Redação (Quarta-feira, 02-07-2014, Gaudium Press) Talvez não exista a heresia pura, no sentido de que sempre se mescla aí algo de verdade junto ao veneno da falsidade. Um tanto disso ocorre com o panteísmo, que afirma que tudo é Deus, ou que todo o criado é uma parte de Deus.
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É claro que o panteísmo é facilmente refutável a partir do ponto de vista filosófico, e também a partir do sentido comum: não é senão olhar-se a si mesmo, ver as muitas limitações próprias e constatar que muito distante de ser Deus somos seres extremamente frágeis, contingentes, finitos, incoerentes, inconstantes, etc. (ainda que em muitos haja ínfulas de deuses, diga-se de passagem!).
Entretanto, por que tantos e tão diversos povos acreditaram e ainda creem no panteísmo? Nos parece que isso se explica pelo que o panteísmo tem de "verdade": Se bem que o sentido comum nos manifesta a limitação e contingência das criaturas, também há um instinto que nos fala poderosamente de uma presença de Deus nelas.
"O 'actus essendi' [o ato do ser] participado [nas criaturas] é participação de Deus enquanto ato puro". "A criação como tal, quer dizer a dependência de todos os seres com respeito a Deus, pode ser demonstrada rigorosamente. Esta prova, como já foi dito, (...) está fundada no princípio da participação". "A fonte primeira da multiplicidade [dos seres], tal como o diz São Tomás, [se explica] na unidade da essência divina como 'esse' [ser] intensivo". "A essência divina se transforma em princípio da pluralidade infinita das ideias, enquanto a perfeição infinita que expressa não pode ser expressada por um só efeito, no caso de uma imitação 'ad extra' [para fora], mas que exige uma multiplicidade ilimitada de modos e formas reais [sinônimo de seres]": Todas as anteriores expressões -e poderíamos citar muitas outras- não são de nenhum panteísta, mas de um dos mais insignes estudiosos de São Tomás de todos os tempos, o Padre Cornelio Fabro (cfr. Participación y Causalidad según Tomás de Aquino. Eunsa. 2009).
As criaturas não são Deus, de nenhuma maneira; mas se manifestam a Deus, tanto na existência de seu ser (que é criado e sustentado por Deus), quanto em sua essência, em sua natureza -que foi dada por Deus-, e também em seu obrar como consequência de sua natureza: por exemplo, no caso da criatura com liberdade, quando um homem argumenta muito bem para defender um erro, Deus não é "culpável" desse mal uso da inteligência para defender a falsidade, mas sim está Deus presente no exercício natural dessa inteligência, pois sem a anuência da vontade divina, nem existiria a poderosa inteligência particular desse homem, e nem sequer existiria esse homem concreto.
Dito o anterior, podemos adentrar-nos em uma aplicação prática: se estamos destinados a união com Deus, como nos diz a Fé, esta busca de Deus pode e deve realizar-se também nas criaturas, pois seria absurdo que Deus se manifestasse na criação para que o homem não o escutasse por esse meio.
Desta maneira, inclusive até seria possível admirar a Deus na agilidade de um homem que usa essa qualidade para cometer um delito. Algo análogo fez o Senhor, quando louvou a astúcia -mal empregada- de um mal administrador: é claro Deus não está elogiando o mal, mas destacando o exercício das qualidades de um de seus seres.
O anterior fica dito simplesmente para mostrar as quase infinitas possibilidades que nos dá todo o universo, para conhecer, contemplar e amar a Deus Nosso Senhor. Para ir caminhando até sua própria Essência divina.
Por Saúl Castiblanco
Traduzido por Emílio Portugal Coutinho
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