Dado a público pela Secretaria Geral do Sínodo, o Instrumentum laboris traz uma cuidadosa síntese das propostas feitas pelas Conferências Episcopais e outros organismos eclesiais de todo o mundo, a serem analisadas com profundidade pelos Bispos durante a magna Assembleia.
O documento, segundo informa o Secretário Geral, Dom Nikola Eterovic, concentra-se “sobretudo nos aspectos positivos da Celebração Eucarística”. E menciona também
algumas omissões ou negligências na celebração da Eucaristia, felizmente bastante marginais, mas que servem para tomar uma maior consciência do respeito e piedade com que os membros do Clero e todos os fiéis devem abeirar-se da Eucaristia para celebrar o seu sagrado mistério.
Esclarece ainda Dom Nikola que
o “Instrumentum laboris” destina-se aos Padres sinodais como documento de trabalho e de ulterior reflexão sobre a Eucaristia, que, como coração da Igreja, a impele na comunhão para um renovado esforço missionário.
Eis, em seguida, alguns excertos desse importante documento.
Continuidade doutrinária
O depósito da Fé eucarística, não obstante diversas controvérsias doutrinais e disciplinares, chegou até nós, por graça da Divina Providência, na sua pureza original, em virtude sobretudo da doutrina de dois Concílios ecumênicos: o de Trento (1545-1563) e o do Vaticano II (1962-1965).
Muito contribuíram para uma melhor compreensão do mistério eucarístico diversos Sumos Pontífices, entre os quais merecem particular menção os Papas Paulo VI e João Paulo II, de veneranda memória, ambos empenhados em aplicar a nível da Igreja universal as deliberações do Concílio Vaticano II.
Durante o Pontificado de João Paulo II, a Igreja Católica foi enriquecida com grandes documentos sobre o Sacramento da Eucaristia.
Basta recordar o Catecismo da Igreja Católica, a Encíclica Ecclesia de Eucharistia e a Carta Apostólica Mane nobiscum Domine.
Também o atual Santo Padre Bento XVI entende colocar o seu Pontificado na mesma perspectiva de atuação do Concílio Vaticano II e em fiel continuidade com a bimilenar tradição da Igreja, ao anunciar à Igreja inteira, já na primeira alocução dirigida através do Colégio dos Cardeais, que a Eucaristia é o centro permanente e a fonte do serviço petrino que lhe foi confiado.
O vínculo que dá legitimidade à Eucaristia
Somente a Eucaristia congrega na unidade a Igreja contra toda fragmentação. A única Igreja querida por Cristo aponta sempre para uma Eucaristia que se realiza em comunhão com o Colégio Apostólico, cujo Chefe é o Sucessor de Pedro.
É esse o vínculo que dá legitimidade à Eucaristia. Não é conforme com a unidade eucarística querida por Cristo limitar-se a uma comunhão transversal entre as Igrejas chamadas irmãs.
É elemento intrínseco ao Sacramento a comunhão com o Sucessor de Pedro, princípio de unidade na Igreja, depositário do carisma de unidade e universalidade, que é o carisma petrino.
Portanto, a unidade eclesial manifesta-se na unidade sacramental e eucarística dos cristãos.
Eucaristia e necessidade da Confissão dos pecados
O Sacramento da Reconciliação restabelece os vínculos de comunhão que o pecado mortal rompeu. Merece, portanto, especial atenção a relação da Eucaristia com o Sacramento da Reconciliação.
Em muitos países perdeu-se ou está-se perdendo a noção da necessidade de se converter para receber a Eucaristia.
A relação com a Penitência nem sempre é entendida como a necessidade de estar em estado de graça no momento de receber a Comunhão, e por isso negligencia-se a obrigação de confessar os pecados mortais.
Muitos fiéis sabem que não se pode receber a Comunhão em pecado mortal, mas falta-lhes uma ideia clara do que seja o pecado mortal. As causas podem ser várias, mas uma das principais é a falta de catequese sobre o tema.
Um outro fenômeno muito comum é o de não facilitar com horários apropriados o acesso ao Sacramento da Reconciliação.
