Convivendo com o senhor, nesta estada na Casa-Mãe dos Arautos do Evangelho, nota-se de sua parte uma particular devoção à Eucaristia. Vemo-lo com frequência diante do Santíssimo Sacramento exposto em nossa capela.
Fui chamado a colaborar com o ministério universal do Papa, na função de oficial da Congregação para o Clero, e este tema está sempre presente nas minhas preocupações diárias.
Se lemos o relato da instituição da Eucaristia, vemos que estão unidos numa estreita correlação alguns elementos que constituem um dos pivôs da Igreja e da vida cristã.
Em primeiro lugar, a Eucaristia, instituída por Cristo para a sua Igreja, que é um sinal de atualização, no tempo, de sua morte redentora, bem como anúncio profético da realização do Reino, na vinda definitiva do Senhor.
Depois, o mandamento que Ele nos deixou, de renovar esse gesto e esse sinal, o qual torna os Apóstolos e seus sucessores capazes de agir in persona Christi Capitis et Pastoris, para reunir a comunidade de fé, e para oferecer, com ela e para ela, o mesmo sacrifício de Cristo, confeccionando a Eucaristia.
Por fim, a santidade, uma obra maravilhosa da graça com a efetiva colaboração do homem, para a qual são chamados todos os discípulos de Cristo. Ela que constitui uma exigência intrínseca para nos aproximar dos dois Sacramentos: Eucaristia e Ordem.
Diz São Paulo que “Cristo é o único mediador entre Deus e os homens”, e, portanto, só Ele é sacerdote… Diante disso, qual é o papel dos sacerdotes na Igreja?
Realmente, como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, Cristo é o único sacerdote da Nova Aliança, ou seja, não há mais uma multiplicidade de sacerdotes, como havia no Antigo Testamento.
Da mesma forma como no Novo Testamento não há mais numerosos sacrifícios, mas um só: o sacrifício redentor de Cristo, realizado uma vez por todas. Mas torna-se presente no sacrifício eucarístico da Igreja.
Pois bem, o mesmo acontece com relação ao único sacerdócio de Cristo: torna-se presente pelo sacerdócio ministerial, sem com isso diminuir a unicidade do sacerdócio de Cristo.
São Tomás de Aquino formula essa verdade com sua famosa clareza e concisão: “Cristo é o único sacerdote, os outros são apenas seus ministros”.
Em várias passagens dos Atos dos Apóstolos se faz referência à imposição das mãos, como forma de conferir o sacerdócio. Mas parece que os Evangelhos não registram o momento exato em que Nosso Senhor instituiu o Sacramento da Ordem. Em que circunstância foi ele criado?
Esse Sacramento nasceu na Última Ceia, junto com a Eucaristia. Não foi por acaso que Nosso Senhor Jesus Cristo, logo após as palavras da Consagração Eucarística, acrescentou: “Fazei isto em memória de Mim”.
Assim, por meio da ordenação presbiteral, o padre está ligado de forma excepcional à Eucaristia. Pode-se dizer que os sacerdotes existem pela Eucaristia e para a Eucaristia.
A relação íntima entre a consagração sacerdotal e a Eucaristia ultrapassa, então, largamente a visualização típica de uma eclesiologia “sociocêntrica” que reduz o padre ao papel de um ativista filantrópico ou de um representante da comunidade.
Qual é, em sua essência, a situação de um homem ordenado, seja ele um simples diácono, um sacerdote ou um Bispo?
Antes de tudo, é um homem batizado que recebeu, em consequência da ordenação sacramental, uma configuração especial que o põe a serviço da santificação da comunidade dos batizados, da qual ele também faz parte.
Com sua conhecida perspicácia, Santo Agostinho assim define essa situação, num de seus sermões: “Para vós eu sou Bispo, junto convosco sou cristão”.
Depois ele diz que essa função “obriga a uma perigosa prestação de contas”, porque – afirma ele – “enquanto cristão, devo cuidar de minha própria vantagem, mas, enquanto Bispo, unicamente da vossa”.
O que ele diz do Bispo se aplica, sem qualquer sombra de dúvida, a todos os padres, de todos os tempos.
O Santo Padre tem insistido na importância da santificação pessoal do sacerdote. Existe alguma relação entre o grau de virtude do ministro sagrado e a eficácia dos Sacramentos que ele confere?
Pela Ordenação, o padre recebe um caráter espiritual indelével, que o acompanhará por toda a eternidade, e o habilita a agir “na Pessoa de Cristo, Cabeça da Igreja”, para o cumprimento da tríplice função de ensinar, santificar e guiar a comunidade cristã.
