“Cantai ao Senhor um cântico novo, porque Ele operou maravilhas” (Sl 97, 1).
O Senhor realiza continuamente maravilhas na sua Igreja. Um desses prodígios sois vós, caríssimos irmãos, Arautos do Evangelho, que dentro de pouco receberão o grande dom da ordenação diaconal e presbiteral, no clima de ardorosa espera, de silêncio orante e de adoração.
Através de vós, o Senhor manifesta a sua bondade ao seu povo, a sua fidelidade à Igreja. É pela graça de Deus que sois o que sois, na esperança de que em vós não seja vã a sua graça.
Gostaria de traçar com singeleza, para vós e convosco, a imagem do sacerdote de Jesus Cristo, tal qual o deseja a Igreja.
O sacerdote é um homem de fé profunda
Na Carta aos Hebreus está dito que Moisés tinha fé firme, “como se visse o invisível” (Hb 11, 27).
O mundo dos divinos mistérios deve ser transparente para o sacerdote, real pelo menos tanto quanto o mundo visível.
Ele deve olhar os acontecimentos, a História, a humanidade sob o ponto de vista das realidades eternas, sub specie æternitatis; deve falar a partir da perspectiva da eternidade, pois essa perspectiva é sempre atual.
Simone Weil escrevia em 1942, em Londres: “Quereis ter certeza de ser atuais? Falai das coisas eternas”.
As palavras vindas da eternidade encontram um eco particular no coração do homem. Nelas o povo de Deus reconhece a voz do verdadeiro Pastor.
Certamente as pessoas estimam a capacidade organizadora, o sábio senso de administração do sacerdote, mas, sobretudo, esperam que seja um homem de fé viva e firme.
“Escolhidos entre os homens” (Hb 5, 1), permanecemos homens, com nossos limites e fragilidades, mas nossa humanidade está misteriosamente enxertada na humanidade de Cristo.
E por isso nossa voz comunica o timbre da sua, nossas mãos realizam sua ação salvadora, nosso coração acolhe e transmite as batidas do Coração de Cristo!
O sacerdote deve ser um homem de oração
É graças à oração que sua fé será cada vez mais firme, é através da oração que ele estabelecerá um contato constante com o Senhor.
É Deus quem vos buscou e vos escolheu (cf. Jo 15, 16), aproximou-se primeiramente de modo misterioso, e a seguir de modo cada vez mais claro. Ele vos escolheu e vos chamou, teve paciência, porque n’Ele confiastes.
Fomos escolhidos por Cristo Jesus e chamados a participar, de modo único e singular, de sua obra, a continuá-la em nossa carne, em nossa vida.
Ser sacerdote significa tornar-se amigo de Jesus Cristo, e isso cada vez mais em toda a nossa existência.
O mundo precisa de Deus – não de um deus qualquer, mas do Deus de Jesus Cristo, do Deus que se fez carne e sangue, que nos amou a ponto de morrer por nós, que ressuscitou e criou em Si um espaço para o homem.
Esse Deus deve viver em nós, e nós n’Ele. É esse o nosso chamado sacerdotal: apenas assim a nossa ação sacerdotal produzirá frutos.1
Também vós, caríssimos Ordenandos, como nós, vossos irmãos no sacerdócio, sereis misteriosamente inseridos, com vossa vida, com vossa humanidade, no mistério da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus, que é o coração do Cristianismo, e nesse mistério sois chamados a penetrar cada vez mais na oração.
O Santo Padre Bento XVI dizia no dia 6 de outubro de 2006 aos membros da Comissão Teológica Internacional: “Silêncio e contemplação são necessários para poder encontrar, na dispersão da vida quotidiana, uma permanente união com Deus”.
Falando com o sacerdote, as pessoas percebem se ele vive em união com Deus ou na dispersão do coração.
Esse relacionamento de amor com o Senhor se nutre com a meditação diária da sua Palavra, com a Liturgia das Horas, com a adoração da sua presença contínua na Eucaristia, com a oração confiante a Maria, sua Mãe.
O vértice e a fonte da força espiritual do sacerdote deve ser a celebração quotidiana do Sacrifício Eucarístico. A Eucaristia nos leva a fazer da nossa vida um oferecimento a Deus.
Na Santa Missa, ademais, celebra-se o mistério da nossa morte ao homem de pecado, que nos permite viver em Deus. Assim, a Santa Missa é um novo acontecimento cada dia, pois todo dia podemos renascer no coração de Deus.
A Eucaristia é sempre a hora do amor “até o fim”, a hora da disponibilidade a renunciar a si mesmo.
Se vivêssemos verdadeiramente o mistério eucarístico, isso nos mudaria radicalmente.
O que faz da Eucaristia um mistério aterrador – escrevia o Cardeal Ratzinger – é o fato de que o sacerdote é autorizado a falar com o “Eu” de Cristo (in persona Christi).
Tornar-se sacerdote, ser sacerdote significa avançar continuamente no caminho dessa identificação.
