Francisco compreendeu bem que essa consolação reparadora deveria ser, antes de tudo, a sua própria vida de virtude e oração.
Com frequência, ao levarem as ovelhas para o campo, afastava-se das companheiras, como que passeando, para na verdade esquivar-se das inocentes brincadeiras e poder rezar, rezar e rezar.
Certa vez, poucos dias depois da primeira aparição de Nossa Senhora, ao chegar à pastagem, subiu a uma rocha bem alta e disse às duas meninas:
— Não venhais para cá. Deixai-me ficar sozinho.
Elas concordaram e se puseram a correr atrás das borboletas, que apanhavam para em seguida fazer o sacrifício de as deixarem fugir.
Francisco ficara para trás, esquecido no alto do monte. Aproximando-se a hora da merenda, deram por sua falta e foram chamá-lo:
— Francisco, não quer vir merendar?
— Não. Comei vós.
— E rezar o terço?
— Rezar, vou depois. Voltai a me chamar.
Quando voltaram, ele pediu que subissem até o lugar onde se encontrava para ali rezarem juntos. Era um espaço tão estreito que mal cabiam de joelhos, o que arrancou de Lúcia a pergunta:
— Mas o que estás fazendo aqui esse tempo todo?!
— Estou pensando em Deus, que está tão triste por causa de tantos pecados! Nós nunca vamos fazer nenhum! Gosto tanto de Deus! Se eu fosse capaz de Lhe dar alegria!
Por certo, Nosso Senhor devia estar alegre com aquela consoladora reparação que o pastorinho tomara tanto a peito oferecer-Lhe. Contentamento que podemos imaginar ainda maior, se considerarmos a fervorosa devoção a Ele e a Nossa Senhora que, a partir das aparições, começou a arder na alma de Francisco.
Quando, na visita de 13 setembro, a Virgem Santíssima lhes comunicou que em outubro o Divino Redentor também Se faria visível, o pequeno não conteve sua felicidade:
— Ai, que bom! Só O vimos duas vezes, e eu gosto tanto d’Ele!
E como lhe parecia longa a espera para rever Jesus!
— Ainda faltam muitos dias para 13 de outubro? – perguntava muitas vezes a Lúcia.
Depois, pensava um pouco, e dizia:
— Mas, olha! Ele ainda estará tão triste?! Tenho tanta pena que esteja assim tão triste! Eu Lhe ofereço todos os sacrifícios que posso arranjar.
E após a última e extraordinária visão na Cova da Iria, comentava:
— Gostei muito de ver Nosso Senhor; mas gostei mais de O ver naquela luz onde nós estávamos também. Daqui a pouco, Nosso Senhor vai me levar para junto d’Ele, e então O verei sempre!
Os contatos com o Anjo de Portugal e, acima de tudo, com a Santíssima Virgem, envolvendo as três crianças numa intensa atmosfera de sobrenatural, produziram efeitos profundos na alma de Francisco. Já não lhe apeteciam as cantorias e outras brincadeiras de antigamente.