Evangelho
Naquele tempo, 5Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6 Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-Se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. 7Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: “Dá-Me de beber”. 8Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. 9A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que Tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Respondeu-lhe Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-Me de beber’, tu mesma Lhe pedirias a Ele, e Ele te daria água viva”. 11A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar água viva? 12Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?”
13Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. 14Mas quem beber da água que Eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que Eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. 15A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.
16Disse-lhe Jesus: “Vai chamar teu marido e volta aqui”. 17A mulher respondeu: “Eu não tenho marido”. Jesus disse: “Disseste bem que não tens marido, 18pois tiveste cinco maridos e o que tens agora não é o teu marido. Nisto falaste a verdade”. 19A mulher disse a Jesus: “Senhor, vejo que és um profeta! 20Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”. 21Disse-lhe Jesus: “Acredita-Me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. 23Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. 24Deus é espírito, e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade”. 25A mulher disse a Jesus: “Sei que o Messias (que Se chama Cristo) vai chegar. Quando Ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas”. 26Disse-lhe Jesus: “Sou Eu, que estou falando contigo”.
27Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: “Que desejas?” ou “Por que falas com ela?” 28Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: 29“Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que Ele não é o Cristo?” 30O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus. 31Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: “Mestre, come”. 32Jesus, porém, disse-lhes: “Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis”. 33Os discípulos comentavam entre si: “Será que alguém trouxe alguma coisa para Ele comer?” 34Disse-lhes Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra. 35Não dizeis vós: ‘Ainda quatro meses, e aí vem a colheita’? Pois Eu vos digo, levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! 36O ceifeiro já está recebendo o salário e recolhe fruto para a vida eterna. Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe. 37Pois é verdade o provérbio que diz: ‘Um é o que semeia e outro o que colhe’. 38Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam, e vós entrastes no trabalho deles”.
39Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: “Ele me disse tudo o que eu fiz”. 40Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. 41E muitos outros creram por causa da sua palavra. 42E disseram à mulher: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4, 5-42).
I – O Reino de Deus já está no meio de nós
O Reino de Deus, idealizado pelo Pai desde toda a eternidade e ansiado pelos justos do Antigo Testamento, tornou-se uma realidade muito próxima dos homens quando o Filho Unigênito, encarnado no seio virginal de Maria, nasceu na Gruta de Belém. Naquele tenro Menino cumpria-se o desígnio divino de “reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão na terra” (Ef 1, 10).
Nos albores do Novo Testamento, a Santíssima Virgem já revelara algo a respeito desse Reino ao exaltar, no Magnificat, a onipotência d’Aquele que derruba dos tronos os orgulhosos e eleva os humildes (cf. Lc 1, 52).
Também Zacarias, pai de João Batista, havia louvado em seu cântico esse altíssimo plano de Deus, que começara a se concretizar na criança concebida por Isabel na velhice (cf. Lc 1, 68-79).
O Precursor representaria o marco divisório entre a expectativa e a efetivação de tal maravilha, como afirma o Divino Mestre: “Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam. Porque os profetas e a Lei tiveram a palavra até João” (Mt 11, 12-13).
Numerosas são as circunstâncias descritas pelos Evangelistas nas quais vemos Nosso Senhor Jesus Cristo propagando o Reino e ensinando sobre ele.
Aos fariseus que certo dia Lhe perguntaram quando seria instituído, respondeu que não viria de modo ostensivo, nem se limitaria a este ou àquele lugar, e acrescentou: “Pois o Reino de Deus já está no meio de vós” (Lc 17, 21).
Com efeito, ele consiste sobretudo na vida da graça, infundida nas almas pelo Batismo como uma semente de glória que desabrochará inteiramente no Céu. Nesse sentido, trata-se de um Reino invisível, oferecido a toda a humanidade através dos Sacramentos, embora se manifeste também de forma visível na Santa Igreja enquanto sociedade hierárquica, instituída pelo Redentor para distribuir suas graças.
Um exemplo de seu incansável empenho em conduzir cada alma à participação no Reino de Deus é a conversa com a samaritana, contemplada pela Liturgia neste 3º Domingo da Quaresma.