Nunca chegaremos ao fim, mas se procurarmos essa identificação, estaremos no bom caminho: no caminho que conduz a Deus e aos homens, na via do amor.2
O sacerdote é o homem da Palavra
A Palavra de Deus é como um fogo ardente no seu coração (Jr 23, 29). A Palavra vos é dada, a Palavra vos é confiada!
Dizia Bento XVI: ”Na loquacidade do nosso tempo, na inflação das palavras, dizei as palavras essenciais, a Palavra que vem de Deus, a Palavra que é Deus”.
Que a Palavra em vós seja viva e pura, e desse modo, potente a ponto de não poder ser retida, livre para sair dos vossos lábios com força irresistível.
O Senhor Jesus vos mostra como fazer. Com que estado de espírito aproximar-se daqueles que têm ouvidos e corações fechados. O Evangelho fala de um encontro pessoal, único, irrepetível.
Fala de uma comunicação verdadeira, de pessoa a pessoa. É uma indicação preciosa para nós hoje, numa sociedade onde parece que só na massa que grita é possível manifestar-se, vibrar, exprimir-se.
Com demasiada frequência, a massa, a multidão é apenas uma máscara para as nossas solidões.
Jesus não despreza as multidões, sabe como falar a muitas pessoas, mas, ao mesmo tempo, procura sempre o coração de cada homem e de cada mulher, o coração do indivíduo.
Liberar a Palavra, eliminar tudo quanto a torna débil, um apego excessivo a si mesmo, a divisão do coração, a atenção exagerada aos bens materiais e tudo aquilo que possa sobrecarregá-la.
A Palavra de Deus exige uma plena liberdade interior, uma pertencença incondicional ao Senhor e à sua Igreja. “A palavra de Deus, esta não se deixa acorrentar” (IITim 2, 9).
O sacerdote é um homem de alegria e de esperança
A alegria do coração é fruto de um renascimento, é uma vitória sobre si mesmo e sobre o mundo – como a Fé. Sentir-se feliz por viver, porque a vida é dom e liberdade, sentir-se feliz por ser cristão e membro da Santa Igreja Católica.
Sentir-se feliz porque o Senhor nos chamou ao sacerdócio e nos confiou sua Palavra de esperança e de consolação.
Convencei-vos de que sois necessários ao mundo enquanto sacerdotes, porque o mundo precisa de Deus, porque sem Ele a vida não tem sentido.
Deus é o único antídoto contra a tristeza e o desespero, por ser o único remédio contra a morte, como dizia o poeta Pierre Emmanuel: “Viver para Deus ou viver para a morte”. E para que os homens não vivam para a morte, Cristo vos envia às encruzilhadas do mundo a fim de convidá-los à vida.
Como sacerdotes, aproximar-vos-eis das alegrias e das esperanças, das tristezas e das angústias dos homens de hoje, dos pobres e, sobretudo, de todos aqueles que sofrem; nada de quanto é genuinamente humano deixe de encontrar eco em vosso coração.3
Não sereis senhores no mundo, mas servos, para levar a todos o Evangelho da salvação.
Vivei na alegria! Nenhuma dificuldade, nenhuma debilidade pode ser motivo para abandonar-se à tristeza e ao desespero. No sacerdote deve prevalecer sempre a certeza de ser amado imensamente, de um amor eterno, incondicional.
E se o seu coração o condena, lembrai-vos que Deus é maior que nosso coração e tudo sabe (I Jo 3, 20).
O sacerdote deve ser Santo
Apesar das numerosas ocupações, apesar das preocupações de todo gênero, nunca vos esqueçais de que sois chamados a ser Santos: “Porque essa é a vontade de Deus, a vossa santificação” (ITs 4, 3). Vivei, portanto, “como convém a Santos” (Ef 5, 3).
E a santidade feita de fidelidade, no cumprimento humilde dos deveres de cada dia, na submissão à vontade de Deus.
É a santidade acessível a todos, sabendo que “nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável. Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem” (II Cor 4, 17).
Para concluir, desejo, junto com todos vós, dirigir-me ao Deus de todas as consolações e, pela intercessão de Maria, nossa terníssima Mãe, Mãe dos sacerdotes, rezar:
Pai, faze destes teus filhos
um reflexo fiel do teu eterno amor,
capaz de entregar-se sem reservas
para que teu povo cresça
na fé profunda, na esperança certa, na caridade operosa.Conforma-os à imagem de teu Filho,
sejam acolhedores com todos,
servos por amor,
ouvintes abertos e vigilantes,
anunciadores humildes e altaneiros
da Palavra que é vida,
profetas do Reino vindouro,
sacerdotes do único sacrifício,
pastores e guias transparentes
dos peregrinos no caminho rumo à Pátria da tua promessa.Enche-os do teu Espírito, Pai,
e faze que sejam sempre
colaboradores da alegria de quantos lhes confiarás, hoje e sempre,
transmitindo a todos fidedignamente
a graça inexaurível do teu amor.
Amém! Aleluia!4