Ao constituir Simão o fundamento sobre o qual ergueria sua Igreja, Nosso Senhor acabou por identificá-lo consigo mesmo. Jesus Cristo é pedra, Pedro é pedra (cf. Mt 16, 18; Ef 2, 20); Jesus Cristo é o único Pastor de seu único rebanho, Pedro é o Pastor Supremo desse mesmo rebanho (cf. Jo 10, 16; 21, 15-17). Ora, seguindo o princípio de que dois elementos iguais a um terceiro se equiparam entre si, podemos afirmar, apoiados em Santa Catarina de Siena: Pedro é o doce Cristo na terra.
Pretendemos, então, que Pedro se iguale Deus? De forma alguma. Não se trata aqui de alardear absurdos teológicos para atrair a atenção, mas sim de proclamar a verdade: Pedro não é Deus, mas tem os poderes d’Ele. Ao vincular seu Pontífice indelevelmente à Igreja, o Salvador concedeu-lhe participar de seus divinos predicados, inclusive de sua imortalidade.
Munido, portanto, de tais prerrogativas, o humilde pescador da Galileia haveria um dia de desafiar César e vencê-lo; mais tarde deteria o exército de Átila às portas de Roma, lançaria as bases para uma nova civilização, coroaria e deporia reis, seria árbitro de guerras, enfim, ditaria os rumos da História. Tudo isso faria Pedro.
Mas o que fariam com Pedro… contra Pedro?
Já o exilaram, sequestraram, esbofetearam. Quantas vezes tentaram matá-lo! Não podendo, preferiram despojá-lo. Através de Garibaldi, procuraram usurpar-lhe toda forma de poder temporal, talvez sob o pretexto de que, em sua qualidade de Vigário de Cristo, governa um reino não pertencente a este mundo.
Destituído do poder político, teve até mesmo sua autoridade moral atacada. Vinda do alto, esta não lhe poderia ser tirada. Lançaram então vagalhões de lama sobre ela.
Desprestigiado, o velho pescador viu-se taxado de figura ultrapassada, incômoda, desnecessária em um mundo onde a ciência haveria de ocupar com seus dogmas toda a capacidade humana de crer sem entender, e o liberalismo deveria esboçar, com tinta invisível sobre papel transparente, um novo código de conduta bem mais fácil de se assimilar.
Contudo, ao longo de seus dois mil anos de existência, Pedro sofreu ainda mais. Cristo já o havia advertido: muitos, sentados legítima ou ilegitimamente em seu trono, acorrentaram-no e o arrastaram para onde não queria ir (cf. Jo 21, 18). Crucificaram-no, esquecendo-se de que na cruz Pedro se identifica com mais propriedade a seu Senhor, pois é a partir dela que pode sempre de novo ressuscitar.
Assim, malgrado todas as imposturas feitas contra ele, Pedro ainda vive. E não só: sua autoridade permanece intacta. Cefas continua sendo pedra, “tesouro precioso” para os que creem, mas, para os que não creem, “pedra de tropeço e rocha que faz cair” (I Pd 2, 7-8). Portanto, basta essa rocha compacta pôr-se em movimento, do alto cume no qual se encontra, para derrubar quaisquer colossos com pés de barro que até o presente caminham impunes pela terra. Quiçá por isso o mundo inteiro, pretensamente emancipado da Fé, contempla de soslaio, mas atento, cada palavra, cada ato, cada aceno seu, questionando-se de modo implícito: para onde irá Pedro?
Também os Arautos do Evangelho, ao comemorar os vinte e cinco anos de sua aprovação pontifícia, voltam os olhos ao Sumo Pontífice, transidos por um misto de gratidão e esperança, certos de que, crescendo a Igreja sempre em graça e santidade até o fim dos tempos, as mais gloriosas páginas do Papado ainda estão por ser escritas.