II – A conversa que alimentou e descansou Jesus
Encontrava-Se o Divino Mestre no primeiro ano de vida pública, regressando de Jerusalém à Galileia após as celebrações pascais. Sua visita ao Templo nessa ocasião fora marcada pela expulsão dos vendilhões com um chicote de cordas (cf. Jo 2, 15) e outros milagres, à vista dos quais “muitos creram no seu nome” (Jo 2, 23). Entre estes, contava-se inclusive um membro do Sinédrio, Nicodemos, que procurou Jesus à noite para conversar (cf. Jo 3, 1-21).
Dali Nosso Senhor havia partido com os seus para os campos da região, onde Se deteve a fim de evangelizar (cf. Jo 3, 22). Entretanto, ao saber que os fariseus tinham se inteirado de que “Ele recrutava e batizava mais discípulos que João” (Jo 4, 1), o Mestre decidiu deixar aquelas terras e prosseguir viagem.
Atravessar a Samaria, situada entre a Judeia, ao sul, e a Galileia, ao norte, equivalia a boa parte do percurso realizado pelos galileus que se deslocavam para as festividades anuais na Cidade Santa. Contudo, visando evitar as vexações dispensadas pelos samaritanos aos peregrinos que por lá passavam, era frequente as caravanas desviarem o trajeto e contornarem o território hostil.1
No trecho de São João selecionado pela Liturgia deste domingo, porém, vemos Nosso Senhor e os discípulos seguirem o caminho mais curto, penetrando diretamente no país rival.
Jesus senta-Se junto ao poço de Jacó
Naquele tempo, 5Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-Se junto ao poço. Era por volta do meio-dia.
Sicar era uma modesta aldeia localizada próximo à célebre Siquém, onde Abraão havia edificado o primeiro altar em honra do Senhor, ao chegar à terra de Canaã (cf. Gn 12, 7). Tempos depois Jacó, retornando da Mesopotâmia, acampara nas cercanias da cidade (cf. Gn 33, 18-19). Tendo adquirido o lote no qual levantara sua tenda, legou-o mais tarde a seu filho predileto (cf. Gn 48, 22).
Na época de Nosso Senhor, o poço, cavado na rocha, constituía importante fonte de abastecimento para os habitantes de Sicar, motivo pelo qual era muito bem conservado. Provavelmente uma tampa cobria-lhe a boca e um parapeito construído ao redor facilitava o serviço dos que tiravam a água.
Imaginemos a poética cena descrita pelo Evangelista: num dos horários mais quentes do dia, o Salvador, fatigado pela caminhada, senta-Se majestosamente à beira do poço, tornando-o uma extraordinária relíquia.
Uma iniciativa do próprio Deus
7Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: “Dá-Me de beber”. 8Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.
Alguns comentaristas aventam a hipótese de São João ter permanecido com o Mestre enquanto os outros discípulos providenciavam uma refeição. Isso explicaria a meticulosa vivacidade do relato do Apóstolo Virgem, o qual sempre foi mais próximo de Jesus que os demais.2
Todavia, é também plausível que Nosso Senhor estivesse só quando a mulher ali se apresentou com sua ânfora. Decerto percebeu ser Ele judeu e, julgando que a desprezaria, nem sequer O fitou.
Como se tratava de uma função própria às donas de casa, não havia nenhuma falta de delicadeza da parte de Jesus em deixá-la executar a tarefa por si. Ela necessitava de água e viera apanhá-la; entretanto, qual não foi sua surpresa quando ouviu aquele Homem dirigir-lhe a palavra, pedindo de beber.
Já nesses primeiros versículos, podemos traçar uma analogia com certo modo de agir da Providência ao permitir que experimentemos nossa fraqueza e contingência em relação a Deus.
Quando enfrentamos dificuldades, dramas, provas ou tentações, e buscamos a solução na graça, pela oração, ao chegarmos ao “poço” Nosso Senhor está à nossa espera, e é Ele quem toma a iniciativa de nos dizer: “Preciso do teu sacrifício, do teu esforço, da tua fé. Dá-Me de beber”.