Em certos países, não se celebra a Penitência individual; no máximo, faz-se duas vezes por ano uma celebração comunitária, segundo uma modalidade a meio caminho entre a II e a III fórmulas previstas no Ritual.
Considera-se necessário dar a possibilidade de se confessar antes da Missa, adaptando os horários à real situação dos penitentes, e mesmo durante a Celebração Eucarística, como recomenda o Motu Proprio Misericordia Dei.
Será preciso estimular os sacerdotes a uma maior disponibilidade para o ministério da Confissão, como ocasião privilegiada de se tornarem sinais e instrumentos da misericórdia de Deus.
Sombras na celebração da Eucaristia
A comunhão eclesial é gravemente perturbada e ferida por sombras que se verificam na Celebração Eucarística.
Verifica-se uma quebra de frequência na celebração do Dies Domini (Dia do Senhor) nos domingos e dias de preceito, devida a uma insuficiente noção do conteúdo e significado do mistério eucarístico e ao indiferentismo.
Isso, sobretudo nos países em acelerado processo de secularização, onde frequentemente o domingo se transforma num dia de trabalho.
Falta um justo equilíbrio na celebração: passa-se de um ritualismo passivo a uma criatividade exagerada, que por vezes assume expressões de protagonismo do celebrante da Eucaristia, caracterizado não raras vezes pela loquacidade e por comentários exagerados e longos, que não deixam falar o Mistério através do rito e das fórmulas da liturgia.
Notam-se, tanto da parte do Clero como dos fiéis, faltas e sombras na prática da Celebração Eucarística, que parecem ter a sua origem num diminuído sentido do sagrado em relação ao Sacramento.
É o caso do desleixo no uso dos devidos ornamentos litúrgicos por parte do celebrante e dos ministros; a falta de decência no vestir por parte dos que participam na Missa; a semelhança de certos cantos usados no culto com cantos profanos.
Também a tácita conivência na eliminação de certos gestos litúrgicos, porque considerados demasiado tradicionais, como a genuflexão diante do Santíssimo Sacramento; uma imprópria distribuição da Comunhão na mão, por falta de uma conveniente catequese.
Também as atitudes pouco reverentes, antes, durante e depois da celebração da Santa Missa, não só da parte dos leigos, mas também do próprio celebrante; a fraca qualidade arquitetônica e artística dos edifícios e alfaias sagradas.
Sem contar os casos de sincretismo, resultantes de uma precipitada inculturação das formas litúrgicas, à mistura com elementos de outras religiões.
Por vezes tem-se a impressão de que, na liturgia, alguns se comportam como animadores, mais preocupados em chamar a atenção do público para a sua pessoa, do que ser servos de Cristo, chamados a levar os fiéis à união com Ele.
Tudo isto obviamente tem reflexos negativos no povo, que corre assim o risco de ficar confuso na compreensão e na fé na presença real de Cristo no Sacramento.
Significado profundo dos gestos litúrgicos
Na tradição da Igreja criou-se uma verdadeira e própria linguagem dos gestos litúrgicos, orientada a exprimir retamente a Fé na presença real de Cristo na Eucaristia, tais como a cuidadosa purificação dos vasos sagrados depois da Comunhão e quando caem no chão as espécies eucarísticas.
Também a genuflexão diante do sacrário, o uso da bandeja na distribuição da Comunhão, a substituição regular das Hóstias conservadas no sacrário, a colocação da chave do sacrário em lugar seguro, a postura respeitosa e o recolhimento do celebrante em consonância com o caráter transcendente e divino do Sacramento.
Omitir ou descurar tais sinais sagrados, que contêm um significado mais profundo e vasto que o seu aspecto exterior, certamente não ajuda a manter firme a Fé na presença real de Cristo no Sacramento.
A própria posição do sacrário em lugar facilmente visível é outra maneira de evidenciar a Fé na presença de Cristo no Santíssimo Sacramento.
