Anne empurrava a irmã com força, e o balanço, solidamente preso por um par de cordas a um robusto galho, ia e vinha, descrevendo arcos cada vez mais largos e elevando a pequena Jeanette tão alto que ela quase tocava as ramagens da árvore florida. Que bela tarde de primavera!
— Ela está voando! Ela está voando! – gritava Anne.
E todos os outros pequenos, felizes com aquelas alegrias infantis, riam até não poder mais. E como riam! Na verdade, Jeanette não sabia do que mais gostava: se do delicioso embalo do brinquedo, ou se das risadas da irmã e dos amigos.
Ao fim da tarde, elegantemente vestidos, todos se reuniram no salão da grande casa. Magníficos trajes, aqueles dos últimos anos do século XIX!
Era um acontecimento especial, uma festa familiar, pois Maurice, o caçula querido por todos, completava seu primeiro ano de vida.
Para alegria das crianças, foi servido um grande bolo, e então Pierre, o papai, lembrou-se de pedir a Jeanette que cantasse. Ela deu um sorrisinho, afetando timidez, mas logo começou uma bela canção.
Todos ficaram em silêncio, ouvindo, pois a voz da menina era mesmo encantadora. E ela sabia disso.
Ao fim da melodia, muitas palmas, e seus pais riam contentes, encantados, acompanhados por todas as crianças. Até o bebê, feliz ria também. Abraçando a pequena, papai declarou: “Que voz maravilhosa! Jeanette, minha filha, você ainda vai cantar em Paris!”
Ninguém haveria de supor que a previsão de papai iria realmente se cumprir. Mas… de maneira muito diferente do que ele podia imaginar.
Passaram-se os anos, e o vento da boa fortuna levou ao auge aquele período dourado da Belle Époque. Quantos novos inventos!
Aeroplanos, fonógrafos e telefones faziam o encanto daquela geração. As duas irmãs cresceram e cada qual seguiu sua própria vida.
No entanto, elas, outrora tão unidas, trilharam caminhos bem diferentes. A cristalina voz de Jeanette a levou, de fato, ao brilhante mundo das artes.
Anne, pelo contrário, sentindo em seu coração a vocação religiosa, tomou o austero hábito das Clarissas.
Desde então Jeanette passou a sentir um certo desprezo pela irmã, pois julgava que estava desperdiçando sua vida num lugar triste e sem diversões. Ela sim, era esperta! Avançava rapidamente no rumo da fama, da riqueza e do prazer!
E ano após ano, isso se confirmava. Cantara nos melhores palcos de Blois, depois alcançara Orléans, onde brilhara por dois anos. E agora... Paris! Sim, seu nome tornava-se cada vez mais famoso, e quando ela se apresentava, um público entusiasta lotava os teatros.
Numa tarde, ao entrar no quarto do hotel onde estava hospedada durante sua turnê, repleto de flores enviadas pelos fãs, encontrou sua amiga e também cantora, Amélie, remexendo na enorme pilha de cartas sobre sua mesa.
— Meu Deus, Jeanette! Quantas cartas de admiradores! Olhe, esta aqui veio de Nantes! Oh… Esta outra é perfumada! Veja, aqui tem um convite para a festa no palácio da Condessa Du Mont Marsan, que chique, Jeanette! Hei, Jeanette, você não está prestando atenção no que eu falo!
— Não amole, Amélie! Estas cartas todas estão cheias de lixo. Esses pretensos admiradores não passam de galanteadores indecentes.
E essa condessa não me convida por amizade, ela quer que eu vá só para emprestar um brilho à sua festa. Para ela, eu sou como um lustre aceso no salão, entende? Um lustre, nada mais...
— Ora, Jeanette...
Nesse momento, Monsieur Antoine, seu empresário, entrou eufórico e tropeçando nas flores:
— Jeanette, Jeanette, nós conseguimos!
As duas moças olhavam-no espantadas, e ele continuou:
— A Ópera de Paris, Jeanette! Você vai se apresentar na Ópera, agora no próximo verão! Já está tudo acertado, esse contrato vai valer milhões! É agora, esse é o topo da sua carreira! Estamos ricos!
Ele e Amélie abraçaram-na, dando ruidosas gargalhadas. Mas, no seu íntimo, Jeanette não sentia verdadeira alegria. Aquelas risadas não eram sinceras.
Ela sabia que tanto Monsieur Antoine como Amélie a consideravam um grande investimento, e só estariam a seu lado enquanto sua carreira continuasse ascendente.
Quando eles saíram de seu quarto, ela se pôs à janela, profundamente pensativa. De repente, sentiu uma intensa saudade de seus pais, a quem não via há mais de dois anos. E sua irmã, há mais tempo ainda.
A brilhante carreira artística tornou-a rica e famosa, mas roubou-lhe a família, como também as verdadeiras e antigas amigas. Oh! que saudades das risadas da infância, enquanto brincavam sob as árvores!
Os falsos e frívolos risos das pessoas de sociedade, nas luxuosas festas que ela agora frequentava, não podiam se comparar com aqueles antigos e sinceros risos do seu tempo de menina.
Grossas lágrimas caíram sobre o beiral da janela, enquanto a célebre cantora lamentava o vácuo de sua vida de brilho e de fama.
Nisso, um ruído lhe chegou aos ouvidos. Eram vozes e risos femininos. Olhou para baixo e percebeu num jardim, a certa distância, um grupo de freiras que conversavam e riam em seu horário de recreio.
Lembrou-se de que os fundos do hotel davam para o jardim de um convento de religiosas. Prestou atenção e, maravilhada, reconheceu a voz de sua própria irmã. Sim, sem dúvida alguma, era mesmo Anne!
Sabia que ela havia sido transferida algumas vezes de um mosteiro para outro, mas, em seu desinteresse por tudo quanto lhe dizia respeito, nem tinha ideia de que agora ela estava em Paris.
Fascinada, seus olhos estavam presos ao rosto da irmã, à distância. Ela parecia tão jovem, tão feliz! E ao ouvir as cristalinas risadas das Clarissas, sentiu uma pontada em seu coração.
Eram as mesmas risadas francas, inocentes e sinceras, que ela não ouvia desde a infância. Que risos tão alegres!
Tudo lhe ficou claro, num instante: Anne havia escolhido o melhor caminho. Ela tinha boas companheiras que realmente a queriam e respeitavam, visava um fim sério em sua vida, ao passo que ela, Jeanette, tinha apenas o vazio dentro e em torno de si.
No entanto, a jovem cantora sempre fora pessoa de decisões firmes. E naquele momento ela tomou a mais importante resolução de sua vida.
Algumas semanas depois, em meio ao escândalo da sociedade parisiense, a famosa cantora Jeanette cancelava suas apresentações na Ópera.
Numa singela cerimônia, com seus velhos pais e sua irmã presentes e transbordantes de felicidade, Jeanette foi recebida como noviça no mosteiro das Clarissas. Ao se abraçarem, antes dela entrar na clausura, riram docemente, mais uma vez.
Jeanette havia recuperado a inocência e a alegria perdidas da infância.