Dr. Roberto era um próspero advogado. Pertencente a uma família de tradição no mundo do direito, era muito conceituado na sociedade em que vivia.
Não tinha filhos, e sua jovem esposa, Raquel, era uma católica exemplar, mas sofria pela falta de crianças que alegrassem seu lar.
Contudo, padecia ainda mais por ver seu esposo preocupado apenas com o trabalho e os negócios, desprezando tudo o que fosse referente à Igreja e à Religião.
Todos os dias ela rezava o Rosário, pedindo a intervenção da Santíssima Virgem para dar-lhe a graça de ser mãe e para converter o duro coração de seu marido. Nunca podia ir à Igreja, porque o Dr. Roberto lhe dizia:
— Igreja, para quê? Dizem que ali é a casa de Deus. Imagine se Deus vai querer estar recolhido em um só lugar... Deus já tem sua casa no Céu, e não precisa de casas nesta Terra!

Raquel ouvia estas palavras com lágrimas nos olhos e muita dor: como alguém podia ser tão ingrato para com Deus, que nos deu o ser, a vida, a natureza, em uma palavra, nos deu tudo?
Como teria ele se esquecido das graças recebidas na infância, sobretudo quando fizera a Primeira Comunhão?
Entretanto, não desanimava e continuava rezando e rezando.
Uma tarde, porém, o advogado chegou a casa comentando haver recebido a proposta de assumir um escritório de advocacia na cidade vizinha.
Esta era pequena, é verdade, mas todos os casos jurídicos daquelas redondezas estariam em suas mãos. Estava decidido a aceitar o oferecimento e se mudariam dentro de um mês.
Diante da perspectiva de uma nova vida, as esperanças de Raquel aumentaram. Talvez em uma cidade menor seu esposo teria mais tempo para ouvir a voz de Deus...
E não se enganara! Naquela cidadezinha onde se estabeleceram, todos os dias o bimbalhar dos sinos enchia o ar com seus sonoros timbres, a convidar para a Missa da manhã e da tarde.
Muito sensível à música, Dr. Roberto sempre parava os trabalhos e se dirigia à sacada para escutar melhor aqueles belos sons.
Seu novo escritório ficava na rua principal da cidade, no segundo andar de um velho solar, muito bem cuidado e atraente.
E todos os dias, na mesma hora, ouvindo a melodia dos sinos, ele observava uma velhinha que, devagar, subia a ladeira que levava à Catedral. Não passava um só dia sem que a anciã passasse por ali, vestida com simplicidade e modéstia, com andar lento e seguro. E pensava ele:
— Deve estar indo para a Igreja. Que haverá ali, para atrair uma senhora desta idade, sem faltar um único dia?
E a dureza do advogado foi sendo abrandada pela perseverança da devota velhinha. Raquel não deixava de rezar e, algumas vezes, acompanhava o marido à sacada do escritório, vendo também a fiel anciã em sua caminhada para assistir à Missa.
Como desejou acompanhá-la... Confiava que algum dia isso ainda aconteceria.
Chegou o inverno e, com ele, a neve. A cidadezinha, em meio às altas montanhas, ficou alvíssima, porém gelada. E pela altitude, o vento castigava ainda mais!
Em uma tarde especialmente fria, Dr. Roberto decidiu fechar o escritório mais cedo, porque começou uma tempestade de neve tremenda. Nem mesmo os sinos da Catedral tocaram para a Missa da tarde.
No entanto, a graça divina trabalhava o coração daquele incrédulo advogado... Olhando para o relógio e vendo ser a hora da Missa, pensou:
— Ah! Hoje não há nem sinos! Impossível “minha velhinha” se aventurar a fazer uma caminhada tão arriscada!
E, automaticamente, aproximou-se da porta da sacada. Qual não foi sua surpresa, quando viu a velhinha, com seu passo ainda mais lento, encurvada pelo vento, toda encapotada, dirigindo-se à Missa.
Mas como a ladeira tinha muita neve, a pobre senhora teve que se auxiliar na subida apoiando as mãos no chão, para não escorregar.
Boquiaberto, Roberto exclamou:
— Não é possível! Que fará esta senhora ser capaz de enfrentar tal intempérie?
Pegando o sobretudo, o cachecol, o gorro e calçando as galochas, decidiu segui-la. Precisava saber que força impulsionava aquela senhora!
Ao chegar à ladeira, não teve mais remédio senão imitar a anciã, também apoiando as mãos no chão, pois estava tudo muito resvaladio.
Quem diria! Aquele incrédulo advogado enfrentando uma tempestade de neve, praticamente andando de quatro, para ver o que havia naquela Igreja, a qual ele tanto desprezara...
Entrando na Catedral, a penumbra da iluminação, a luz da lamparina do Santíssimo, o som do canto gregoriano, entoado pelo padre e seu coroinha, e a voz firme da velhinha respondendo a Missa tocaram sua alma!
Olhando para o sacrário, cuja porta dourada parecia reluzir em meio a todo aquele ambiente de paz, caiu de joelhos, chorando, e dizendo baixinho:
— Verdadeiramente, aqui é a casa de Deus! É a porta do Céu!

Terminada a Missa, chamou o sacerdote e contou-lhe toda a sua história. Pediu a Confissão e, a partir de então, fez um propósito de nunca mais abandonar a Religião.
Voltando para casa, contou tudo a Raquel, que, emocionada, só agradecia a Nossa Senhora o milagre desta conversão.
Todavia, como a Virgem Santíssima não se deixa ganhar em generosidade, algum tempo depois, recompensou a piedosa senhora, com a graça da maternidade.
A cada criança que nascia, o jovem casal logo a levava para batizar e a consagrava a Nossa Senhora, para ser Ela mesma seu auxílio e amparo durante esta peregrinação terrena.
E tão logo o bebê começava a compreender as coisas, o que o Dr. Roberto lhe ensinava primeiro, mostrando a imponente torre da Catedral, na hora do bimbalhar dos sinos, era:
— Veja, tocam os sinos da igreja. Ali é a casa de Deus! É a porta do Céu!
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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