Desde os povos mais cultos e civilizados até as tribos de costumes rudimentares, todas as sociedades humanas sempre tiveram a família como uma de suas instituições básicas, de caráter inabalável e incontestável.
Não ocorria a ninguém – com exceção de certos ideólogos – a ideia de que ela fosse um elemento descartável do tecido social. Como recorda o Papa Bento XVI,
Matrimônio e família não são, na realidade, uma construção sociológica casual, fruto de particulares situações históricas e econômicas.
Ao contrário, a questão da justa relação entre o homem e a mulher afunda as suas raízes dentro da essência mais profunda do ser humano e pode encontrar a sua resposta só a partir dela.1
Essas verdades universais, aceitas desde o início da História da Humanidade, passaram a ser contestadas, no século passado, por ondas sucessivas e crescentes.
“Tanto e talvez mais que outras instituições”, constatava, há três décadas, o Servo de Deus João Paulo II, a família “tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura”.2
Hoje, aqueles que desejam viver fielmente o Matrimônio, necessitam de auxílio.3 O VI Encontro Mundial das Famílias, na capital mexicana, vai enfrentar com coragem esses problemas e procurar proporcionar às famílias o apoio do qual tanto precisam.
Primeira educadora da Fé
Como preparação para o Encontro, o Pontifício Conselho para a Família organizou uma série de Catequeses preparatórias. São dez textos, cada qual abordando o tema da família através de algum valor específico, vocação ou missão.
O tópico dedicado à educação na Fé inaugura essa série catequética, partindo do mandato que a Igreja recebeu do Senhor, de anunciar a todos os homens o Evangelho: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19).
“Desde o dia de Pentecostes – afirma o texto vaticano – os Apóstolos encheram Jerusalém e todo o mundo então conhecido com o anúncio de Cristo, Morto e Ressuscitado para a nossa salvação”.4
Pelo entusiasmo dos evangelizadores, por sua incansável dedicação, por seu exemplo – que tantas e tantas vezes chegou até ao martírio –, a mensagem cristã pôde mover os corações e as mentes de populações inteiras.
Nessa expansão, a família – como célula básica da sociedade – foi um elemento fundamental, e por isso ela bem merece o título de “Igreja doméstica”, que lhe deu o Concílio Vaticano II.
Sem esse espaço de evangelização, que é o lar, teria sido muito difícil a expansão da Religião de Cristo, seu robustecimento e o aprofundamento de suas raízes.
Sendo a primeira educadora na Fé, a família cristã participa da missão da Igreja de anunciar o Evangelho.
“A família tem como primeiros e principais destinatários deste anúncio missionário os seus filhos e familiares, como o atestam as Cartas Pastorais paulinas e a praxe posterior”, diz o texto das Catequeses preparatórias.
Para que seja possível evangelizar o mundo, a família tem de reassumir com força essa sua missão.
À luz da feliz experiência da Igreja nas sociedades cristãs da Europa (quando a família realizou esta missão educadora com seus filhos) e à luz também das gravíssimas repercussões negativas que hoje se constatam (pelo abandono ou descuido desta missão), é preciso que a família volte a ser a primeira educadora da Fé nestas nações – hoje já não cristãs de fato – nas quais se está afiançando a Fé e nas quais se está implantando a Igreja.
É de todo em todo louvável que muitos fiéis leigos queiram ser missionários e colaborar na expansão da Igreja, e até se sacrifiquem nesse labor. Contudo,
o principal apostolado missionário dos pais deve realizar-se em sua própria família, pois seria uma desordem e um antitestemunho pretender evangelizar a outros, descuidando a evangelização dos nossos.
“As palavras convencem, o exemplo arrasta”, ensina o conhecido dito popular. Sobretudo, ele se aplica à família, pois, se é importante a palavra para a transmissão da Fé, é indispensável para isso que os pais deem “o testemunho de sua vida cristã”.
Homem e mulher: diferentes e complementares
Diante da realidade atual,“tão radical e condicionante”, o texto catequético preparatório para o VI Encontro Mundial das Famílias afirma ser preciso recordar os alicerces naturais e teológicos da família.
Antes de tudo, deve-se reafirmar que
existe um Deus pessoal e bom, que criou o homem e a mulher com igual dignidade, mas diferentes e complementares entre si, e deu lhes a missão de gerar filhos, mediante a união indissolúvel de ambos em “una caro”, ou seja, numa só carne (Matrimônio).
Os textos sagrados
narram a criação do homem, evidenciando que o casal homem-mulher são – segundo o desígnio de Deus – a primeira expressão da comunhão de pessoas, pois Eva é criada semelhante a Adão como aquela que, em sua alteridade, o completa (cf. Gn 2, 18) para formar com ele uma só carne (cf. Gn 2, 24).
Ao mesmo tempo, ambos têm a missão procriadora que os faz colaboradores do Criador (cf. Gn 1, 28).
Bento XVI nos recorda o ensinamento do Concílio Vaticano II, o qual afirma que a instituição do Matrimônio recebe sua “estabilidade do ordenamento divino” e, por isso, “esse vínculo sagrado, por causa do bem tanto dos esposos e da prole, como da sociedade, está fora do arbítrio humano”.
Desse modo, continua o Papa,
nenhuma lei feita pelos homens pode subverter a norma escrita pelo Criador, sem que a sociedade seja dramaticamente ferida naquilo que constitui o seu próprio fundamento basilar.
Esquecê-lo significaria debilitar a família, penalizar os filhos e também tornar precário o futuro da sociedade.5
A família tem como uma “inevitável tarefa” ensinar essas verdades, transmitindo-as às crianças e aos jovens, de modo que eles tenham uma orientação segura perante o relativismo dominante em um mundo secularizado.