O Evangelista, empenhado em mostrar a beleza da ação do Salvador junto à samaritana, não indica se ela de fato O atendeu, oferecendo-Lhe água. Semelhante é a história de cada um de nós: as provações desaparecem, mas o encontro com Nosso Senhor nos marca para sempre.
Sublime método de apostolado
9A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que Tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato, os judeus não se dão com os samaritanos.
Segundo costumes já antigos no tempo de Nosso Senhor, sob nenhum pretexto os judeus deviam se relacionar com os samaritanos, em virtude de profundos atritos religiosos.
Os habitantes da Samaria haviam se misturado com comunidades estrangeiras deportadas da Assíria e, embora também adorassem o verdadeiro Deus, formavam uma dissidência do culto hebraico, recusando-se a admitir Jerusalém como centro sagrado da religião.
Como é peculiar à perspicácia feminina, a samaritana logo intuiu algum mistério em Jesus e, por isso, pensou assombrada: “Eu não entendo; um judeu qualquer jamais agiria assim… Este Homem não parece comum”.
10Respondeu-lhe Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-Me de beber’, tu mesma Lhe pedirias a Ele, e Ele te daria água viva”.
Com seu insuperável método de apostolado, Jesus prosseguiu a conversa mencionando algo próprio a despertar o interesse de sua interlocutora: a água viva, corrente, de melhor qualidade que a conservada no poço. Por meio dessa figura, visava abrir a alma da samaritana para conhecer o dom de Deus e, sobretudo, Aquele que com ela falava.
Assim age o Altíssimo conosco, até quando rejeitamos uma graça: sem nunca desistir, toma a iniciativa de nos visitar com novas propostas, novos estímulos, novos convites, pois ninguém deseja tanto a nossa conversão e felicidade eterna quanto Ele.
A mulher, pervadida de admiração por Nosso Senhor, ficou ainda mais intrigada.
A fé conduz ao desejo de conhecer
11A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar água viva? 12 Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?”
Não há nessas perguntas qualquer nota de desprezo, mas sim uma intuição cheia de fé. Ela pouco entendia, mas a tal ponto acreditava que queria penetrar no mistério e, por isso, se pôs o problema: “Não será este Homem, de fato, maior que Jacó?”
Um pormenor a se ressaltar é a forma de tratamento dispensada por ela a Jesus, chamando-O “Senhor”. A fé progredira em sua alma e, apesar de ainda não julgar ser Ele Deus, a samaritana passou a considerá-Lo como alguém superior. Hesitando se Ele era ou não um profeta, apresenta essas questões com muita habilidade feminina, para levá-Lo a revelar-lhe mais sobre Si mesmo.
13Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. 14Mas quem beber da água que Eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que Eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.
Avançando de modo paulatino na conversa, nestes versículos Nosso Senhor a convida a subir da materialidade para um plano mais elevado.
Muito mais expressiva que a pré-figura da rocha golpeada por Moisés, consignada no Antigo Testamento (cf. Ex 17, 5-6), mostra-se a imagem usada pelo Divino Mestre para falar à samaritana sobre os efeitos da graça que Ele concede à humanidade.
Se o patriarca de Israel fez brotar da pedra água em abundância para dessedentar o povo, o Salvador promete colocar em cada um de nós uma fonte divina: a vida sobrenatural, introduzida, fortificada e revigorada pelos Sacramentos. Jorrando continuamente, ela tranquiliza as más inclinações, além de produzir alegria, consolo e satisfação espiritual.
Uma repreensão bem aceita
15A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.
Embora já vislumbrasse um sentido sobrenatural nas palavras de Nosso Senhor, ainda não lhe estava claro que Ele falava de uma água espiritual. Com senso prático característico ao gênero, ela logo pensou no benefício imediato que a oferta lhe proporcionaria.
Obrigada a gastar horas ao longo da semana transportando seu cântaro para encher um pequeno reservatório em casa, imaginava ter encontrado em Jesus a solução para tal contingência e, esperançosa, abriu-se por inteiro à ação d’Ele.
