Em meio à agitação cotidiana, nem sempre encontramos tempo para nos dedicar à oração e à reflexão. Por isso, muitos fiéis procuram reservar algumas horas ou dias para se afastar das preocupações habituais e voltar a atenção para a própria vida espiritual e sua caminhada com Cristo.

Entre as iniciativas promovidas pelas comunidades católicas estão os retiros espirituais, as tardes de louvor e os encontros de jovens.

Embora tenham características distintas, essas atividades podem favorecer momentos de oração, formação na fé e aproximação com Deus, por meio da meditação da Sagrada Escritura, de reflexões em grupo e da adoração ao Santíssimo Sacramento.

Mas, afinal, o que significa verdadeiramente retirar-se? Qual é a importância dessa experiência para a vida espiritual?

Para responder a essas questões, a Gaudium Press entrevistou, em 2014, Dom João Justino de Medeiros, então Bispo auxiliar de Belo Horizonte.[1]

Segundo Dom Justino, “todo retiro tem essencialmente o sentido de ‘retirar-se’, tomar distância por um breve tempo dos ambientes que marcam o dia a dia da vida, tendo em vista silenciar-se para a ‘escuta’ de si mesmo e, sobretudo, de Deus”.

“No afastamento do ritmo cotidiano e na experiência do silêncio, a pessoa vive um processo interior de decantação e de abertura de espaço ao mistério de Deus”, acrescentou.

Retirar-se para aquietar-se

Afastar-se temporariamente das ocupações habituais não significa simplesmente interromper a rotina. Trata-se de criar condições para aquietar o espírito, voltar-se para a própria vida interior e estar mais disponível à escuta de Deus.

Dom Justino considera que o jovem que aceita esse desafio oferece a si mesmo uma oportunidade muito rica de “crescimento na fé” e de fortalecimento da vida espiritual.

Mas qual direção deve orientar essa caminhada?

Ao abordar essa questão, o Bispo recordou as palavras de Jesus no Evangelho de São João: “Creio que a direção espiritual para a vida de cada um de nós é Jesus Cristo. Ele é o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Para Dom Justino, o fundamental para que o retiro proporcione aos participantes um encontro com Cristo é justamente a busca pelo silêncio e pela escuta da Palavra de Deus.

O Espírito Santo fala no silêncio

“O silêncio é uma exigência fundamental para uma experiência mais radical de escuta”, ressaltou o Bispo.

Para ilustrar essa realidade, Dom Justino compartilhou uma frase que havia lido no jardim de um mosteiro:

Li nesses dias, no jardim de um mosteiro, a seguinte frase: “O Espírito Santo é educadíssimo. Somente fala quando nós nos calamos”. Aparentemente muito simples, a frase fala uma verdade da tradição espiritual cristã. É no silêncio que podemos escutar melhor o que Deus tem a nos dizer.

Outros eventos religiosos podem proporcionar interessantes experiências de Deus para os jovens. Mas os retiros, sobretudo de silêncio, dão algo preciosíssimo àquele que consegue vencer a tentação de ser “o dono da verdade”. A verdade é Jesus Cristo! Dela podemos nos aproximar, mas não tomar posse, manipulá-la.

A frase sobre o Espírito Santo chama a atenção para uma disposição fundamental à vida espiritual: a capacidade de silenciar as próprias inquietações e distrações para acolher a Palavra de Deus. Afinal, não basta afastar-se fisicamente da agitação cotidiana; é preciso também buscar o recolhimento interior.

O silêncio, portanto, não constitui um fim em si mesmo. É uma disposição que favorece a oração, a escuta e uma abertura mais profunda à ação de Deus.

O desafio do silêncio

Ao recordar uma de suas experiências pessoais, Dom Justino mencionou um retiro inaciano de uma semana, realizado em dezembro de 1988, durante sua passagem dos estudos de Filosofia para os de Teologia.

Posteriormente, voltou ao mesmo local para fazer um retiro pessoal, permanecendo sozinho durante alguns dias. Mais uma vez, o que o tocou profundamente foi “o desafio do silêncio”, confessou.

Segundo o Bispo, depois dos primeiros dias de recolhimento, o silêncio se torna uma necessidade para aprofundar o encontro com Deus, que deseja falar ao coração de cada pessoa.

Essa experiência também ajuda a compreender que o recolhimento exige tempo e disposição. Nem sempre é fácil interromper o fluxo de pensamentos, preocupações e estímulos aos quais estamos habituados. Por isso, o silêncio pode representar um verdadeiro exercício de atenção e disponibilidade diante de Deus.

Como se preparar para um retiro espiritual?

Ao ser questionado sobre o que recomendaria às pessoas que participariam de um retiro pela primeira vez, Dom Justino destacou que essa experiência exige uma escolha consciente e algumas renúncias.

“Retirar-se é uma escolha que, como tal, comporta renúncias”, afirmou.

Entre suas recomendações está a de deixar temporariamente os trabalhos e as preocupações habituais, organizando-se de modo que as atividades externas não interfiram nos momentos de oração.

Esforce-se e deixe os trabalhos para trás. Organize-se de tal modo que as pessoas saibam que você foi para o retiro e que não deve ser incomodado. Comunique aos seus familiares e amigos mais próximos que você vai “desligar-se” do celular, dos e-mails, do Facebook, das redes sociais, pois estará em oração.

Deixe com alguém mais criterioso o número telefônico da casa onde estará para alguma eventualidade. Evite levar computador, iPad, iPhone, celular.

A recomendação é clara: para aproveitar melhor o retiro, convém reduzir as distrações e evitar que as preocupações externas ocupem o tempo reservado à vida espiritual. Isso exige também uma preparação prévia, para que as responsabilidades possam ser encaminhadas antes do início do recolhimento.

Ao concluir a entrevista, Dom Justino aconselhou aqueles que ainda não tiveram essa experiência a fazê-la, destacando os frutos que podem surgir dessa disposição:

“Quanto mais só você conseguir ir, mais poderá escutar e curtir o retiro, mais chances terá de tocar o mistério de Deus”.

Retirar-se, portanto, não significa fugir da realidade, mas reservar um tempo para reencontrar o essencial. No silêncio e na oração, o fiel pode voltar-se mais atentamente para Deus e encontrar novas disposições para viver sua fé no cotidiano.


[1] LEANDRO MASSONI ILHÉU. Qual o verdadeiro significado dos retiros espirituais? Gaudium Press, Belo Horizonte, 21 fev. 2014. Disponível em: https://gaudiumpress.org/content/56157-qual-o-verdadeiro-significado-dos-retiros-espirituais/. Acesso em: 5 nov. 2026.