A filosofia cristã diante da ciência
Discussões acirradas entre a ciência e a fé, debates intermináveis entre a razão iluminista e a crença cristã, eis o que foi a História depois da queda medieval do pensamento teológico.
Hoje, na comemoração da vida de São Justino, mártir e filósofo, vamos medir até onde vai a lógica humana contra a Revelação Divina.
São Justino, um caçador da verdade
Justino era um daqueles homens sedentos de respostas: a fase quando perguntava os porquês da criação deve ter sido especialmente complicada para seus pais.
Com um intelecto mais apurado, o pequeno Justino compunha, em sua mente, o que teceria em páginas no seu futuro amadurecimento.
Quem nos descreve isso é ele mesmo, numa de suas obras: Diálogo com o judeu Trífon. Este personagem, um tanto misterioso e enigmático, foi o responsável, segundo o filósofo, a lhe direcionar para o caminho da verdade.
Justino nasceu por volta do ano 100, em Siquém, na Samaria; foi educado no pensamento judaico, e confrontou fortemente a crença pagã com relação ao politeísmo, pois não via ali sinal de lógica nenhum.
Como um Deus pode ser onipotente, se há outro que o limita? E se um é mais fraco que o outro, como pode ser Ele também Deus, se é menor?
Para São Justino a razão pagã não fazia sentido, e na crença judaica faltava algo que era a ligação com o divino.
A distância entre o criador e a criatura o incomodava, a tal ponto que saiu, fisicamente, em busca da verdade. Foi aos desertos e riachos, procurando a verdade pelo pensamento.
Seu encontro com Trífon, que não sabemos ser real ou um personagem que inventou para involucrar suas considerações, é a chave para uma nova vida: no pensamento cristão está a dose perfeita da lógica humana e da iniciativa divina.
Nosso pensamento humano não tem condições de alcançar a Deus, mas nós podemos O conhecer porque Ele Se revela: em cada coisa criada, sobretudo na alma humana, há como que uma “semente de Cristo” – esta é uma expressão dele – que, observada, nos conta sobre Nosso Senhor.
Um exemplo tão simples é contado pelo próprio Jesus, quando Se compara a uma galinha, que reúne com tanto amor os pintainhos sob suas asas, ao observar Jerusalém e derramar lágrimas de tristeza por sua má conduta.
Este homem insaciável, São Justino, não contente de chegar a um alto conhecimento, quer transmiti-lo a outros: monta uma escola e começa a registrar e ensinar o pensamento cristão.
Perseguido pela sua fidelidade à fé, é caluniado para o imperador Marcos Aurélio, conhecido como o Imperador Filósofo, que o mandou matar.
A data da morte é em 165, segundo as atas que contam a decapitação de São Justino.
Razão e fé: aliadas ou inimigas?
Contada a história de tão grande Santo, a resposta para a emblemática divisão, fé e razão, fica evidente.
O Criador das duas é apenas um, que as harmoniza segundo a nossa capacidade.
A Revelação não vai contra a lógica humana, apenas a ultrapassa, fazendo com que existam os mistérios da religião. Nada de impossível para uma criatura, como somos nós, humanos, tão limitados.
A pretensão de conhecer todos os segredos do universo com uma mente tão pequena como a nossa é fruto apenas de orgulho e arrogância. Isto, porém, não deve nos desestimular na procura de mais conhecimento e das leis que regem o nosso mundo físico e material.
E nisto entra a grande sacada para as discussões de fé contra razão: elas não são inimigas, mas sim aliadas.
Uma só asa não faz voar o pássaro: ele compensa seu voo com um par. A fé e a razão são as duas asas que Deus nos deu para que cheguemos ao máximo conhecimento.
São Justino foi um Santo que entendeu isso e pôs em prática esta concepção para ver se passava à prova. Aplicou no pensamento cristão a Lógica grega, a Matemática egípcia, a Astronomia fenícia, todo o legado de pensamento que possuía, e – vejam só – surpreendeu-se, cedeu perante a Religião que pregava este pensamento.
Para ele e todos os cristãos conscientes, nada é mais razoável que a lógica da fé.
Permita-se também ser elevado pela plataforma de pensamento cristão, que é o catecismo. Pergunte às estrelas, às leis da física e da energia se Deus existe: as “sementes” de Cristo estarão lá, eu lhe asseguro.
Que São Justino, de certo um patrono dos filósofos e “caçadores” da verdade, nos auxilie em nossa peregrinação mortal rumo ao conhecimento e à felicidade.