É pelo mesmo Sacrifício que damos graças a Deus pela glória com que cumula os Santos do Céu e imploramos a sua misericórdia para as almas do Purgatório, santos ainda em via de purificação.

Uma só e mesma Igreja

A Igreja Triunfante do Céu, a Igreja Militante da terra e a Igreja Padecente do Purgatório nada mais são que uma só e mesma Igreja. A caridade, mais forte que a morte, as une do Céu à terra e da terra ao Purgatório.

São como três partes de uma só e mesma procissão de Santos, que caminha da terra para o Céu.

As almas do Purgatório participarão um dia daquela procissão. Sim, porque ainda não têm perfeitamente brancas as vestimentas de festa; a veste nupcial ainda conserva algumas nódoas, aquelas que somente o sofrimento pode lavar.

Membros do mesmo Corpo

Assim como os fiéis da Igreja Triunfante, os da Igreja Militante e os da Igreja Padecente são membros de um mesmo Corpo, que é de Jesus Cristo: uns participam da glória, dos perigos e dos sofrimentos dos outros e por eles se interessam e se compadecem, tal como acontece entre os membros de um corpo humano.

Vejamos um exemplo: se o pé está enfermo ou sofre alguma dor, todo o corpo se movimenta para socorrê-lo. Os olhos se voltam para ele, as mãos o protegem, a voz chama por socorro, procurando afastar o mal ou o perigo. Afastado o mal, todos os membros se alegram. É assim também que acontece no Corpo Místico de Cristo.

Judas Macabeu

Vemos isso de modo particularmente expressivo na história dos Macabeus.

Os heróis da Igreja Militante, os ilustres Macabeus, foram assistidos pelos Anjos e Santos de Deus (IIMac 10, 29-30; IIMac 15, 12-16).

Depois de uma vitória, Judas Macabeu e os seus foram recolher os corpos dos que haviam tombado na batalha, para depositá-los no sepulcro dos seus antepassados. Encontraram, porém, sob as túnicas dos mortos, objetos consagrados aos ídolos de Jamnia, cuja posse a Lei proibia aos judeus.

Compreenderam, então, que fora por essa falta que aqueles homens haviam perecido. Todos louvaram o justo julgamento do Senhor, que manifesta o que está oculto, e suplicaram que o pecado cometido fosse perdoado.

Judas exortou o povo a conservar-se livre do pecado, tendo diante dos olhos o que acontecera àqueles que haviam sucumbido por causa dele.

Depois, tendo feito uma coleta, enviou a Jerusalém duas mil dracmas de prata, para que fosse oferecido um sacrifício pelo pecado dos mortos. E a Escritura louva esse gesto, porque Judas agia movido pela esperança da ressurreição: se não esperasse que os mortos ressuscitassem, seria inútil e insensato rezar por eles.

Mas Judas considerava que uma grande misericórdia estava reservada àqueles que haviam adormecido na piedade. Eis por que ofereceu um sacrifício de expiação pelos defuntos.

Assim, a própria Escritura atesta a legitimidade de oferecer orações e sacrifícios em favor dos mortos, para que sejam purificados de seus pecados.

Santo e piedoso pensamento!

Palavras do Senhor nos Santos Evangelhos

Nosso Senhor adverte que há um Purgatório, quando nos recomenda em São Mateus e São Lucas:

Conciliai-vos com vossos inimigos (a lei de Deus e a consciência) enquanto estais em caminho para irdes ao príncipe, não seja que este inimigo vos entregue ao juiz, o juiz ao executor, e que sejais metido numa prisão. Em verdade vos digo, dela não saireis, enquanto não pagardes o último óbolo (Mt 5, 25-26; Lc 12, 58-59).

Segundo essas palavras, está bem claro que há uma “prisão de Deus”, onde se é arremessado por dívidas para com sua justiça, e de onde não se sai, senão quando tudo estiver pago.

Ouçamos Nosso Senhor em São Mateus

Nosso Senhor, em São Mateus, disse-nos ainda: “Todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada, nem neste século nem no futuro” (Mt 12, 31-32).

Aqui se vê que os outros pecados podem ser perdoados neste século e no futuro, como o Livro dos Macabeus diz expressamente dos pecados daqueles que estavam mortos pela causa de Deus.

No Sacrifício da Missa

Do mesmo modo, no Sacrifício da Missa, a Santa Igreja de Deus lembra os Santos que com Ele reinam no Céu, a fim de lhes agradecer pela glória e nos recomendar à sua intercessão.

De outro lado, suplica a Deus que se lembre dos servidores e servidoras que nos precederam no outro mundo com a chancela da fé, dignando-se conceder-lhes a estadia no refrigério, na luz e na paz.

Purgatório e doutores da Igreja

A crença na purificação após a morte e a prática de orar pelos mortos encontram-se amplamente testemunhadas na Tradição cristã desde os primeiros séculos. Um dos testemunhos mais antigos aparece no Martírio de Santa Perpétua e Santa Felicidade, escrito no início do século III.

É um dos mais antigos testemunhos cristãos da oração pelos mortos e da convicção de que os sufrágios dos vivos podem beneficiar aqueles que já deixaram esta vida.

Todos os Santos rogaram pelos mortos.

Santo Odilon, abade de Cluny, no século XI, tinha um zelo particular pelo que dizia respeito ao refrigério das almas do Purgatório.  Foi movido pela compaixão, pensando no sofrimento das almas do Purgatório que, adiantando-se à Igreja, ordenou que se rogasse pelas almas, tendo destinado para isso um dia especial.

Eis como Santo Odilon animou tal instituição, começando pelas terras que lhes estavam afetas ao sacerdócio.

As orações, os sufrágios e as esmolas feitos caridosamente pelas almas que já estão na glória e que já não necessitam revertem às almas ainda necessitadas, aproveitando a nós também.

E os sufrágios que se fazem às almas que jazem no inferno? Não os aproveita nem uma nem outra – nem as do inferno nem as do Purgatório –, mas unicamente a quem os faz.

Uma oração

Nós, pois, vos saudamos, ó almas que vos purificais nas chamas do Purgatório. Compartilhamos as vossas dores, os sofrimentos, principalmente daquela dor imensa e torturante de não poderdes ver a Deus.

Ai de nós! Sem dúvida que há entre vós parentes nossos e amigos: sofrerão, talvez por nossa culpa. Quem dirá que não lhes demos, nesta ou naquela ocasião, motivos de pecar?

Falta-lhes pouco tempo para que se tornem inteiramente puras. O que nos acontecerá, a nós que tão pouco velamos por nós mesmos?

Almas santas e sofredoras, que Deus nos livre de vos esquecer jamais! Todos os dias, à Missa e às orações, lembramo-nos de vós todas.

Lembrai-vos, pois, também de nós. Lembrai-vos, principalmente, quando estiverdes no Céu. Como lá vos desejamos ver! Como no Céu, desejamos ver-nos convosco! Assim seja.