Essa graça, porém, não elimina a fraqueza humana, a possibilidade de cair em erro, nem, menos ainda, impede de pecar.
Assim, não se pode deixar de reconhecer que, infelizmente, em muitas ações de ministros de Cristo nem sempre se encontra o sinal da fidelidade ao Evangelho, e elas podem prejudicar a fecundidade do apostolado da Igreja.
Contudo, a eficácia dos atos sacramentais é sempre assegurada pelo fato de que ela não depende da santidade pessoal do padre, mas se realiza ex opere operato, quer dizer, ela é obra do próprio Cristo, do qual o padre é representante.
Mas não é menos verdade que, normalmente, Deus prefere manifestar suas grandezas por meio do ministério dos sacerdotes que, dóceis às inspirações e à direção do Espírito Santo, tenham uma santidade de vida pela qual eles podem dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo quem vive em mim”.
A santificação pessoal do sacerdote, então, é uma exigência lógica e intrínseca de seu caráter sacramental e de seu ministério, como é uma consequência necessária de seu Batismo.
É verdade que a exigência de aspirar à santidade deve ser mais intensa no sacerdote?
Sim, exatamente. Num documento recente, o Cardeal Angelo Sodano, quando ainda era Secretário de Estado, faz uma referência a “experiências amargas e decepcionantes” e afirma que cada padre, mais do que qualquer outro cristão, é chamado a ser um “homem de Deus”.
E ele dizia que “o apelo à santidade foi sempre proposto como vocação e objetivo prioritário do sacerdote”. Mostrava também que é indispensável para o sacerdote ter um encontro com Cristo, uma experiência pessoal.
Para isso, ele precisa se deixar levar com Cristo, seguindo um “um caminho de Fé integral, sustentado por um forte engajamento ascético, e num sincero esforço em direção ao Reino”.
Há muitas outras declarações como essa. Lembro-me das palavras de Pio XII no mesmo sentido, durante o Ano Santo de 1950.
Ele disse que, especialmente em vista das necessidades de hoje em dia, era impossível para o ministério sacerdotal alcançar todos os objetivos se os padres não brilhassem no meio do povo “pela eminência de sua santidade”.
É este o desafio de nossa época, para os sacerdotes e para toda a Igreja.
No meio dessas profundas transformações de nosso tempo, após um doloroso período de hesitações e de crise pessoal e institucional, o padre católico está chamado a redescobrir a identidade profunda de sua vocação.
Valendo-me de uma bela expressão do Papa São Pio X, a Igreja não pode deixar de se preocupar em “formar o Cristo naqueles que se destinam a formar o Cristo nos outros”.
É necessário superar a tendência que, hoje em dia, leva muitas vezes as pessoas a ressaltarem aquilo que o padre faz, em vez de aquilo que ele é. O ser do padre precede, justifica e fecunda seu agir.
Pode-se dizer, então, que a recuperação de uma autêntica espiritualidade sacerdotal é, realmente, uma das mais urgentes tarefas da Evangelização.
Sem dúvida. A esse respeito, vale a pena recordar a afirmação ardente e sempre atual de São Gregório Magno, de que
o pastor precisa ser puro de pensamento, modelar na ação, discreto no seu silêncio e útil na sua palavra; deve estar próximo de cada um, por sua contemplação, e, mais do que todos, deve dedicar-se à contemplação.
Conforme ensina São Gregório, as ocupações exteriores não podem levar o sacerdote a descuidar-se de sua vida interior. Mas o cuidado com seu benefício interior não pode levá-lo a negligenciar as necessidades exteriores. É preciso manter o equilíbrio.
Nas múltiplas atividades que a sociedade reclama hoje de qualquer um, portanto também do padre, ele precisa construir para si uma unidade interior, fonte de equilíbrio pessoal e de uma maturidade humana que evita a dispersão e, por conseguinte, o esvaziamento da pessoa.
Essa unidade, que o sacerdote encontra na identificação pessoal com Cristo, é designada pelo Concílio Vaticano II na expressão “caridade pastoral”.
O texto conciliar diz que os padres, levando a vida do Bom Pastor, “encontrarão no exercício da caridade pastoral o elo da perfeição sacerdotal que conduzirá à unidade sua vida e sua ação”.
Depois afirma que essa caridade pastoral decorre, sobretudo, do sacrifício eucarístico, e conclui com estas palavras: “Logo, este é o centro e a raiz de toda a vida do padre”.
É no Sacramento da presença real de Cristo, na Eucaristia, que o sacerdote encontra sua razão de ser e de viver.
