Quem não se enternece ao ver um bebezinho cheio de vida que acaba de nascer? Quantas promessas! Ainda é apenas uma semente que deverá germinar e dar seus frutos. Que tipo de semente será? Ninguém o sabe, somente o tempo testemunhará.

Como será o final da trajetória de cada pessoa?

Essas dúvidas do início da vida não se passam na hora da morte.

Quando se completa o final da trajetória de uma pessoa, tudo já está visto e analisado: as decisões que ela tomou, o modo como se portou diante das dificuldades, o caráter que formou em torno de si. Não há mais máscaras, a pessoa é contemplada por inteiro.

A morte que tanto assusta o ser humano, que muitas vezes a prorroga até o último extremo, torna-se inevitável. Segundo o curso normal dos acontecimentos, todos passaremos por ela.

Talvez o que mais espante o homem não seja a própria morte, mas o que está por detrás dela.

Haverá uma vida eterna? Terei que justificar minhas atitudes? Serei premiado ou castigado?

A longevidade biológica não nos isentará da morte

Mesmo aqueles que se dizem incrédulos passarão pela morte, e é diante de sua grandeza que muitos homens adquirem forças para agir bem, pois “todas as tentativas da técnica, por muito úteis que sejam, não conseguem acalmar a ansiedade do homem: o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo de uma vida ulterior, invencivelmente radicado no seu coração”.[1]

Há algo admirável neste trânsito da vida para a morte que fez com que diversos povos da antiguidade respeitassem e até cultuassem os membros de sua família já falecidos. Enterrados ou cremados, os mortos eram postos em lugares próximos à sua gente a fim de receber um culto.

Costume de sepultar os falecidos

A cultura cristã também adotou o costume de enterrar os corpos dos falecidos.

De acordo com a época, eles eram sepultados na própria igreja ou no lugar específico para isto, o cemitério.

De origem grega (koimetérion), este lugar significa “dormitório”, e realmente é onde os mortos descansam. Ali permanecerão até o dia do Juízo Final, quando a alma se unirá novamente ao corpo.

Esse sentimento trágico acerca da morte – como pensam alguns – se dá pela falta de esperança de que o ser humano existe não somente para esta vida, mas principalmente para Deus: “A morte não é a última palavra acerca do destino humano, porque ao homem foi reservada uma vida sem limites, que tem o seu cumprimento em Deus”.[2]

Com o sinal da fé dormem o sono da paz

Para essas pessoas que entregaram sua alma a Deus, os cristãos desde os primeiros tempos ofereceram orações.

A Igreja instituiu no século XI um dia reservado para se rezar pelos fiéis defuntos. No século XIII ficou consignada a data 2 de novembro, um dia depois da solenidade de todos os Santos, pois “com o ânimo ainda dirigido para estas realidades últimas, comemoramos todos os fiéis defuntos, que ‘nos precederam com o sinal da fé e dormem o sono da paz’ (oração eucarística 1)”.[3]

Eles nos precederam com o sinal da fé, a mesma fé professada pelos católicos em todos os tempos.

O cristão não espera apenas uma salvação individual, mas quer que todos alcancem a bem-aventurança. Os atos praticados em vida se fazem sentir – de alguma maneira – depois da morte. Portanto, há uma relação entre vivos e mortos, e é por isso que se deve rezar pelos que já partiram e necessitam de purificação.

Deus nos quer junto a Ele

Eles estão na esperança de atingir o quanto antes o fim para o qual foram chamados, a união com Deus: “Deus chamou e chama o homem a unir-se a Ele, com todo o seu ser, na perpétua comunhão da incorruptível vida divina. Esta vitória, alcançou-a o Cristo Ressuscitado, libertando com a própria Morte o homem da morte”.[4]

A Fé Cristã responde ao anseio do ser humano em encontrar uma razão para a morte e a continuação da existência depois dela. A verdadeira vida se alcança no encontro com Deus, que Se fez Homem e nos amou ao ponto de morrer por nós, para que nós tivéssemos vida.

Nesta esperança, deve-se rezar pelos fiéis defuntos, sobretudo no dia que a Igreja reserva de forma especial a eles.


Notas
[1] Gaudium et Spes, n. 18.
[2] JOÃO PAULO II. Angelus, 2 de novembro de 1997.
[3] BENTO XVI. Angelus, 2 de novembro de 2008.
[4] Gaudium et Spes, n. 18.