A esse respeito, pede-se uma maior reflexão sobre a justa colocação do sacrário nas igrejas, de acordo com as disposições canônicas.
Importância da homilia
Uma parte importante da liturgia da Palavra é a homilia, feita pelo ministro sagrado com o fim de ajudar os fiéis a aderirem com a mente e o coração à Palavra de Deus.
Para esse efeito, muitos aconselham homilias mistagógicas, que, a partir das leituras proclamadas, ajudem a introduzir os fiéis nos sagrados mistérios, iluminando com a luz de Jesus Cristo as suas vidas, sem, porém, alusões e referências indevidas ou profanas.
Sempre com base nos textos da Sagrada Escritura, haveria que pensar também em homilias temáticas, que levem a repropor, ao longo do ano litúrgico, os grandes temas da Fé cristã: o Credo, o Pai Nosso, a estrutura da Santa Missa, os Dez Mandamentos e outros temas.
Respeitar a estrutura do rito
Do conjunto das respostas aos Lineamenta pode delinear-se o seguinte quadro, no que se refere às sombras na celebração da Eucaristia.
Ao mesmo tempo que se nota uma atitude de desconfiança para com as rubricas litúrgicas, inventam-se outras com o intuito de promover mudanças inspiradas em ideologias ou desvios teológicos.
Nesse campo, não poucas iniciativas provêm de movimentos e grupos que se propõem renovar a liturgia.
É frequente a observação de que a insistência nas normas universais, geralmente defendida pela Igreja como expressão da catolicidade, contrasta com as celebrações litúrgicas particulares de certos movimentos eclesiais.
A esse respeito, pede-se uma maior clareza por parte das autoridades competentes da Igreja a fim de evitar confusões.
Uma vez introduzidas as línguas vernáculas, há que respeitar a estrutura do rito, único modo de sublinhar visivelmente a unidade da Igreja Católica de tradição ocidental. Os fiéis são muito sensíveis a eventuais mudanças arbitrárias do rito.
Observa-se, em certos casos, que o excesso de iniciativa leva a manipular a Missa, chegando por vezes a substituir os textos litúrgicos por outros estranhos. Tal comportamento cria frequentes conflitos entre o Clero e os leigos, e mesmo no próprio presbitério.
Para dissipar tais sombras, as respostas aos Lineamenta propõem algumas orientações.
É necessário promover um renovado espírito de oração, aliado a um maior esforço de formação permanente do Clero, para reforçar a atitude de humilde adesão ao espírito e à letra das normas litúrgicas.
E assim poder prestar um verdadeiro serviço ao povo de Deus, chamado a dar graças e a elevar preces ao seu Senhor no Espírito Santo através da divina liturgia.
Deverá explicar-se aos fiéis o alcance da Fé eucarística. Na Eucaristia, os fiéis alimentam-se do Corpo de Cristo ressuscitado.
O Senhor ressuscitado, vencedor do pecado e da morte, ultrapassa as dimensões do espaço e do tempo, e está realmente presente sob as espécies do pão e do vinho em cada Celebração Eucarística do mundo inteiro.
Devem eliminar-se, com uma catequese apropriada, as possíveis concepções mágicas, supersticiosas ou espiritistas da Eucaristia. Semelhante catequese é extremamente útil nas Missas de cura, que se fazem nalguns países.
É urgente precaver-se contra os sacrilégios com hóstias consagradas, que se cometem nos ritos satânicos e nas chamadas missas negras.
Gregoriano, modelo de canto litúrgico
O povo de Deus, reunido na casa do Senhor, exprime a ação de graças e de louvor com as palavras, a escuta, o silêncio e o canto.
Diversas respostas aos Lineamenta pedem que o canto na Missa e na adoração seja verdadeiramente digno. Sente-se a necessidade de fazer com que o povo conheça o repertório essencial do canto gregoriano. Portanto, é preciso rever os cantos atualmente em uso.
O canto gregoriano responde a essas exigências, por isso é o modelo no qual se inspirar, como disse João Paulo II.