Eis aqui ilustrada uma sapiencial tática do Divino Mestre para lidar com as almas: conquistar-lhes a confiança por meio de um fato concreto e comum do cotidiano, através do qual se coloquem nas mãos de quem as quer ajudar. Quando elas dão esse passo, é o momento de corrigir.
16Disse-lhe Jesus: “Vai chamar teu marido e volta aqui”. 17A mulher respondeu: “Eu não tenho marido”. Jesus disse: “Disseste bem que não tens marido, 18pois tiveste cinco maridos e o que tens agora não é o teu marido. Nisto falaste a verdade”. 19A mulher disse a Jesus: “Senhor, vejo que és um profeta!”
Leviana em seus costumes, a samaritana vivia numa péssima situação moral, infelizmente muito comum em nossos dias.
Contudo, ela se mostrou humilde ao ser repreendida, reconhecendo imediatamente que não andava bem. Se fosse orgulhosa, teria se ofendido, esbravejado que Jesus a acusava de um absurdo, apanhado o jarro e ido embora.
Em sua reação, pelo contrário, transparece admiração: “Ele penetrou no fundo de minha consciência e viu toda a minha história! É, de fato, um Homem especial!” Maravilhando-se assim com Aquele que a corrigia, essa mulher alcançou o perdão. De modo análogo, quantas pessoas se convertem e se salvam por aceitarem as censuras de um sacerdote no confessionário!
Saint-Sulpice de Fougères (França)
Adorar o Pai em espírito e verdade
20“Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”. 21Disse-lhe Jesus: “Acredita-Me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. 23Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. 24Deus é espírito, e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade”.
Do poço de Jacó podia-se divisar o Monte Garizim, onde os samaritanos outrora haviam erguido um templo, em contraposição ao levantado pelos judeus no Monte Sião. Embora aquele edifício da Samaria tivesse sido destruído na invasão de João Hircano, a elevação continuava sendo o ponto de referência do culto religioso dos habitantes da região.
Nesse contato com Jesus, a mulher já recebera provas suficientes, claras e irretorquíveis de que Ele, judeu, era um Varão inspirado por Deus e que, portanto, ela e seus correligionários estavam equivocados. Mesmo assim, sua razão relutou contra essa verdade que a graça lhe descortinava, apresentando a Nosso Senhor as velhas objeções samaritanas à supremacia de Jerusalém.
O Redentor, entretanto, nunca desanima ao “perseguir” uma alma. Confirmando e acentuando as impressões místicas que povoavam o espírito de sua interlocutora, não hesitou em refutar o erro ao qual ela se apegava pelos laços da ancestralidade.
Por outro lado, estes versículos reportam à salvação universal, contrária aos conceitos judaicos, que desprezavam todos os povos gentios. A adoração a Deus não pode se restringir a este ou àquele lugar, nem se limitar a exterioridades, mas deve ser uma disposição constante de espírito pela qual, sempre e em qualquer parte da terra, se reverencie ao Senhor.
O prêmio da humildade
25A mulher disse a Jesus: “Sei que o Messias (que Se chama Cristo) vai chegar. Quando Ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas”. 26Disse-lhe Jesus: “Sou Eu, que estou falando contigo”.
A fé se transmite ex auditu, ou seja, penetra na alma através do sentido da audição, conforme ensina São Paulo (cf. Rm 10, 17). Atenta e dócil à pregação de Nosso Senhor, a mulher foi progredindo na fé e atingiu um auge: percebendo não se tratar de um simples profeta, começou a sondar se Jesus era o Cristo, cujo advento os samaritanos também esperavam.
Vendo assim robustecida a fé que Ele mesmo infundira e desenvolvera naquela alma, o Divino Mestre revelou-Se enquanto Messias a essa estrangeira antes que aos judeus. Eis o prêmio da humildade!
Para fazer apostolado, é preciso abandonar o pecado
27Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: “Que desejas?” ou “Por que falas com ela?”
Decerto tocados pelo Espírito Santo, os discípulos mantiveram-se respeitosamente em silêncio, pois discerniram estar acontecendo ali algo mais elevado do que as aparências indicavam.
