Nascido em 8 de Março de 1495, em Montemor-o-Novo, pequena cidade do reino de Portugal, no arcebispado de Évora, São João de Deus descendia de pais modestos.

O genitor, André Civdad, e a genitora, cujo nome não se sabe, educaram-no em todos os exercícios de piedade que sua infância podia assimilar.

Mas eles o perderam, com a idade de oito ou nove anos.

Como exercessem prazenteiramente a hospitalidade, receberam certa vez em casa um viajante, que se dizia sacerdote e se dirigia para o lado de Madri.

Durante a conversa, falou da piedade que reinava na capital da Espanha, bem como das igrejas célebres que lá se viam.

Isso causou tal impressão no pequeno João, que desejou acompanhar o viajante.

Escondeu-se dos pais e pôs-se a caminho de Madri.

Todavia não chegou lá.

O viajante deixou-o na cidade de Oropesa, em Castela.

Pessoas piedosas se compadeceram do menino.

Francisco, chefe dos pastores do conde de Oropesa, tomou-o para seu serviço.

Porém, sua mãe, após várias buscas inúteis, não podendo encontrá-lo, morreu de tristeza, decorridos vinte anos.

O pai, não menos aflito com sua ausência, retirou-se para Lisboa e lá se fez religioso da ordem de São Francisco.

Do tempo no exército de São João de Deus

Entrementes, Deus abençoava os cuidados e o trabalho de seus filhos.

Os bens de seu amo, dos quais fora nomeado ecônomo, aumentaram em suas mãos, os rebanhos se multiplicaram e a prosperidade reinava na casa.

O amo tomou-se de grande afeição por ele e, para retê-lo, ofereceu-lhe a filha em casamento.

São João de Deus, que tinha terna devoção pela Santa Virgem, e rezava todos os dias o Rosário em sua honra, não aceitou essa união e alistou-se numa companhia de soldados a serviço de Carlos V, para marchar contra os franceses em Fontarabie.

O movimento das armas, o mau exemplo dos companheiros fizeram-no esquecer os exercícios de piedade.

Acostumou-se insensivelmente a fazer os demais.

A Providência permitiu que lhe acontecessem acidentes, que o fizeram entrar em si.

Um dia, faltavam víveres.

João, como o mais moço, foi incumbido de ir procurá-los em uma localidade vizinha.

Montava uma jumenta há pouco tomada aos franceses.

Reconhecendo os lugares, o animal correu a toda brida na direção do campo conhecido.

João quis detê-la, mas, empinando-se, atirou-se para o meio de algumas pedras, onde ele ficou sem movimento e sem vida.

Voltando a si, pôs-se de joelhos, implorou o socorro da Santa Virgem para não cair nas mãos dos inimigos, dos quais estava muito próximo.

Com o propósito de servir melhor a Deus, vai mais uma vez à guerra

Voltando ao campo dos espanhóis, deplorou seus demandos e prometeu a Deus ser mais fiel no servi-Lo.

Deste mal, caiu em outro.

Foi-lhe confiada pelo capitão a guarda de espólios feitos aos inimigos.

Todavia, ladrões os raptaram.

O capitão o acusou de infidelidade, maltratou-o e quis entregá-lo à justiça.

Várias pessoas se interessaram por ele e obtiveram-lhe indulto, com a condição de abandonar o serviço das armas.

Retornou São João de Deus a Oropesa, procurou o antigo amo, que o recebeu com muita ternura, tornando a confiar-lhe a guarda dos bens.

Desincumbiu-se dessa missão com mais exatidão ainda, de tal sorte que o amo pediu-lhe novamente que se tornasse seu genro.

João se recusou.

E para se ver livre desses assediamentos, engajou-se novamente no exército.

Era na guerra de Carlos V contra os turcos.

João a encarava como uma expedição santa, na qual podia sofrer alguma coisa por Jesus Cristo.

Evitou todos os demandos em que caíra anteriormente, e, bem longe de interromper os exercícios de piedade, aumentou-os.

Terminada a guerra, os soldados foram dispensados.

Ele voltou a Portugal e quis ir ver os pais, em Monte Maior.

Lá soube que já se encontravam mortos, tanto um como outro, de tristeza por haverem-no perdido.

(Livro Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, v. IV.)