Âmbito no qual o ser humano se desenvolve de forma integral
É, igualmente, missão da família inculcar nos filhos a noção de que “toda a criação foi feita para o homem. Em troca, o homem foi criado e amado por si mesmo”.
O texto das Catequeses, ao fazer menção a esse tópico, traz à nossa atenção uma grande verdade, esquecida em nossos dias.
O homem tem uma dignidade transcendente, e “ninguém, portanto, pode maltratar essa dignidade sem cometer uma gravíssima violação da ordem querida pelo Criador”.
O que dizer quando justamente no interior da família essa dignidade sofre suas piores violações? A cada dia nos chegam notícias sobre mais casos de atrocidades ou de crimes ocorridos em casa.
Outrora se costumava falar do “recinto sagrado do lar”, o lugar onde cada qual se sentia acolhido e amado, e onde as crianças e os jovens amadureciam, e espelhavam-se no exemplo dos mais velhos.
É necessário, pois, fazer também com que a família seja novamente “o âmbito no qual o ser humano pode nascer com dignidade, crescer e desenvolver-se de maneira integral”.6
Um verdadeiro ministério a serviço de seus membros
Um dos principais desafios que a família cristã enfrenta é o de formar a consciência moral dos filhos, numa época na qual os valores morais vão sendo diluídos.
Isto torna muito mais importante do que nunca que os filhos sejam educados no amor à verdade objetiva – baseada na natureza humana e na lei revelada –, à justiça, à caridade e à pureza de corpo e de alma.
Dificilmente os mais jovens saberão resistir à onda hedonista e relativista sem o aprendizado em família, o exemplo e o apoio dos pais.
Urge, portanto, recolocar a família em seu devido contexto, como lugar principal e privilegiado de formação e educação, “transmissora das virtudes e valores humanos”, conforme reconhecem o texto da Catequese e o próprio tema do Encontro.
A Exortação Apostólica Familiaris Consortio faz referência ao ensinamento de São Tomás de Aquino, para ressaltar a alta missão dos pais a esse propósito.
O dever educativo recebe do Sacramento do Matrimônio a dignidade e a vocação de ser um verdadeiro e próprio “ministério” da Igreja a serviço da edificação dos seus membros.
Tal é a grandeza e o esplendor do ministério educativo dos pais cristãos, que São Tomás não hesita em compará-lo ao ministério dos sacerdotes:
“Alguns propagam e conservam a vida espiritual com um ministério unicamente espiritual: é a tarefa do Sacramento da Ordem.
“Outros fazem-no quanto à vida corporal e espiritual o que se realiza com o Sacramento do Matrimônio, que une o homem e a mulher para que tenham descendência e a eduquem para o culto de Deus”.7
É no lar, e somente ali, que se podem desenvolver
alguns valores fundamentais que são imprescindíveis para formar cidadãos livres, honestos e responsáveis, por exemplo, a verdade, a justiça, a solidariedade, a ajuda ao débil, o amor aos outros por si mesmos, a tolerância, etc.
De pouco adiantará os governos se preocuparem em desenvolver o ensino, dotarem as escolas de equipamentos sofisticados e caros e investir na formação de professores, sem antes procurar fortalecer a instituição da família.
Difícil será, sem a ajuda dela, combater a criminalidade, a corrupção e tantas outras mazelas.
O melhor seminário de vocações
Lembremos, por fim, que na revitalização da família cristã está também a saída para a atual crise de vocações.
Sobre este importante assunto, lembra o texto das Catequeses:
A família tem um modo específico de evangelizar, feito não de grandes discursos ou lições teóricas, mas mediante o amor cotidiano, a simplicidade, a concreção e o testemunho diário. Com esta pedagogia transmite os valores mais importantes do Evangelho.
Mediante este método, a Fé penetra como por osmose, de uma maneira tão imperceptível, mas tão real, que inclusive converte a família no primeiro e melhor seminário de vocações ao sacerdócio, à vida consagrada e ao celibato no meio do mundo.
A finalidade sobrenatural da família
A superação de todos os problemas da sociedade moderna – seja no nível psicológico, seja no social ou político – está condicionada, como vimos, à revitalização da sua célula básica: a família.
Porém, todos os esforços e as iniciativas humanas por fazer reflorescer esta instituição serão insuficientes sem que as bênçãos e a Graça de Deus se pousem sobre ela.
Daí a especial ênfase que o Encontro está pondo na importância da oração e na promoção da vida espiritual dos seus membros.
Só com a ajuda de Graças intimamente ligadas ao Sacramento do Matrimônio, a família poderá cumprir sua importante missão nesta Terra e preparar para o Céu as almas daqueles que a compõem.
Assim lembrou o Papa Bento XVI na clausura do V Encontro, celebrado em Valência, Espanha:
A família cristã – pai, mãe, filhos – está chamada a cumprir os objetivos assinalados não como algo imposto de fora, mas como um dom da graça do Sacramento do Matrimônio infundida nos esposos.
Se eles permanecerem abertos ao Espírito e pedirem a sua ajuda, Ele não deixará de lhes comunicar o amor de Deus Pai manifestado e encarnado em Cristo.
A presença do Espírito ajudará os esposos a não perder de vista a fonte e medida do seu amor e entrega, e a colaborar com Ele para o refletir e encarnar em todas as dimensões da sua vida.
Desta forma, o Espírito suscitará neles o anseio do encontro definitivo com Cristo na casa de seu Pai e nosso Pai.8
Em união com o Pontifício Conselho para a Família, e com todos os participantes deste Encontro, peçamos ao Espírito Santo que infunda com abundância seus dons a todas e cada uma das famílias cristãs do mundo, a fim de que possam ser “fermento na massa” e força revitalizadora de uma sociedade em crise.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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