La Croix: Será que a Liturgia se tornou objeto de polêmicas, de debates na Igreja, e até mesmo um fator de graves divisões?
Julgo que este é um fenômeno especificamente ocidental. No Ocidente, a secularização trouxe consigo uma forte divisão entre os que se refugiam no misticismo, esquecendo a vida, e aqueles que banalizam a Liturgia, privando-a de sua função de mediadora com o sobrenatural. […]
Penso que não se deve abaixar o senso do divino ao nível do homem, mas, pelo contrário, procurar elevar o homem ao nível sobrenatural, onde podemos nos aproximar do Mistério divino.
Ora, a tentação de tornar-se protagonista desse Mistério divino, de procurar controlá-lo, é forte numa sociedade que diviniza o homem, como o faz a sociedade ocidental.
A oração é um dom: a Liturgia não é determinada pelo homem, mas por aquilo que Deus faz nascer nele. Ela implica uma atitude de adoração a Deus criador.
La Croix: Na sua opinião, a reforma conciliar foi longe demais?
Não se trata de ser anticonciliar ou pós-conciliar, nem conservador ou progressista! Creio que a reforma litúrgica do Vaticano II nunca decolou.
Aliás, essa reforma não teve início com o Vaticano II. Na realidade, ela precedeu o Concílio, nasceu com o movimento litúrgico do início do século XX.
Se nos atemos ao decreto Sacrosanctum Concilium do Vaticano II, tratava-se de fazer da Liturgia a via de acesso à Fé, e as mudanças nessa matéria deveriam emergir de maneira orgânica, tendo em conta a tradição, e não de forma precipitada.
Houve numerosos desvios que fizeram perder de vista o verdadeiro significado da Liturgia.
Pode-se dizer que a orientação da oração litúrgica na reforma pós-conciliar não foi sempre um reflexo dos textos do Vaticano II; e, nesse sentido, pode-se falar de uma correção necessária, de uma reforma da reforma. É preciso recuperar a Liturgia, no espírito do Concílio.
La Croix: Concretamente, a que se deve isso?
Hoje os problemas da Liturgia giram em torno da língua (vernáculo ou latim) e da posição do sacerdote, voltado para a assembleia ou para Deus.
Vou lhe causar surpresa: em nenhum ponto do decreto conciliar se diz que é necessário o celebrante voltar-se para a assistência, nem que é proibido usar o latim!
Se é permitido usar a língua corrente, particularmente para a Liturgia da Palavra, o decreto precisa bem que o uso da língua latina será conservado no rito latino. Sobre estes assuntos, esperamos orientação do Papa.
La Croix: Então, equivocaram-se aqueles que, com grande senso de obediência, seguiram as reformas pós-conciliares?
Não. Não se trata de fazer disso um problema ideológico. […] Mas é certo que uma nova geração está em busca de maior orientação rumo ao mistério.
Não é uma questão de forma, mas de substância. Para falar de liturgia não é necessário apenas um espírito científico, ou histórico-teológico, mas sobretudo uma atitude de meditação, de oração e de silêncio.
Uma vez mais, digo que não se trata de ser progressista ou conservador, mas simplesmente de permitir ao homem rezar, ouvir a voz do Senhor.
Aquilo que ocorre na celebração da glória do Senhor não é uma realidade apenas humana. Se for esquecido esse aspecto místico, tudo se obscurece e se torna confuso.
Se a Liturgia perde sua dimensão mística e celeste, quem, então, ajudará o homem a livrar-se do egoísmo e de sua própria escravidão?
A Liturgia deve ser, sobretudo, uma via de libertação, abrindo o homem à dimensão do infinito.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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