Omnia est gratia – Tudo é graça no campo sobrenatural. O homem, abandonado às suas próprias forças, é incapaz de dar um só passo rumo à união efetiva com Deus. Sem o auxílio divino, não há conversão, progresso espiritual nem santidade, e é impossível merecer a vida eterna.1
Diante dessa verdade, impõe-se uma inevitável pergunta: como conciliar a eficácia da graça divina com a liberdade humana?
A dificuldade acentua-se, em grande medida, por causa do orgulho e do liberalismo, cada vez mais reinantes em nosso tempo.
O mundo prega a autossuficiência absoluta, a felicidade subjetiva, o relativismo moral e a liberdade ilimitada, como se fossem bens supremos.
Em sentido oposto, considera um mal toda ajuda, correção ou sugestão externas, sobretudo quando inspiradas na doutrina católica e na Lei eterna.
A Teologia tomista, porém, rejeita tais noções. Para o Doutor Angélico, o livre-arbítrio é um dom precioso, ordenado por Deus ao bem e passível de ser orientado por outras pessoas, para a aquisição ou aprimoramento da virtude e a repulsa ao pecado.2
Assim, nem toda influência combate o alvedrio, exceto se resultar de uma coação. Neste caso, o ato não procederia de um movimento voluntário, mas de uma imposição externa: “A coação não é outra coisa que a imposição de certa violência”.3
Deus, porém, age no interior das almas sem coerção. Através da graça as inspira, auxilia e firma na virtude.
Sua onipotência compromete o livre-arbítrio? Não! Quando Deus muda a vontade humana, faz uma inclinação suceder a outra, de maneira a remover a primeira e conservar a segunda.
Assim, o rumo para o qual Ele conduz a vontade não contradiz a nova inclinação da alma. Não há, portanto, violência nem repressão.4
Tomemos, com o Aquinate, o exemplo de uma pedra. Pela gravidade natural, ela se inclina para baixo. Mantida essa inclinação, se for lançada para cima sofrerá violência. Entretanto, se Deus retirar da pedra a inclinação da gravidade e lhe comunicar a da leveza, então o movimento ascendente já não lhe será coactivo.
Dessa mesma forma, Ele age na vontade humana de modo eficaz, mas sem constrangê-la, segundo os desígnios sapienciais e amorosos de sua Providência.5
Consequentemente, a alma justificada pela graça se encontra mais inclinada às alturas celestes, sem padecer agressão. Deus não suprime nem reduz nossa liberdade. Pelo contrário!
Embora o livre-arbítrio consista em nossa capacidade de escolher, quando optamos pela verdade, pelo bem e pelo belo conquistamos a verdadeira liberdade, a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8, 21). Eleger o erro, o mal e o feio é sucumbir à escravidão dos filhos de Satanás.
Assim nos ensinou Mons. João: “Escolher o bem é a suma liberdade!”6