Quando pela primeira vez alguém nos propõe de sair em missão, a resposta que nos salta à mente é uma rotunda negativa, apoiada em um pretenso sentimento de incompetência, o qual se traduz numa interrogação: Por que eu? Não sei o que fazer nem o que dizer! Para uma tal missão é necessário estar preparado! E outros mitos semelhantes…
Quase ao mesmo tempo, acorre em nossa defesa, como uma espada a combater todas essas falsas apreensões, outra certeza em forma de sentença: A Deus nunca se diz não!
Precisamente isso passou-se conosco quando os Arautos do Evangelho nos convidaram para participar de uma Missão Mariana em Michoacán (México).
E, como se a resposta anterior não fosse suficiente para nos convencer, os Arautos, com sua tranquilizadora confiança, se encarregaram de desfazer qualquer dificuldade que nossa insegurança pudesse apresentar.
Assim, a balança terminou por se inclinar a favor de nossa participação na missão.
Vencido este obstáculo da inexperiência, pudemos fazer parte de um formidável e singular grupo de missionários composto por cinco experimentados Arautos e vinte e quatro novatos (três casais, quatro meninas e quatorze jovens).
Destes, a única convicção, enquanto missionários, se limitava a portar a camisa com a Cruz de Santiago, vermelha e branca.
Não deixava de nos causar surpresa a tranquilidade dos Arautos na direção de tão caótica tropa. Logo, porém, compreendemos a causa de sua confiança: à frente de todos, encarregada de endireitar qualquer confusão, estava nada mais nada menos que Nossa Senhora de Fátima.
Grande lição de incondicional amor
Chegamos a Tuxpan em 29 de outubro. Aí se incorporou ao grupo o terceiro casal, Frederico e Ana Gabriela, que nos ofereceram hospedagem, junto com o Padre Augustín, que nos apoiou em todos os momentos.
Nosso objetivo consistia em levar a mensagem da Virgem Peregrina aos lugarejos da região.
Foram visitas, procissões, Missas, Rosários e representações feitas pelos jovens.
Assim, fomos percorrendo vários povoados, de maneira que em cinco dias a Mãe de Deus visitou a paróquia de Tuxpan, o hospital, a escola, o asilo de anciãos, além de várias comunidades afastadas: Rincão do Bispo, Confraria do Cruzeiro, Rincão da Coruja, La Soledad, Cerrito Colorado, Santa Ana, Turunde e El Malacate.
Poderíamos encher várias páginas descrevendo cada lugar, a beleza do contorno natural, a enorme pobreza e as carências que vimos, a orfandade espiritual daquela gente, os balões e fogos de artifícios com que recebiam a Virgem, o carinho com que as pessoas nos tratavam, a comida da qual se privavam para nos servir.
Mas também, como se ia juntando grande número de pessoas às procissões com velas, de povoado em povoado e de dia a dia, até terminar em uma incontável e comovida multidão na Missa de despedida, celebrada na esplanada da igreja de Tuxpan.
Impossível, porém, seria descrever com palavras o fervor das pessoas, a mudança de expressão que se notava em seus rostos ao contemplar a imagem da Virgem, o esforço de caminhar enormes distâncias a fim de beijar-lhe as mãos ou os pés virginais.
A esperança e o consolo de recebê-la em seus lares, as lágrimas de amor em seus olhos, o grau de abertura de seus corações ao confiar-nos suas mais íntimas preocupações, ou ainda o entusiasmo com que se alistavam para receber mensalmente em suas casas o Oratório do Imaculado Coração de Maria.
Que grande lição de incondicional amor!
“Os mais evangelizados fomos nós”
Sendo testemunhas disso, nossa pergunta – Por que eu? – ficou resolvida quase desde o princípio, ao compreendermos que não é questão de cérebro, mas de coração.
Afinal, a Santíssima Virgem Maria é quem torna tudo possível. Assim, deixamos de lado a preocupação de estarmos usurpando funções que seriam grandes para qualquer pessoa, e nos conformamos em ser simples mãos e pés.
O cansaço, então, cedeu lugar a um sentimento de alegria contínua, que superava transtornos de saúde, pequenos ferimentos e contratempos, e nos infundia uma energia de causar inveja a qualquer competidor de maratonas.
Assim, sob a direção dos Arautos, da noite para o dia nos transformamos em felizes missionários, e, no final, regressamos com muito mais do que demos.
No aspecto espiritual, os mais evangelizados fomos nós; nossa própria fé, nossa esperança e nosso amor se fortaleceram pelo simples fato de havermos compartilhado com o próximo.
Do ponto de vista moral, incrementou-se nosso espírito solidário; do ponto de vista familiar, criaram-se laços de união mais estreitos.
Sob o aspecto pessoal, demo-nos conta de que o verdadeiramente importante na vida não são as tolices com as quais costumamos nos preocupar; e do ponto de vista social, nós que antes éramos simples conhecidos, acabamos sendo bons amigos.
Que mais se pode pedir? Só uma coisa: que nos tornem a convidar.
Depois desta experiência, só podemos recomendar a todos quantos estejam interessados em encher suas vidas de sentido, que não deixem passar a oportunidade de serem missionários cada vez que esta se lhes apresente.