“Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto” – dissera Maria aos seus pequenos confidentes, quando eles se mostraram dispostos a oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores.
E os sofrimentos logo tiveram início.
Entre seus próprios familiares e vizinhos, foram muitas as incompreensões, desconfianças e zombarias.
E as três crianças tiveram de suportar também a cruel perseguição do administrador (com poderes mais ou menos de prefeito e delegado) de Vila Nova de Ourém, que a todo custo lhes queria arrancar o famoso Segredo.
Na manhã de 13 de agosto, dia marcado para a quarta aparição de Nossa Senhora, esse homem, inimigo da Religião Católica, veio ao encontro dos pastorinhos, propondo gentilmente levá-los à Cova da Iria na sua charrete.
Não havendo como recusar, entraram no veículo, que pouco depois tomava direção contrária à da Cova da Iria. Só então lhes foi revelado que, na verdade, dirigiam-se para a Vila Nova de Ourém, onde o administrador os meteu na cadeia, junto com criminosos.
Esse homem sem coração usou de todos os recursos para obter uma confissão, ameaçando-os até de fritá-los vivos no azeite fervente.
Foi inútil. A graça de Deus confortava os pequenos, e a fidelidade e determinação deles faziam lembrar o heroísmo dos primeiros mártires da Igreja.
Algumas cenas desse cruel episódio são realmente comovedoras, além de demonstrarem a profunda compenetração com que Jacinta e Francisco corresponderam aos apelos de Nossa Senhora.
O que mais custava a Jacinta era o abandono dos pais. Com as lágrimas a lhe banharem a face, ela disse a Lúcia:
— Nem os seus pais nem os meus vieram nos ver! Não se importam mais conosco!
— Não chore – disse-lhe Francisco – Se não voltarmos a ver a mãe, paciência! Oferecemos pela conversão dos pecadores. O pior é se Nossa Senhora não voltar mais! Isso é o que mais me custa! Mas também o ofereço pelos pecadores.
E, erguendo os olhos e as mãos ao céu, fez o oferecimento:
— Ó meu Jesus! É por vosso amor e pela conversão dos pecadores.
Jacinta acrescentou:
— É também pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.
Ainda a Ir. Lúcia recordará anos mais tarde:
Quando, depois de nos terem separado, voltaram a juntar-nos numa sala da cadeia, dizendo que dentro em pouco nos vinham buscar para nos fritar a Jacinta afastou-se para junto de uma janela, que dava para a feira do gado.
Julguei, a princípio, que estaria se distraindo com a vista, mas não tardei a reconhecer que chorava. Fui buscá-la para junto de mim, e perguntei-lhe por que chorava:
— Porque vamos morrer sem tornar a ver nem os nossos pais nem as nossas mães. Eu queria pelo menos ver a minha mãe!
— Então você não quer oferecer este sacrifício pela conversão dos pecadores?
— Quero, quero!
Com as lágrimas lhe descendo pelas faces, as mãos e os olhos levantados ao Céu, Jacinta renovou com grande devoção o oferecimento que anteriormente fizera.
Como a situação se prolongava, os pastorinhos resolveram rezar o seu Terço. Jacinta tirou a medalha que trazia ao pescoço e, voltando-se para um dos presos com os quais estavam encarcerados, pediu-lhe que a pendurasse na parede.
Puseram-se de joelhos diante dela e começaram a rezar, sendo aos poucos acompanhados pelos outros ocupantes da cela.
Assim se passaram dois dias, quando, para vencer a resistência das crianças, o administrador (ou um de seus subordinados) lançou-lhes a ameaça de torturá-los no caldeirão de azeite. Jacinta foi a primeira a ser ameaçada:
— Diga o Segredo, se não quiser ser queimada! – gritou-lhe o homem.
— Não posso!
— Não pode?! Vou fazer com que possa. Saia daí!
Sem hesitar, a menina caminhou para o que imaginava ser sua morte, sem mesmo despedir-se do irmão e da prima.
Enquanto Jacinta era levada para os fundos da prisão, Francisco voltou-se para Lúcia e lhe disse, com enorme paz e alegria:
— Se nos matarem, daqui a pouco estaremos no Céu! Mas que bom! Não me importo nada.
E após um momento de silêncio, acrescentou:
— Deus queira que a Jacinta não tenha medo. Vou rezar uma Ave-Maria por ela!
Pouco depois chegou a vez dele. O carcereiro voltou a aparecer, dizendo:
— Aquela já está morta! Agora me revele o Segredo.
— Não posso dizê-lo a ninguém! – respondeu o pequeno.
— Não pode? Veremos!
E, agarrando o pastorinho pelo braço, arrastou-o para fora da cela.
Lúcia ficou sozinha, aflita, à espera de ouvir os gritos dos primos que enfrentavam corajosamente o martírio. Nada escutou, porém.
Passados alguns instantes, vieram buscá-la. Disseram-lhe que seus primos já estavam queimados, e que ela teria a mesma sorte se não revelasse o Segredo. Manifestando a mesma coragem de seus companheiros, não cedeu às ameaças e caminhou sem medo para a morte.
Entretanto, chegando ao local onde deveria estar a caldeira de azeite fervente, encontrou Jacinta e Francisco, pálidos, porém sãos e salvos. Tudo não passara de uma diabólica armadilha do administrador, para assustá-los e fazê-los falar.
Por fim, esse péssimo homem teve de se dar por vencido, e dali a pouco mandava os pastorinhos de volta a casa.
O heroísmo que demonstraram, dispostos a sacrificar a própria vida para não contarem o Segredo confiado pela Santíssima Virgem, era mais uma prova da autenticidade de tudo quanto acontecera na Cova da Iria.
E, lá do alto, a bondosa Senhora ainda mais os abençoava e protegia, acompanhando com seu olhar doce e materno aqueles que, por amor a Ela, aguentavam tantas perseguições.
A Virgem Santíssima não demorou em consolar pessoalmente os seus queridos pastorinhos. Como estes não haviam podido comparecer à Cova da Iria no dia 13 de agosto, como Ela pedira, apareceu-lhes pela quarta vez no dia 19, na propriedade de um padrinho de Lúcia, chamada Valinhos.
Como sempre, Nossa Senhora os tratou com imensa bondade, insistindo em que continuassem a rezar o Terço todos os dias e a oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores.
Após o breve diálogo, Maria retirou-Se em direção ao nascente, deixando as três crianças cheias de uma alegria inigualável!
Francisco, transbordante de contentamento, procurava uma explicação razoável para o que ocorrera e comentava com Lúcia e Jacinta:
— Com certeza, Ela não nos apareceu no dia 13 para não ir à casa do senhor administrador, talvez por ele ser tão mau…