O prazer é apresentado por todo vício como isca que arrasta facilmente as almas sensuais para o anzol da perdição. É sobretudo por meio do prazer impuro que a natureza é arrastada para o mal, sem que se controle.
É o que sucede agora. Com efeito, aqueles que haviam prevalecido sobre as armas inimigas, que haviam demonstrado ser o ferro mais débil que sua própria força, e que com seu poder haviam posto em fuga o exército dos inimigos, estes acabaram feridos pelos dardos femininos através do prazer. E os que haviam sobrepujado os varões se converteram em reféns das mulheres. […]
Que lição tiraremos deste relato? A de que, sabedores de quanta força para o mal possui a enfermidade do prazer, mantenhamos nossa vida o mais afastada possível de tal vizinhança, de forma que essa enfermidade – a qual se assemelha ao fogo que, com sua proximidade, acende a chama perversa – não tenha acesso algum a nós.
Isso é o que ensina Salomão na Sabedoria ao dizer que não se deve pisar a brasa com o pé descalço nem esconder fogo no seio (cf. Pr 6, 27-28), pois está em nosso poder permanecer livres de paixão, contanto que nos mantenhamos longe daquilo que queima. Mas se, ao contrário, chegarmos a tocar esse fogo ardente, penetrará em nosso interior a chama da concupiscência, e então se seguirá nos pés a queimadura e no seio a destruição.
O Senhor no Evangelho, com sua própria voz, para que nos mantivéssemos afastados desse mal, cortou o passo – como à raiz da paixão – à concupiscência que nasce do olhar, quando ensina que quem admite a paixão com a vista abre, contra si mesmo, a porta da enfermidade (cf. Mt 5, 28). As paixões perversas, como a peste, uma vez que tenham dominado os pontos críticos, só cessam com a morte.