AE: Como o senhor se interessou pela vida de Dom Guízar?

Chamo-me Rafael por causa dele, porque meus pais me encomendaram a ele.

Nasci prematuramente, aos 7 meses, e, como tudo indicava que eu não sobreviveria, eles lhe prometeram pôr-me seu nome, para que eu não morresse. O fato concreto é que estou aqui, sadio, e sou um milagre dele.

Nos tempos da perseguição religiosa, em Veracruz, Dom Guízar hospedava-se na casa de meus avós.  Desde que tenho uso da razão, ouvia histórias sobre a vida dele: como o recebiam, como minha avó lhe fazia a comida e como o abrigavam.

Quando eu era Reitor do Seminário Menor, o Sr. Arcebispo, Dom Sérgio Obeso, chamou-me e me disse sem mais rodeios: “Quero que te encarregues da postulação da causa de Dom Guízar. Quero que vás, quanto antes, para Roma, para trabalhar nisso”.

Comecei a me aproximar desse mar de santidade, e quanto mais nele me adentrava, ao longo desses vinte anos, mais me assombrava pela sua riqueza espiritual. E dou graças a Deus por me ter permitido trabalhar nesta causa.

AE: O que é mais difícil para um postulador?

Na linguagem que nós, postuladores, usamos, a etapa mais difícil é arrancar as duas “assinaturas” de Deus.

Em nosso modo de falar, o milagre é a assinatura de Deus. Ele assina e diz: “Este sim”. E, enquanto não assina, diz: “Cuidado, ainda não. Cuidado, não se adiantem, esperem…”

Uma das assinaturas foi o milagre para a beatificação, em 1995, e a outra a que o levou à canonização. Nos dois casos, trata-se de acontecimentos extraordinários em favor de duas crianças.

AE: Dom Rafael Guízar destacou-se como modelo de Bispo…

Exatamente, por isso será proclamado Patrono dos Bispos Mexicanos, e também poderá ser Patrono da Formação Sacerdotal.

Os Arautos, por exemplo, como religiosos, têm uma espiritualidade que os congrega em torno de seu fundador, têm um patrimônio espiritual, um carisma de fundação.

Nós, diocesanos, não o temos. Desde que um religioso inicia o postulantado, em tudo se procura inculcar-lhe o espírito do fundador, para ele se imbuir do carisma da fundação.

O clero diocesano não tem essa figura de um fundador. Então, atrevo-me a dizer que Dom Guízar pode ser um modelo a seguir na espiritualidade do clero diocesano. Por quê?

Porque trabalhou muito para unir seus sacerdotes sob o espírito da diocese, na comunhão com seu Bispo. Para os sacerdotes diocesanos, esta é a espiritualidade.

AE: Que nos diz a respeito do temperamento de Dom Guízar?

Tinha um temperamento que não chegava a ser irascível, mas era muito impetuoso, sanguíneo. Ele mesmo admitia isso. Contudo, sem dúvida, vencia-se a si mesmo.

Muitas vezes, antes de sair para tratar de qualquer assunto, prostrava-se diante de um crucifixo para orar: “Meu Deus, meu caráter… Meu Deus, meu caráter… Meus Deus, ajuda-me! Ajuda-me a domar essa fera, o meu caráter!” Só depois se dedicava ao seu trabalho. 

AE: Fala-se muito da sagacidade de Dom Guízar. Pode contar-nos algum episódio?

Há um fato real, que lhes conto tão-somente para mostrar a esperteza de um Santo. As tropas policiais estavam perseguindo Dom Guízar, com ordens de o matar.

Certo dia, ele foi convidado a um banquete na casa de uma família abastada, do qual participavam outros convidados seletos. Os anfitriões cederam-lhe a cabeceira da mesa, e sentaram-se a seu lado. 

De repente irrompeu a polícia, acionada por algum delator: “Viemos buscar o Bispo Guízar, disseram-nos que está aqui!” Todo mundo ficou surpreso, porque alguém disse: “Sim, aqui está!”

Dom Guízar – que não estava de batina, mas de traje civil – levantou-se com toda a calma do mundo e interveio:

Um momento! Os senhores se enganam, pois aqui não se encontra o homem a quem procuram. Estes senhores são meus convidados, peçam-lhes que cada qual se identifique. E se algum deles é o Bispo Guízar, levem-no!

Então, pediram a cada um que se identificasse, não porém a ele, porque era o “anfitrião”… 

Todos entenderam a artimanha e ficaram observando o que se passava. Por fim, os soldados pediram desculpas: “Cometemos um grande erro… Desculpem-nos! Efetivamente, não está aqui. Informaram-nos mal”. E foram-se embora.

AE: Poderia ressaltar algum aspecto da alma dele, pouco conhecido?

Era um grande místico, com grande união com Deus… Quase como Santa Teresa, como São Francisco. Na sua vida, não se menciona tanto este aspecto, mas era um verdadeiro místico.

Por exemplo, as cartas pastorais de Dom Guízar sobre a Caridade, a Eucaristia, Maria Santíssima, obediência, união com Deus, são de um alto conteúdo místico.

Há testemunhos – devem ser tomados com reserva, mas sem duvidar – de pessoas que afirmam terem-no visto levitar nesta ou naquela  circunstância.

Em certa ocasião, fez um exorcismo com a Hóstia consagrada na mão – fato inusitado –  e foi a única maneira vitoriosa de expulsar o demônio. 

AE: Como era a oração de São Rafael Guízar?

Era a oração de um homem de Deus!

Certa vez, caiu um aguaceiro fortíssimo, e as mães não deixaram seus filhos sair para o catecismo, para não adoecerem.

Ele então tocava a campainha e dizia: “Venham ver, meninos, como seu Bispo se molha e não lhe acontece nada!” Mas as mães replicavam: “Não vão!”

Conseguiu, por fim, juntar um grupo muito pequeno e levou-o para diante do Sacrário a rezar, pedindo para acabar a chuva e todos poderem ir ao catecismo.

Pegou um garotinho de 5 anos, sentou-o junto ao Sacrário e disse: “Bata à porta de Jesus Sacramentado e peça que cesse a chuva para que os meninos de Espinal venham ao catecismo”. O menino bateu à porta do Sacrário.

Que respondeu Ele? – perguntou o Bispo.

Nada!

Cheio de Fé, Dom Guízar mandou-lhe bater de novo, e o garoto obedeceu, mas com a mesma resposta: “Nada!”

Bata mais uma vez, com mais insistência!

Pela terceira vez, o menino bateu à porta, o Bispo repetiu a pergunta e ouviu a resposta: “Nada!” Mas nesse momento – oh! maravilha! – um raio de sol incidiu precisamente no Sacrário.

A chuva tinha parado! Então disse Dom Guízar: “Como não lhe respondeu? Olhe!…” Começaram, logo depois, a chegar os meninos para o catecismo…