Talvez cause surpresa a algum leitor esse fato que tem chamado a atenção dos estudiosos imparciais da História: o aumento contínuo de publicações dedicadas exclusivamente à Idade Média.
De que tratam, especificamente, essas obras?
De tudo, desde grandes visões de conjunto dos principais acontecimentos desse período histórico, até detalhes minúsculos, mas cheios de vida e colorido.
Por exemplo, a revista bimestral Moyen Age – de alto nível intelectual e primorosa apresentação gráfica, editada na França desde 1997 – oferece a seus leitores ilustrativos artigos sobre cidades, castelos, grandes batalhas, trajes, costumes, ornamentos litúrgicos, móveis e coisas do gênero.
Não lhe falta sequer uma seção de receitas culinárias medievais, na qual se ensina a preparação de simples lanches, como “torradas ao queijo brie”, e de pratos muito refinados, como “frango ao creme provençal”.
Uma nutrida seção intitulada Bibliotèque apresenta resenhas de livros recém-lançados, grande número dos quais em inglês, o que comprova o interesse de leitores também de outros países.
Nessa revista podem-se ler reportagens fartamente ilustradas sobre feiras medievais realizadas… em pleno terceiro milênio.
Nelas, feirantes vestidos a caráter oferecem aos visitantes objetos decorativos, roupas, comidas típicas da época, além de livros, fitas de vídeo, e até maquetes desmontadas de torres e catapultas, para o próprio comprador montar.
Igualmente de alto nível é a bem-cotada revista The Medieval Review, editada pelo Instituto Medieval da Universidade de Western Michigan (EUA).
Sua equipe editorial é formada por professores de diversas universidades norte-americanas, bem como da França, Inglaterra, Alemanha, Hungria, Canadá e Austrália.
Na primavera de cada ano, esse Instituto promove um congresso medievalista em Kalamazoo (Michigan), do qual participam milhares de pessoas de todo o mundo.
Em concorridos e bem-ilustrados painéis e conferências, especialistas apresentam um apanhado bastante amplo da cultura medieval. Cada dia se encerra com apresentações musicais e espetáculos de danças… medievais, é claro.
Voltando à França, realizou-se na cidade de Châlons-en-Champagne, de 10 de setembro a 15 de janeiro passado, uma exposição de arte sacra medieval.
Além de admirarem as 137 peças artísticas expostas, os visitantes podiam beneficiar-se de um ciclo de conferências intitulado Ao encontro da Idade Média.
Lições dos cavaleiros medievais
Mais significativo do que tudo isso, entretanto, parece ser o fato noticiado pela BBC News (10/11/2005) sob o sugestivo título de Dez lições dos cavaleiros medievais.
Segundo essa notícia, o Condado de Lincolnshire está obrigando crianças “rebeldes” a fazer um “curso de Cavalaria”, com duração de oito semanas, com o objetivo de prevenir atitudes antissociais.
Quais os valores conexos com a Cavalaria que podem servir de modelo para os jovens de Lincolnshire? Alguns especialistas consultados relacionaram dez.
Um deles é a misericórdia, que constitui um dos conceitos-chave do cavalheirismo; daí se tira uma lição para os meninos hodiernos: nas disputas, tratar com brandura o adversário vencido.
Outro é a proteção dos fracos; o cavaleiro medieval era o protetor dos fracos contra a prepotência dos maus; para imitá-lo, o jovem deve tomar a defesa dos colegas mais fracos quando os veem perseguidos por maus companheiros ou pelas quadrilhas juvenis.
Assim por diante, o curso apresenta aos alunos várias outras virtudes do cavaleiro medieval, tais como a generosidade, a lealdade, o senso de justiça, etc.
E qual tem sido o resultado? “O principal benefício da Escola de Cavalaria é a notável melhora no comportamento dos meninos”, declara o porta-voz da polícia de Lincolnshire.
O veredicto de Leão XIII
Como interpretar esse aumento de interesse pela Idade Média em pleno século XXI? Não o sabemos, e talvez seja prematuro levantar hipóteses a tal respeito.
Todavia, vêm-nos à lembrança as célebres palavras do Papa Leão XIII na Encíclica Immortale Dei (01/11/1885) sobre esse período da História, diante do qual sempre teve uma atitude positiva:
Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil.
Então a religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos príncipes e à proteção legítima dos magistrados.
Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios.
Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.
As centenas de novas obras que agora se publicam todo ano sobre a Idade Média têm o mérito de pôr ao alcance do grande público o conhecimento detalhado dos “frutos superiores a toda expectativa” aos quais alude Leão XIII.