Lúcia, a prima e amiga mais querida, a confidente de todas as horas, conservou para sempre uma enternecida lembrança daqueles últimos meses de Jacinta.
Conta ela:
Todo o tempo que me ficava livre da escola e de alguma outra coisa que me mandassem fazer, ia para junto dos meus companheiros.
Um dia, Jacinta me pediu:
— Olhe! Diga a Jesus escondido que eu gosto muito d’Ele, que O amo muito e que Lhe mando muitas saudades.
Outras vezes, quando ia primeiro ao quarto dela, me recomendava:
— Agora, vá ver o Francisco. Eu farei o sacrifício de ficar aqui sozinha.
Mesmo enfraquecida pela doença, Jacinta não diminuiu a prática das mortificações.
Certa manhã, sua mãe levou-lhe uma xícara de leite e disse-lhe que o tomasse.
— Não quero, minha mãe – respondeu, afastando a xícara com a mãozinha.
Dona Olímpia insistiu um pouco e depois retirou-se, dizendo:
— Com essa falta de apetite, não sei como vou conseguir que ela tome alguma coisa!
Lúcia, que presenciara a cena, quando ficou a sós com a prima, perguntou-lhe:
— Como você desobedece, assim, a sua mãe e não oferece este sacrifício a Nosso Senhor?!
Ao ouvir isto, Jacinta deixou cair algumas lágrimas e disse:
— Agora não me lembrei!
E chamou pela mãe, pediu-lhe perdão e lhe disse que tomaria tudo quanto ela quisesse.
A boa senhora trouxe de volta a xícara de leite, que a filha bebeu sem mostrar o mais leve desagrado.
Quando sua mãe saiu, disse a Lúcia:
— Se você soubesse quanto foi difícil tomá-la! Mas não digo nada. Tomo tudo por amor de Nosso Senhor e do Imaculado Coração de Maria, nossa Mãezinha do Céu!
Noutra manhã, Lúcia a encontrou muito desfigurada e perguntou se a prima estava pior.
— Esta noite tive muitas dores – respondeu – e quis oferecer a Nosso Senhor o sacrifício de não me virar na cama. Por isso não dormi nada…
Assim como Francisco, não lhe era mais possível trazer aquela áspera corda à cintura. E, como o irmão, também a entregou a Lúcia, dizendo-lhe:
— Guarde-a, pois tenho medo de que minha mãe a veja. Se eu melhorar, quero-a outra vez.
Pegando a corda, Lúcia notou que ela tinha três nós e estava manchada de sangue…
Com o tempo, aumentavam os incômodos e sofrimentos próprios da broncopneumonia, suportados com admirável heroísmo e incansável desejo de salvar as almas.
Lúcia pergunta-lhe um dia:
— Está melhor?
— Você sabe que não vou melhorar. Tenho tantas dores no peito! Mas não digo nada. Sofro pela conversão dos pecadores.
No entanto, como às vezes acontece nas doenças graves, Jacinta recuperou um pouco a saúde. Pôde ainda se levantar e passava então os dias sentada na cama de Francisco.
Foi nesse período de alguma melhora que a Santíssima Virgem lhes apareceu.
— Nossa Senhora veio nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu – contou ela à prima. E a mim, perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-Lhe que sim. Disse-me que eu ia para um hospital, que lá sofreria muito. Que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus. Perguntei se você ia comigo. Disse que não. Isto é o que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me, e depois vou ficar lá sozinha.
Em seguida, Jacinta acrescentou:
— O hospital deve ser uma casa muito escura, onde não se vê nada, e eu estou ali a sofrer sozinha. Mas não importa: sofro por amor de Nosso Senhor, para reparar o Imaculado Coração de Maria, pela conversão dos pecadores e pelo Santo Padre.
Os dias passaram, e chegou o momento de Francisco ser levado para o Céu.
Com a inocência e a confiança de quem se tornara íntima de Jesus e de sua Mãe Santíssima, Jacinta recomendou ao irmão:
— Dê muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora, e diga-Lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem, para converter os pecadores e reparar o Imaculado Coração de Maria.
Depois da morte de Francisco, embora soubesse que ele havia partido para junto da bondosa Senhora, sofreu muito com sua ausência. Passava longos momentos em silêncio, meditando, e se lhe perguntavam no que pensava, respondia:
— No Francisco. Quem me dera vê-lo!
E seus olhos se enchiam de lágrimas.