Eles devem ter perscrutado o Sagrado Coração de Jesus e O encontrado repleto de estima por aquela samaritana, servindo-lhes isso de exemplo: se tal era a dileção dispensada a uma estrangeira, que mistérios de estima e benquerença existiam n’Ele em relação aos que já Lhe pertenciam!
28Então a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: 29“Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que Ele não é o Cristo?” 30O povo saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus.
Tomada de entusiasmo, ela correu a evangelizar seus concidadãos. Sem preocupar-se mais com a água, sequer levou consigo a ânfora. Detalhe simples, mas simbólico de uma conversão autêntica. Ela estava totalmente perdoada, com a alma transfigurada; no completo desprendimento de si, esqueceu-se de todos os interesses antigos.
Podemos imaginar Nosso Senhor Jesus Cristo cheio de alegria, até emocionado, por ver a prontidão com que essa mulher abandonou tudo, deixando-se docilmente conduzir por Ele.
Salvar as almas é o sustento de Jesus
31Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: “Mestre, come”. 32Jesus, porém, disse-lhes: “Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis”. 33Os discípulos comentavam entre si: “Será que alguém trouxe alguma coisa para Ele comer?” 34Disse-lhes Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra”.
Afetuosos, solícitos e serviçais, os discípulos trouxeram para Nosso Senhor diversas provisões compradas na cidade. Alimentos excelentes, obtidos com certa sofreguidão de atender bem ao Mestre. Mas Ele nada quis provar, e talvez nem sequer tenha deitado a mínima atenção à comida, mantendo-Se alheio ao que se passava à sua volta, com o olhar perscrutando o infinito.
Quando insistiram para que experimentasse algo, Ele afirmou possuir um manjar desconhecido, e lhes explicou qual era o seu sustento: contentar o Pai, ou seja, salvar as almas, elevá-las, divinizá-las, a fim de satisfazê-Lo e glorificá-Lo. Nisso consiste o único desejo insaciável de Jesus.
35“Não dizeis vós: ‘Ainda quatro meses, e aí vem a colheita’? Pois Eu vos digo, levantai os olhos e vede os campos: eles estão dourados para a colheita! 36O ceifeiro já está recebendo o salário e recolhe fruto para a vida eterna. Assim, o que semeia se alegra junto com o que colhe. 37Pois é verdade o provérbio que diz: ‘Um é o que semeia e outro o que colhe’. 38Eu vos enviei para colher aquilo que não trabalhastes. Outros trabalharam, e vós entrastes no trabalho deles”.
Vasto é o alcance dessas palavras, indicativas do grande movimento verificado em Israel, e depois no mundo inteiro, das multidões atraídas por Nosso Senhor. E Ele repete tal convite ao longo da História, dizendo a cada geração: “Levantai os olhos, os campos estão amadurecidos para a ceifa!”
Em outro momento, porém, Ele lamentará o escasso número de operários para a abundante messe do Pai (cf. Mt 9, 37). Ora, todos os batizados são chamados a conquistar mais filhos e combatentes para o Reino de Deus, seja pelas atividades apostólicas, seja pelas preces e sacrifícios, impulsionando as obras do bem pela força irresistível, ainda que discreta, da virtude e da oração!
Como veremos nos próximos versículos, os que se dedicam à santificação do próximo estão, no fundo, provendo o sustento de Jesus.
A samaritana deu a Nosso Senhor o verdadeiro alimento
39 Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: “Ele me disse tudo o que eu fiz”. 40a Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus…
Imaginemos Nosso Senhor contemplando a cidade quando, de repente, seu olhar se iluminou: uma multidão surgia no horizonte, vindo apressadamente em sua direção.
Tratava-se dos samaritanos a quem a mulher atraíra contando as maravilhas das quais fora objeto: “Encontrei o Cristo, o Salvador! Eis que o Messias já apareceu em Israel! Sua fisionomia e seus gestos são sublimes, sua voz é encantadora; o que Ele me disse deixou-me pasma!”
Em vez de se entregar a um recolhimento mal concebido, feito de ócio e prazeres egoístas frustrantes, ela se lançou à luta, obtendo um esplêndido resultado.
