, insolúvel para a pobre mente humana…
Essa unidade da Fé, explica São Tomás, exige que a Igreja tenha um chefe único e universal. Por isso, Cristo dirá três vezes a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 15-17).
E ainda: “Eu roguei por ti, para que a tua Fé não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 32). Jesus indicava assim ao primeiro Papa sua missão, garantindo-lhe uma assistência especial da Providência.
A dignidade e a unicidade da missão de Pedro são, pois, incomensuráveis!
Para enfatizá-las, o Aquinate recorre a um argumento de natureza escatológica: a Igreja Militante é um prolongamento da Igreja Triunfante, a qual constitui um só rebanho no Céu, sob a liderança de um só Chefe, que é o próprio Deus.
De igual modo a Igreja Militante, como prolongamento e reflexo da gloriosa, necessita ela também estar sob a liderança de um só pastor, o Sumo Pontífice. Desse modo, Pedro assume na terra o posto de lugar-tenente do Padre Eterno no Céu!
A tudo o que acabamos de expor, poder-se-ia objetar que essa estrutura hierárquica, ancorada na pessoa de Pedro, se restringiria exclusivamente ao núcleo inicial dos discípulos de Cristo.
Ora, responde São Tomás, o Salvador instituiu a sua Igreja para que atravessasse os séculos, como o meio pelo qual Ele cumprirá a promessa: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20).
Torna-se, pois, necessário que a potestade por Ele conferida aos Apóstolos, particularmente a Pedro, seja transferida aos seus sucessores até a consumação dos tempos.