Acostumaram-se, por exemplo, a oferecer a Deus a mortificação de passar dias seguidos sem beber água, até sob o calor sufocante do verão.
Certo dia, voltando da Cova da Iria, ao passarem junto de uma lagoa, disse Jacinta a Lúcia:
— Olhe! Tenho tanta sede e dói-me tanto a cabeça! Vou beber um pouquinho desta água.
— Desta não. Minha mãe não quer que bebamos daqui, porque faz mal. Vamos ali pedir um pouquinho à tia Maria dos Anjos.
— Não! Água boa, não quero! Queria beber desta aqui, porque, em vez de oferecer a Nosso Senhor a sede, ofereço-Lhe o sacrifício de beber desta água suja.
Noutra ocasião eles tocavam as ovelhas, quando os olhos de Lúcia caíram sobre um pedaço de corda à beira do caminho. Brincando, enrolou-o num braço, e logo notou que a corda, bastante áspera, a machucava muito. Disse então aos primos: “Olhe! Isto faz doer! Podemos atá-la à cintura e oferecer a Deus este sacrifício”.
A ideia foi logo aceita e dividiram a corda entre si.
Seja por causa de sua grossura e aspereza, seja porque às vezes ficasse demasiado apertada, ela os fazia sofrer horrivelmente.
Com frequência, Jacinta deixava cair algumas lágrimas, pelo forte incômodo que lhe causava. E quando a prima lhe dizia para tirá-la, respondia: “Não! Quero oferecer este sacrifício a Nosso Senhor, em reparação e pela conversão dos pecadores”.
Noutra oportunidade, brincavam de apanhar nas paredes umas ervas que dão estalidos, quando apertadas nas mãos. Jacinta, ao pegá-las, colheu inadvertidamente umas urtigas, com as quais se picou.
Ao sentir a dor, apertou-as mais nas mãos, e disse aos companheiros: “Olhem! Olhem outra coisa com a qual podemos nos mortificar!”
A partir de então, tomaram o hábito de, vez por outra, dar alguns golpes nas pernas com as urtigas, para oferecerem a Deus mais um sacrifício.
Afervorados assim nas preces e mortificações, passavam o tempo à espera dos próximos encontros com a bondosa Senhora. E Ela veio, pela quinta vez, em 13 de setembro.
Naquela manhã, ao chegarem à Cova da Iria, os pastorinhos se espantaram ao verem a multidão de quase vinte mil pessoas que ali se juntara, aguardando a descida da Mãe de Deus.
Os videntes estavam recitando o Terço com o povo, quando, por volta do meio-dia, perceberam o reflexo da luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a azinheira. Com bondade maternal, Maria lhes disse: “Continuai a rezar o Terço para alcançardes o fim da guerra. Em outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo”.
Sabendo quanto custavam aos três meninos as mortificações que faziam, acrescentou: “Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda; trazei-a só durante o dia”.
Em seguida, começou a elevar-Se, até desaparecer como de costume.
Apesar de breve, a aparição da Santíssima Virgem deixou os pastorinhos imensamente felizes, consolados e fortalecidos em sua fé.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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