É, pois, necessário favorecer, entre os compositores de música e os poetas, a composição de novos cantos, que possuam um verdadeiro conteúdo de catequese sobre o mistério pascal, sobre o domingo e sobre a Eucaristia, e sejam redigidos com critérios litúrgicos.
A propósito, vê-se a importância de evitar formas musicais que não favoreçam a oração, por estarem condicionadas às exigências do uso profano.
Papel do latim
Recomenda-se, igualmente, que nas reuniões internacionais, pelo menos a Oração Eucarística seja proclamada em latim, para facilitar uma adequada participação dos concelebrantes e de quantos não conhecem a língua local, como oportunamente sugere a Constituição sobre a sagrada liturgia, Sacrosanctum Concilium.
Pede-se para conservar o uso do latim, sobretudo nas celebrações de caráter internacional, de modo a exprimir a unidade e a universalidade da Igreja relativamente ao rito da Igreja-Mãe de Roma.
Conviria que os cristãos de todos os países fossem capazes de rezar e cantar em latim alguns textos fundamentais da liturgia, como o Glória, o Credo, o Pai Nosso.
Muitos comungam sem a devida preparação
A Eucaristia e a vida moral são inseparáveis, já porque, alimentando-se do santo Sacramento, se obtém a transformação interior, ou porque a Eucaristia leva o homem renascido no Batismo a uma vida segundo o Espírito, uma nova vida moral, que não é segundo a carne.
Diversas respostas insistiram na relação entre Eucaristia e vida moral, evidenciando uma notável tomada de consciência da importância do empenho moral derivado da Comunhão eucarística.
Não faltam referências ao fato de demasiados fiéis receberem a Comunhão sem refletir suficientemente sobre a moralidade da sua vida.
Alguns comungam mesmo negando a doutrina da Igreja ou dando público apoio a opções imorais, como o aborto, sem pensar que estão cometendo atos de grave desonestidade pessoal e dando escândalo.
Existem, de fato, católicos que não compreendem por que seja pecado grave apoiar politicamente um candidato abertamente favorável ao aborto ou a outros atos graves contra a vida, a justiça e a paz.
As implicações sociais da Eucaristia
Um efeito essencial da Comunhão eucarística é a caridade que deve penetrar na vida social.
O Concílio Vaticano II e o Papa Paulo VI falaram da presença diversificada de Cristo: é preciso ajudar os cristãos a compreender o que significa para a Fé a ligação entre o Cristo da Eucaristia e o Cristo presente nos seus irmãos e irmãs, sobretudo nos pobres e marginalizados da sociedade.
O amor pelos pobres e marginalizados não foi apenas objeto da pregação de Jesus, mas deu sentido a toda a sua vida.
A solução dos problemas grandes e pequenos da humanidade é o amor, não o fraco e retórico, mas o que Cristo nos ensina na Eucaristia; amor que se dá, que irradia e se sacrifica.
Devemos rezar para que Cristo vença as nossas resistências humanas e faça de cada um de nós uma testemunha credível do seu amor.
Conclusão – A redescoberta da beleza da Eucaristia
Na Carta Apostólica Mane nobiscum Domine, o Papa exorta os Pastores a se empenharem para que a Eucaristia seja celebrada com maior vitalidade e fervor, mas sobretudo com “uma maior interioridade”.
O amor ao culto eucarístico passa através de uma redescoberta da beleza da celebração do sacrifício eucarístico na oração de adoração e de ação de graças.
As sombras na celebração da Eucaristia, para as quais se quis acenar a fim de apresentar com realismo os dados fornecidos pelas respostas aos Lineamenta, dissipar-se-ão na medida em que o debate sinodal, e portanto eclesial, redescobrir a grandeza do dom do Mistério eucarístico.
Isso sem jamais esquecer a finalidade principal do Sínodo: procurar em profundidade, mediante a experiência da colegialidade episcopal, os caminhos que o Espírito Santo suscita hoje na Igreja, para que a Eucaristia seja verdadeiramente fonte e ápice da sua vida e missão, isto é, da nova evangelização, de que o mundo tem urgente necessidade.