Voltando ao Concílio, há um ensinamento não só para os cristãos leigos, mas também para os padres, que é sempre válido e atual: a Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã”.
Ela comunica o amor a Deus e aos homens, é a “alma de todo apostolado”, e se apresenta, portanto, como fonte e cume de toda a evangelização.
Nesse contexto nós compreendemos a insistência do Diretório para o Ministério e a Vida dos Sacerdotes, que foi publicado pela Congregação para o Clero, apresentando a Eucaristia como “coração e centro vital” do ministério sacerdotal.
Esse Diretório recorda que o vínculo profundo entre o padre e a Eucaristia não se reduz à celebração da Missa. Esse vínculo se prolonga e se estende a toda a vida de oração sacerdotal, e portanto, também na adoração frequente ao Santíssimo Sacramento.
Assim, o padre pode aparecer, aos olhos dos fiéis, como modelo da comunidade, por sua devoção eucarística e pela meditação assídua, feita, sempre que possível, diante do Senhor presente no tabernáculo.1
Permita-me uma pergunta sobre um tema mais delicado: como explicar que tantos sacerdotes tenham abandonado, nas últimas décadas, sua sublime missão?
Vou responder recorrendo a uma observação pessoal. No exercício de minhas funções, trabalho há muitos anos no estudo de casos dolorosos de abandono do ministério sacerdotal.
E pude notar que um dos primeiros sintomas da crise desses padres não é, em geral, o problema afetivo, mas o esfriamento e a negligência na vida de oração, bem como o descuido na celebração quotidiana da Missa.
Enfraquecendo-se a certeza da fé, insinuam-se as opiniões contrárias à Fé da Igreja, ou carregadas de ideologias, e acabam por falsear o significado profundo do sacerdócio.
E assim, o padre cai num estado cada vez mais distante do contato vital com o mistério de Cristo, e isso lhe abre um vazio no coração.
Na grande maioria dos casos, é somente nesse ponto que sobrevém uma necessidade afetiva de recorrer a uma ligação humana para preencher esse vazio existencial.
É esta a derradeira etapa de um processo que terminará quase inevitavelmente numa definitiva infidelidade ao dom recebido de Deus.
Os leigos têm meios de colaborar para a santificação do clero?
Tantos comentários se poderiam fazer a esse respeito! Mas vamos simplificar, apresentando o exemplo que nos dá uma grande santa dos tempos modernos, Santa Teresinha do Menino Jesus.
Aos 14 anos, ela participou de uma peregrinação a Roma junto com cerca de 200 peregrinos, dos quais 73 eram sacerdotes.
Segundo me lembro, dizia ela que havia convivido durante um mês com esses padres, os quais ela considerava Santos, e tinha compreendido isto.
Embora a sublime dignidade deles os eleve acima dos Anjos, eles não deixam de ser homens débeis e frágeis, e mostram, por sua conduta, que têm extrema necessidade de orações.
Esse pensamento acompanhou-a ao longo de toda a sua vida de religiosa. A ponto de escrever nos seus Manuscritos Autobiográficos que a santificação dos sacerdotes era “a vocação do Carmelo”, e que assim cada carmelita, por suas orações e sacrifícios, devia ser “apóstolo dos apóstolos, rogando pelos sacerdotes”.
Ela própria declara como se consagrou a conquistar almas sacerdotais para o Senhor, no exame canônico antes da profissão dos votos: “Aqui vim para salvar as almas, sobretudo para rezar pelos sacerdotes”.
Não cessava, em suas cartas, de conclamar sua irmã Celina a unir-se a ela nesta nobre missão. “Salvemos sobretudo as almas dos sacerdotes!” – dizia ela.
E pouco adiante, na mesma carta: “Ai! Quantos sacerdotes maus, quantos que não são bastante santos! Oremos, soframos por eles!”
Formar nas vias da santidade as almas dos sacerdotes, para que estes possam ser em sua vida pessoal o que são em virtude de sua Ordenação presbiteral, eis a preocupação constante de Santa Teresinha.
Daí serem tão numerosas, em seus escritos, expressões como estas: “Ah! Roguemos pelos sacerdotes! […] Nossa missão, como carmelitas, é a de formar obreiros evangélicos”, por meio do amor ardente e da oração.
Aí está, todo fiel, sem exceção alguma, é chamado a imitar Santa Teresinha do Menino Jesus nessa importante obra de apostolado: rogar a Cristo Senhor Nosso que dê à sua Igreja muitos sacerdotes santos.
Quem assim agir, está praticando uma das mais urgentes e importantes ações na linha da Nova Evangelização.