O trecho do Catecismo aponta três pecados interligados: a adulação, a bajulação e a complacência. Concentra-se sobre o primeiro, cujo significado é “sedução por meio de falso louvor”.1
O seu étimo latino adulari remonta ao ato de fazer carícias – especialmente em animais. No fundo, o adulador é um acariciador do ego alheio.
Contudo, surge uma questão fundamental: será todo louvor um ato pecaminoso? São Tomás de Aquino ensina que os louvores podem ser lícitos ou ilícitos, a depender das circunstâncias.
Elogiar alguém com o objetivo de lhe dar consolação nas tribulações, estimular nos esforços ou favorecer no progresso no bem, constitui ato de caridade, conforme a virtude da amizade.2
Da mesma forma, é conforme à razão honrar superiores por sua dignidade ou excelências, pela virtude da dulia, que presta honra a quem se deve.3 O reconhecimento do mérito alheio não é apenas permitido, mas, em certos casos, um dever de justiça.
Com efeito, a amizade e a dulia derivam da virtude cardeal da justiça, definida como a “vontade constante e perpétua de dar a cada um o seu direito” ou “dar a cada um o que é seu”.4
Por esse prisma, é possível compreender a malícia do adulador, o qual, embora pareça agir conforme a justiça ao prestar honras, na realidade atenta contra ela ao procurar vantagens pessoais de modo fraudulento.
Favorece a mentira, atribuindo ao próximo qualidades inexistentes, exagerando outras ou, pior, aprovando condutas censuráveis. Mais ainda, fere a justiça que exige veracidade para o convívio harmônico entre os homens.
O verso da moeda é a detração, que adultera a verdade para atingir a reputação alheia.
Em contrapartida, “apesar de ter como objeto principal dar prazer àqueles que convivem”, a virtude da amizade “não teme causar pena, quando isto se faz necessário para conquistar um bem ou afastar um mal”.5
Na visão tomista, colhida pelo Catecismo, a adulação sempre é pecado mortal quando atenta contra a caridade, aprovando ou incentivando o pecado grave do próximo.
Será pecado venial se é movida pelo desejo de agradar, evitar o mal ou conseguir algo necessário.6
Sob a máscara da cortesia, a adulação penetra no convívio de modo ardiloso, quase imperceptível. É premente a circunspecção, pois “o homem que lisonjeia seu amigo, estende uma armadilha a seus passos” (Pr 29, 5).
E as consequências podem ser muito perniciosas: “Mais dano faz a língua do adulador que a mão do assassino”.7 O adulador não mata o corpo, mata a verdade e a alma.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 298, Outubro 2026
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