Desde que Adão e Eva foram postos fora do paraíso, o homem vive com uma interrogação: Quem não ama sua vida procurando ser feliz todos os dias? (Sl 33, 13), pois da mesma forma que Deus infunde a alma humana no momento de sua concepção, infunde-lhe também o desejo da felicidade. Como nos diz o grande doutor Santo Agostinho, todos os homens querem viver felizes, e não existe nenhuma pessoa que não concorde com esta afirmação.[1]
No paraíso Deus havia concedido ao homem o “dom de integridade”, o qual, juntamente com a Graça, lhe dava plena felicidade. Esse dom proporcionava ao homem uma completa ordem: a fé iluminava sua inteligência, esta dominava sobre a vontade, a qual impedia impulsos e ações meramente instintivas. Em outras palavras, a vontade humana esperava da inteligência a permissão para atuar, visto que a inteligência era guiada única e exclusivamente pela Fé, esta só faria coisas boas, não desobedecendo nunca os mandamentos do Criador.
Com o pecado original, Adão e Eva perderam o dom de integridade, retendo-o também à humanidade vindoura. Por isso, o homem vive numa constante luta para controlar, com muita dificuldade, a sua vontade, que sendo inferior à inteligência e à Fé, não tem mais aquela submissão como antes do pecado original.
O Criador, ao dar uma ordem a Adão, era prontamente obedecido. Mas, por que então Adão e Eva comeram do fruto que Deus havia proibido, uma vez que possuíam o dom de integridade?… Essa foi a prova a qual foi submetida a humanidade.
Deus ao proibir Adão e Eva de comerem do fruto, disse: “Podeis comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comais do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente.” (Gn 2, 16-17). Mas o demônio, em forma de serpente, enganou a mulher dizendo: “Oh, não; vós não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” (Gn 3, 4-5) Isso despertou a curiosidade em Eva: “A mulher, viu que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e muito apropriado para abrir a inteligência.”
Vê-se a forma da tentação apresentada, na qual o demônio embaça a realidade da consequência do pecado. Assim continua: “tomou dele, comeu, e o apresentou ao marido que comeu igualmente.” (Gn 3, 6) Neste instante, lhes “caem as escamas” dos olhos. Foram os primeiros a constatar que com o pecado, o demônio não dá o que promete.
Eles não eram deuses, mas tudo o que queriam, Deus lhes concedia. Conheciam apenas o bem fazendo parte dele. Comendo o fruto, aderiram ao mal conhecendo-o profundamente, abraçando a malícia, fruto do pecado. Comeram para alargar ainda mais sua inteligência, a qual se fechou a ponto de não conseguirem dominar mais suas próprias vontades. Eram felizes no paraíso, pois cumpriam inteiramente com a finalidade para a qual todo homem foi criado que é conhecer, amar e servir a Deus.
Imaginemos um pássaro com uma asa quebrada. Se ele fosse inteligente, passaria sua existência na angustia de nunca ter voado. Teria realizado, assim, a sua finalidade? Poderia ter sido feliz? Não, pois não cumpriu com a sua finalidade que é voar. Assim foi o que aconteceu com os nossos primeiros pais. Eva ouvindo a voz do demônio sucumbiu à tentação, certa de encontrar a felicidade no pecado. Foram, então, expulsos do paraíso tornando-se inclinados ao mal e sujeitos ao erro, toda sua vida tornou-se uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.
Fora de sua finalidade, o homem não têm felicidade, pois este desejo é de origem divina. Deus o colocou no coração humano, a fim de atraí-lo a Si, pois só Ele pode satisfazer esse desejo pelo infinito.[2] O demônio, sendo o pai da mentira, promete a felicidade com o pecado. Entretanto, este traz apenas uma fruição momentânea, não sendo capaz de satisfazer a frustração que o descumprimento dos mandamentos traz consigo.
Desde então, o homem passou a ter que tirar com trabalhos penosos, o próprio sustento todos os dias da sua vida (Cf. Gn 3, 17). Nesta nova ordem de coisas o homem tem necessidade do sofrimento, pois sem ele fecha-se em si mesmo, e não procura mais a bondade e prodigalidade de Deus. O sofrimento assume um papel fundamental e insubstituível na vida humana depois do pecado, pois nos coloca diante de Deus como seres contingentes, necessitados do seu auxílio.
Ao se tirar o gesso de um braço quebrado é necessário submeter-se a uma série de seções de fisioterapia para restaurar o seu pleno funcionamento. Se o membro não se exercitar, definha por inteiro. Se o exercício, um sofrimento, é necessário para o braço, muito mais para a alma humana se desenvolver e restaurar em si a imagem do Criador. É o que São Tomás chama de “sofritiva”, uma necessidade de sofrimento.
Se exemplos nos faltassem, bastaria considerar o maior de todos, o Homem Deus. Sendo O profeta, viu no horto das Oliveiras todos os padecimentos pelos quais haveria de passar, a ponto de sentir aversão, pavor, tristeza e abatimento (Cf Mt 26, 38). Antes mesmo dos algozes O tocarem, após verter abundantemente seu preciosíssimo sangue adorável, diante do oceano de dores que O esperava, profere esta sublime súplica: “Meu Pai, se for possível afaste de mim este cálice. Mas faça-se a vossa vontade e não a minha.” (Mt 26, 39)
Poderíamos supor que o Redentor pede clemência ao Pai, para ajuda-Lo no caminho do Calvário a suportar a enorme Cruz que haveria de carregar. Mas “faça-se a vossa vontade e não a minha”, pois uma coisa que Ele não faria era abandonar a Cruz. Se for a vontade do Pai pegaria a Cruz, a oscularia e a levaria até o fim.
Portanto, a vida nesta terra sem o sofrimento, é uma ilusão, pois se Deus sofreu por nós, porque seríamos covardes e fugiríamos diante de nossas cruzes, tão menores em relação à que Ele carregou para nos redimir? Nossa Senhora disse a Santa Bernadete: “Te prometo felicidade, mas não nesta terra.”
Isso, contudo, não deve nos fazer ter medo, Deus conhece as nossas angústias e olha as nossas aflições. (Cf. Sl 30, 8). Ele nos designou um lugar no Céu, que de sacrifício em sacrifício, de virtude em virtude, ocuparemos por toda a eternidade “pois só n’Ele encontramos felicidade” (Sl 118, 35). Lembremo-nos que depois do martírio da cruz vem a glória da ressurreição. Pela cruz se chega à luz.
Peçamos a Nossa Senhora, Causa de Nossa Alegria, que nos dê coragem para dizer “sim” como Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto das Oliveiras, e alcançarmos a felicidade eterna nos Céus.
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[1] Cf. AGOSTINHO, Mor. eccl. 1,3,4: PL 32, 1312.
[2] CATECISMO Igreja Católica: SP, Loyola, 2000. p. 469
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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