Os discípulos compraram iguarias deliciosas, mas não deram a Jesus a satisfação proporcionada por essa mulher. Dela o Redentor recebeu o alimento pelo qual ansiava: a conversão de muitas almas, e isto sim constitui uma alegria própria ao Céu, uma alegria à altura de Deus.
Jesus é conhecido, amado e honrado pelos samaritanos
40b…e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. 41 E muitos outros creram por causa da sua palavra. 42 E disseram à mulher: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo”.
Vale a pena lembrar que Nosso Senhor Se sentara à beira do poço por estar extenuado; contudo, Ele atendeu ao pedido daqueles samaritanos e entrou no povoado, permanecendo ali dois dias. As boas disposições dessa gente de fé singela, mas profunda, O descansaram.
Semelhante à difusão da luz numa bela paisagem aberta, a chegada de Jesus à acolhedora cidade deve ter sido suave e, ao mesmo tempo, fascinante.
Podemos conjecturar que Ele foi convidado a visitar várias casas, onde O receberam com entusiasmo e enlevo; que, ao andar pelas ruas, as crianças iam à sua frente num alegre burburinho, enquanto uma considerável multidão O seguia passo a passo, observando nas minúcias todos os seus gestos.
Sua amabilidade divina, a confiança recíproca entre Ele e aquele povo, manifestada ora em pregações para uma numerosa assistência, ora em conversas particulares, tudo arrebatava!
São João conclui a narração registrando o reconhecimento dos habitantes de Sicar, que se dirigiram à mulher para tratar a respeito de Jesus. Ultrapassando os estreitos conceitos israelitas, que delineavam o Messias apenas como um libertador nacional, creem ser Ele “o Salvador do mundo”.
A samaritana sobre a qual Nosso Senhor pousara seu olhar de benquerença e perdão havia Lhe retribuído o amor com amor, levando muitos outros a se beneficiarem, como ela, do dom de Deus.
III – A água nova oferecida pelas mãos de Maria
Com palavras geniais e inspiradas pelo Espírito Santo, ao comentar esse Evangelho Santo Agostinho considera a samaritana como “figura da Igreja ainda não justificada, mas já a caminho da justificação”, porque ela seria constituída especialmente pelos que “não pertenciam à raça judaica”.3
Se o Doutor de Hipona vivesse em nosso século e penetrasse nos acontecimentos presentes como o fez nos fatos precedentes à sua época, quiçá afirmasse que atualmente há uma nova samaritana, formada por uma geração de natureza débil e vontade inconstante, muito inferior àquela que se encontrou com Nosso Senhor junto ao poço de Jacó.
Nascida em meio a cultos idolátricos absurdos e estúpidos, que causariam irrisão aos pagãos da Antiguidade, ela se converteu e foi batizada, mas deixou-se enganar pelo demônio e se arrasta num longo processo de decadência que a desequilibra e debilita cada vez mais.
Contudo, a Providência hoje convida essa segunda samaritana a servir-se de uma nova água, viva e abundante, retirada do poço – que parecia seco – pelas mãos puríssimas e virginais de Nossa Senhora: as graças inéditas do Reino de seu Imaculado Coração.
Quando esse caudal de graças mariais descer sobre a humanidade, a Santa Igreja, tão perseguida em nossos dias, não apenas será restaurada, mas adquirirá um esplendor insuperável, por cujo vigor desabrocharão flores e frutos extraordinários até o fim do mundo.
Na perspectiva do futuro brilhante que nos aguarda, peçamos:
“Vinde, ó Senhor, não tardeis! Tudo está gasto na humanidade; os homens voltaram as costas à vossa Lei Encarnada, Jesus Cristo, e constituíram um mundo ateu, relativista e igualitário, a ponto de se encontrarem prestes a adorar o demônio. Convertei a nova samaritana, tornai santa essa geração estropiada de mente e de nervos. Manifestai a vossa onipotência inaugurando o quanto antes a era histórica na qual reinará triunfante a Santa Igreja, e, para tal, tornai-nos vossos instrumentos”.
Museu de Arte Religiosa, Puebla (México)